Cientistas autores do estudo "Brazil Net Zero by 2040".
Cientistas autores do estudo “Brazil Net Zero by 2040”.

O Brasil tem condições técnicas, econômicas e ambientais para zerar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2040, uma década antes da meta atual. Essa é a principal conclusão do estudo “Brazil Net Zero by 2040”, lançado na Academia Brasileira de Ciências (ABC) por um grupo de pesquisadores liderados pelos membros da ABC Carlos Nobre (IEA-USP), Mercedes Bustamante (UnB) e Roberto Schaeffer (Coppe-UFRJ). Também contribuíram para o estudo Eduardo Assad (consultor FGV-Agro / ex-Embrapa), Gerd Angelkorte (Coppe-UFRJ), Luiz Bernardo Baptista (Coppe-UFRJ) e Nathália Nascimento (Esalq-USP).

O professor Nobre alerta que o planeta já se aproxima de um aquecimento global permanente: “pela primeira vez na história, o aquecimento global atingiu 1,5°C desde o segundo semestre de 2023, e todo 2024, que foi o ano mais quente da história”. Isso amplia os riscos de um colapso de diversos ecossistemas como a Amazônia e os recifes de corais. Segundo ele o Brasil tem potencial para liderar uma transição energética graças à sua matriz renovável e capacidade de restaurar florestas.

Modelagem integrada

O trabalho reúne dados científicos de energia, agricultura, indústria, transporte e uso da terra, integrados por meio do modelo BLUES (Brazilian Land Use and Energy Systems Model), uma ferramenta desenvolvida há mais de duas décadas para simular cenários de transição energética e mudanças de uso do solo no país. Schaeffer apresentou três cenários possíveis para alcançar emissões líquidas zero até 2040 sendo o primeiro como cenário de referência alinhado à atual NDC brasileira com uma antecipação de 10 anos.

O segundo cenário é focado em energia, que acelera a descarbonização do setor energético com eletrificação, bioenergia e captura e armazenamento de carbono (BECCS). E por fim o terceiro cenário abrange uso da terra (sistema AFOLU), que prioriza reflorestamento, restauração de biomas e agricultura regenerativa, eliminando o desmatamento até 2030. Schaeffer explica o tamanho do desafio: “um desafio de coordenação de esforço de diferentes setores da economia, como fazer isso de maneira que todo mundo aja na mesma direção e aí a parceria público-privada é muito importante”.

Soluções já existem

A pesquisadora Mercedes Bustamante reforçou que as soluções baseadas na natureza, como restauração florestal e manejo sustentável do solo, já estão disponíveis e podem ser ampliadas rapidamente. Ela também aponta outros desdobramentos para o que está sendo proposto: “muitas das ações colocadas aqui são ações que também vão contribuir com a agenda de adaptação do Brasil à mudança climática e aos eventos extremos. Então é extremamente importante que a gente comece a implementar isso muito rapidamente, não só como uma ação de mitigação, mas também como uma ação de adaptação”.

Os pesquisadores destacam que o país já possui tecnologias e práticas prontas para escalar, como agricultura regenerativa, bioenergia com captura de carbono (BECCS) e reflorestamento de áreas degradadas. O problema não está na falta de soluções, mas na velocidade de implementação e na ausência de coordenação, governança e vontade política.

O estudo conclui que é tecnicamente e economicamente viável zerar as emissões até 2040, desde que haja coordenação entre governo e setor privado, políticas públicas consistentes e investimentos em inovação. Os benefícios vão além do clima e incluem ganhos econômicos e redução de doenças ligadas à poluição.

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