
O novo relatório da tecnologia climática na América Latina e Caribe, elaborado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela HolonIQ, apresenta um contraste entre o potencial da região e a maturidade ainda incipiente de seu ecossistema de inovação. O estudo mapeia mais de 1.200 startups formadas desde 2010 e revela que, apesar do crescimento acelerado, a agenda depende de maior capacidade de P&D, políticas públicas coordenadas e instrumentos financeiros capazes de sustentar as soluções de base científica.
O levantamento mostra que Brasil, México, Chile e Colômbia puxam o setor, impulsionados por suas matrizes energéticas mais limpas, pela disponibilidade de recursos naturais e por seus programas nacionais para transição energética. As frentes mais dinâmicas incluem energias renováveis, agricultura regenerativa, economia circular, manejo de recursos hídricos e mercados de carbono. Mas tecnologias intensivas em hardware (como baterias, soluções de armazenamento, bioinsumos, sensores agrícolas e novos materiais) também ganham força e movimentam as cadeias industriais tradicionais. Contudo, estas tecnologias exigem equipes altamente qualificadas e investidores que tenham disponibilidade para aguardar o tempo de maturação do negócio.
O avanço da descarbonização
Entre os achados do estudo, uma mudança estrutural foi identificada: o avanço de políticas de descarbonização e a expansão de novos mercados, como hidrogênio verde e minerais críticos. Chile e Brasil se destacam nesta frente com projetos de eletrólise de larga escala, enquanto a Argentina e o Peru reposicionam suas cadeias de cobre e lítio para atender à demanda global por eletrificação. A transição, porém, é desigual e o relatório mostra que há defasagem em infraestrutura, gargalos de transmissão, baixa integração regional e volatilidade regulatória.
Do ponto de vista dos desafios, o ecossistema ainda opera majoritariamente em estágios “fundacional” e de “ativação tardia”. Startups reportam dificuldade de acesso a capital, ausência de incentivos por parte dos governos à adoção de tecnologias limpas, escassez de talentos especializados e baixa conexão entre os países da região. O investimento segue concentrado em mitigação de riscos, enquanto soluções de adaptação tão essenciais para agricultura, gestão hídrica e resiliência urbana, seguem subfinanciadas, apesar da vulnerabilidade crescente da região a eventos climáticos extremos.
Potencial sustentável
O documento também aponta oportunidades estratégicas, como a aceleração de fontes renováveis, destacando as energias solar e eólica. A expansão de modelos de economia circular é outro ponto apresentado com grande potencial, assim como a restauração de florestas e bacias hidrográficas. O estudo também mapeou como prioridade o desenvolvimento de infraestrutura resiliente. Já áreas como eletrificação do transporte, dados climáticos e saúde climática avançam mais lentamente, mas tendem a ganhar tração conforme políticas de médio prazo amadurecem.
O relatório deixa claro que a América Latina tem condições de se tornar um polo global de tecnologias climáticas, se souber combinar sua biodiversidade, recursos minerais, cadeias agroindustriais robustas e matriz energética renovável. Mas tudo depende de escala, coordenação e investimento contínuo para transformar o potencial em real impacto econômico e ambiental.
O relatório (em inglês) está disponível neste link.






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