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O crescimento da infraestrutura digital está movimentando o debate econômico brasileiro principalmente quando colocamos data centers e energia como estratégias para competitividade, inovação e soberania tecnológica. Em encontro promovido pela ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software), especialistas do setor público e privado analisaram como o avanço da inteligência artificial acelera a demanda por capacidade computacional e pressiona o planejamento energético.

O crescimento digital depende de coordenação entre políticas públicas, disponibilidade energética e infraestrutura de transmissão. Para Andriei Gutierrez, Presidente da ABES, o Brasil reúne condições relevantes, como matriz energética majoritariamente renovável, mas precisa enfrentar desafios estruturais para transformar esse potencial em vantagem competitiva e atrair investimentos em larga escala.

Pressão imediata sobre o sistema elétrico

Igor Barreto, Gerente de Acesso ao Sistema de Transmissão do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), trouxe informações que a demanda por energia associada aos data centers já deixou de ser uma projeção e passou a ser uma realidade operacional. Cerca de 96% das solicitações recentes de conexão à rede básica são de projetos de data centers, somando aproximadamente 7 GW. Esse volume revela uma mudança estrutural no perfil de consumo e impõe desafios inéditos à gestão do sistema, e ele destacou: “como que a gente vai viabilizar toda essa quantidade de empreendimentos em condições seguras e adequadas, né, para que o operador possa desempenhar o seu papel da melhor forma?”.

Barreto explicou também que o modelo de acesso à rede está em transição, deixando de operar por ordem de chegada para adotar um sistema por “temporadas”, com análise simultânea dos projetos. A medida busca maior eficiência na alocação de capacidade, mas ocorre em um contexto de escassez de margem e concentração geográfica, especialmente em São Paulo. Para o ONS, o principal desafio é equilibrar segurança, custo e velocidade de conexão diante de uma demanda que cresce de forma exponencial e ainda com alto grau de incerteza. Barreto pontuou que “o desafio é se a gente vai aproveitar essa oportunidade estratégica de incorporar essa demanda no sistema. Então, todos as instituições do setor tem trabalhado para facilitar a conexão e o acesso ao sistema dessas demandas digitais que que já são uma realidade”.

Planejamento sob incerteza e a nova “corrida do ouro”

Participantes do encontro promovido pela ABES.

Representando a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Daniel José Tavares de Souza, Consultor Técnico da Superintendência de Transmissão de Energia, ressaltou que o planejamento da transmissão enfrenta uma nova dinâmica marcada pela entrada de grandes cargas eletrointensivas, com destaque para data centers. Ele classificou o momento como uma “segunda corrida do ouro”, caracterizada pela busca acelerada por pontos de conexão na rede, o que amplia a complexidade do planejamento e reduz a previsibilidade.

Tavares enfatizou que o ciclo de expansão da transmissão pode levar de cinco a sete anos, enquanto projetos de data centers demandam conexão em prazos muito mais curtos. Esse descompasso cria um dilema: investir antecipadamente e correr o risco de ociosidade ou atrasar investimentos e limitar novos projetos. O especialista também apontou que a situação não é “uma realidade só do Brasil, é uma realidade mundial e que se depara com algumas questões associadas à inviabilidade de conexão. Certamente é um mercado que vai buscar soluções em outros países. Então, a gente aqui não tem uma previsibilidade completa do grau de concretização desses projetos”. Os empreendimentos dependem de garantia de conexão para avançar, enquanto o sistema precisa de sinais concretos de demanda para justificar a expansão.

Viabilidade depende de energia, conectividade e ambiente regulatório

Na visão das empresas que atuam no ecossistema de data centers, Carla Cassalha, Diretora da DataSpots, falou sobre a implantação dessas estruturas, indo além da disponibilidade de terreno, exigindo análise técnica detalhada que vai desde capacidade elétrica até condições operacionais. Ela explicou que a escolha do local para um data center tem que olhar “todo o ecossistema. Eu preciso de conectividade, eu preciso uma boa localização, eu preciso que não tenha problema de enchentes, por exemplo. Eu preciso que tenha fibra ótica chegando nesse terreno, mais de um ponto, pois precisa de redundância. Porque um data center funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Então, eu preciso prever que caso aconteça alguma coisa, o meu sistema não pare de funcionar”.

A concentração de projetos em regiões como São Paulo reflete não apenas a infraestrutura existente, mas também a pressão sobre a rede e a competição por capacidade. Carla também buscou desmistificar percepções sobre o setor, como o impacto tarifário e o consumo de recursos. Ela afirmou que data centers arcam com os custos de conexão e podem investir diretamente em infraestrutura elétrica, além de utilizarem sistemas de resfriamento mais eficientes. A executiva reforçou que o Brasil tem potencial para atrair investimentos bilionários, mas depende de políticas públicas, como incentivos fiscais e segurança regulatória, para se tornar competitivo globalmente e reter o processamento de dados, que hoje em sua maioria é realizado no exterior.

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