Leonardo Dutra, da EY. Crédito: Claudio Belli/Valo

O relatório “Estado das Finanças para a Natureza”, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estima que uma lacuna de financiamento de US$ 4,1 trilhões na natureza precisa ser eliminada até 2050. O objetivo é que o mundo alcance suas metas de mudanças climáticas, biodiversidade e degradação do solo. Para isso, o PNUMA destaca que o setor privado deve intensificar e aumentar seu financiamento para a natureza.

A percepção mais clara da conexão entre ativos naturais e o valor do negócio, no entanto, ainda é um desafio para o enfrentamento dos impactos de um clima em mudança. De acordo com o Nature Risk Barometer, realizado pela EY, apenas 5% dos conselhos de administração têm supervisão direta sobre a natureza e a biodiversidade. Por outro lado, há uma evolução em curso, com 27% das 369 empresas avaliadas integrando a biodiversidade em suas agendas de sustentabilidade.

O estudo anual da consultoria analisa relatórios de empresas em 10 setores nos Estados Unidos, Canadá e América Latina, incluindo o Brasil, com base nas 14 recomendações da TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures). Lançado em 2022, esse framework é considerado pelo PNUMA como um divisor de águas para empresas e instituições financeiras na gestão e divulgação de riscos e impactos relacionados à natureza.

Em entrevista ao Coletivo Tech, Leonardo Dutra, sócio-líder de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da EY Brasil, comenta os principais pontos da última edição do Nature Risk Barometer. Entre eles, os progressos nas práticas empresariais voltadas à natureza, as oportunidades de inclusão do tema nas estratégias corporativas e a necessidade de incorporar riscos às estruturas de governança.

Karen Ferraz: O Nature Risk Barometer aponta que apenas 5% dos conselhos de administração supervisionam diretamente a natureza e a biodiversidade, o que evidencia uma lacuna em governança. Qual a importância de integrar a biodiversidade nas agendas de sustentabilidade e quais oportunidades estão sendo perdidas?

Leonardo Dutra: A integração da biodiversidade nas agendas de sustentabilidade é crucial porque as empresas dependem da natureza. Por exemplo, 80% da água usada para geração de energia na América Latina provém do bioma amazônico, que evapora cerca de 20 trilhões de litros de água por dia. A dependência da natureza se estende à produção agrícola e à qualidade do ar. O que a TNFD proporciona é uma percepção mais clara da conexão entre ativos naturais e o valor do negócio. Muitos setores, como mineração, oil and gas e energia, já consideram ativos naturais há algum tempo, pois lidam diretamente com eles.

A TNFD fornece um framework para o reporte, mas a adesão ainda é baixa por ser relativamente novo, lançado durante a pandemia. O tema ainda está se consolidando na agenda de negócios, e a percepção da dependência de ativos naturais ainda é limitada. Esse sempre foi um risco, mas agora existe um framework para quantificá-lo e gerenciá-lo.

E que benefício econômico isso pode gerar? Os exemplos de oportunidades incluem créditos de carbono e a conservação da biodiversidade, que podem ser transformados em ativos tangíveis e comercializáveis. Podemos fazer um comparativo com a inovação e a inteligência artificial: esses temas foram discutidos por muito tempo, e as empresas que se adiantaram alcançaram vantagem competitiva. Portanto, as empresas que primeiro entenderem o quanto os ativos naturais representam riscos para seus negócios e o quanto esses ativos podem se tornar oportunidades terão vantagem em governança, transparência, equilíbrio socioambiental e econômico, atratividade de capital e diversificação de portfólio.

KF: O Brasil, por sua grande biodiversidade, oferece uma janela de oportunidade maior?

LD: Acredito que sim, e também por uma questão geopolítica. Se olharmos para todo o Sul Global, o único lugar que é “pacífico” e que tem ativos naturais preservados, apesar do desmatamento, e capacidade de transformá-los em capital financeiro é o Brasil. Ou seja, é um país em desenvolvimento que pode ter uma posição de destaque no futuro. Considerando uma visão de 30 ou 40 anos, o país pode tirar uma grande vantagem disso.

Até mesmo a regulamentação já reconhece essa oportunidade. A EUDR (Regulamentação Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento), por exemplo, representa o bloco europeu dizendo ao mundo que quer comprar produtos que não estejam contaminados por desmatamento ou por impacto aos direitos humanos. Empresas e geografias que tiverem essa condição terão novos mercados globais. O Brasil pode ser essa grande vertente verde.

KF: Outra lacuna evidenciada pelo barômetro é a baixa incorporação de riscos e ameaças ambientais nas estruturas de governança (apenas 43% das empresas divulgam indicadores ambientais, focando em água, desmatamento, reflorestamento e espécies ameaçadas). Como a má gestão de riscos pode impactar o negócio a médio e longo prazo?

LD: Em nossa cultura latino-americana, a mudança muitas vezes é impulsionada por enforcement. Dificilmente nos movemos por questões mais aspiracionais, com raras exceções. De maneira geral, as empresas latino-americanas se movem por legislação. E, se olharmos as últimas, elas vêm subindo a régua. Pela primeira vez, a bolsa está obrigando as empresas no Brasil a relatar sustentabilidade. As normas IFRS (International Financial Report Standard) já têm duas outras consultas públicas abertas para direitos humanos e biodiversidade, além dos aspectos climáticos. Então, o primeiro impacto é o regulatório.

Um segundo impacto é a consolidação de negócios voltados à natureza, especialmente os modelos regenerativos que transformam ativos naturais em capital financeiro. Empresas que não se adaptarem perderão oportunidades de investimento e novos mercados. Como terceiro aspecto, a mudança climática é um risco transversal que impactará todos os negócios. A falta de adaptação aumentará os custos a longo prazo, como já se observa com os gastos públicos em eventos climáticos extremos.

KF: A resiliência climática é um tópico que cresce nos discursos dos CEOs, no sentido de as empresas se adaptarem ao novo estado climático do planeta. Diante de um cenário irreversível, como adaptar o negócio e criar práticas para não piorá-lo?

LD: Essa é uma questão muito desafiadora. Mesmo que uma empresa zere suas emissões, ela sofrerá os impactos das outras que não o fizeram, tornando a ação coletiva necessária. A dificuldade reside no multilateralismo, pois se alguns países não participarem da redução de emissões, o esforço individual será ineficaz. Há uma crescente consciência entre os CEOs de que o problema existe e de que ações são necessárias para repensar os negócios em um mundo descarbonizado. Hoje, as empresas estão inventariando suas emissões e quantificando sua contribuição. O próximo passo, possivelmente auxiliado pela TNFD, é entender como isso se torna um processo de adaptação da empresa. Um exemplo é uma empresa de concessão rodoviária que sofrerá com alagamentos, afetando usuários e aumentando custos de manutenção. Se um CEO não considerar isso, terá prejuízos em 5 anos.

KF: Nesse sentido, o relatório aponta avanços na integração da biodiversidade nas agendas de sustentabilidade e métricas ambientais. No entanto, esses números não chegam a 50%. Como ganhar maturidade na agenda de natureza e biodiversidade?

LD: A aderência de 43% é um número bom, já que o framework ainda é novo e foi lançado durante a pandemia. No entanto, a qualidade da implementação ainda é baixa. O relatório indica que a maturidade na agenda de natureza e biodiversidade pode ser alcançada em dois passos: primeiro, verificar se as empresas estão usando o framework da TNFD como um mero “check the box” (cobertura); e segundo, avaliar a qualidade da implementação (alinhamento), ou seja, o que as empresas estão efetivamente fazendo com as informações obtidas. A melhoria na qualidade da implementação, que inclui medir o que os ativos naturais significam para o negócio e atuar com base nisso, é crucial para o avanço da maturidade na agenda.

KF: O barômetro observa que as pontuações de alinhamento são muito mais baixas do que as de cobertura. A falta de transparência sobre essas informações impacta a resiliência das empresas?

LD: A TNFD é composta por quatro grandes pilares: governança, estratégia, oportunidades e risco, e metas e métricas. O ponto de virada é como eu olho para isso do ponto de vista da integração da natureza ao meu negócio. Tomando o exemplo da indústria de bebidas, as bacias hidrográficas de onde a água é retirada já estão historicamente em depleção. Algumas têm 30% a menos de carga hídrica do que a série histórica dos últimos 30 anos. É um ativo natural que está “doente”. Então, é preciso identificar as causas, que podem estar relacionadas ao regime de chuvas, assoreamento, entre outras. A partir disso, é preciso pensar na estratégia para entender como será possível produzir água daqui a 10 anos nesse lugar. Se essa bacia secar, qual é a sua estratégia para tirar sua planta de lá e para onde você vai? Portanto, o elemento natureza tem que entrar na cadeia decisória do negócio, assim como entram a variação cambial, a cadeia de suprimentos, a distribuição e a logística. E a TNFD ajuda muito nisso.

KF: A tecnologia pode ajudar de alguma forma na rastreabilidade e transparência?

LD: Sem dúvidas. Hoje, temos a oportunidade de conectar a tecnologia à natureza e ao meio ambiente em geral. Isso pode ajudar a obter informações de forma confiável e em tempo hábil, permitindo a tomada de boas decisões. O monitoramento de desmatamento feito pelo INPE é um exemplo de como a tecnologia fornece informações concretas, confiáveis e rápidas para decisões, inclusive de política pública.

KF: Houve um crescimento notável na forma como as empresas da América Latina estão reportando e se alinhando às recomendações da TNFD. Você comenta que a eficácia dos mercados de capital natural e a valorização desse tema o mantém como prioridade nas agendas dos líderes empresariais. Essa priorização deve continuar?

LD: Sim, a priorização deve continuar. A América Latina tem uma vantagem devido à sua grande extensão de ativos naturais preservados, o que permite que as empresas produzam preservando, ao contrário de países desenvolvidos que tiveram um desenvolvimento baseado na exploração da natureza. Isso coloca a América Latina numa posição de responsabilidade de continuar nesse caminho, e a tendência é que os níveis de aderência continuem subindo nas próximas pesquisas. O Brasil também vivenciou essa lógica, mas agora estamos amadurecendo uma outra visão ecossistêmica. Isso nos favorece, tanto é que nosso percentual de adesão na pesquisa é maior.

KF: O PL do Licenciamento (Projeto de Lei 2159/2021), que visa criar um marco legal para o licenciamento ambiental no Brasil, está em tramitação no Congresso. Essa desburocratização do processo pode impactar nas exportações para mercados rigorosos ou em requisitos exigidos pela bolsa?

LD: Nosso modelo de desenvolvimento socioeconômico, o capitalismo, inevitavelmente causa algum impacto ambiental. Lido essencialmente com capital privado e vejo muita reclamação sobre a burocratização do licenciamento e a demora do processo. Mas não se pode escrever uma lei que passe por cima do princípio da preservação e compensação ambiental. Uma comparação que pode ser feita é com o uso do cinto de segurança: a lei não visa o uso do cinto em si, mas sim a preservação da vida humana. Similarmente, o licenciamento ambiental visa a preservação da natureza, e a lei precisa refletir esse propósito.

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