Da Zona Franca de Manaus ao interior, as oportunidades de inovar e preservar no bioma amazônico são imensas. Aproveitá-las, no entanto, pede um entendimento melhor da região, bem como a ampliação de parcerias que envolvam empresas, governo, academia e povos indígenas. Os pontos estiveram em discussão durante a Conferência Diálogos Amazônicos organizada pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Organizada pelo professor da FGV Márcio Holland, que conduziu a sessão de abertura, o objetivo do encontro é ampliar as discussões sobre inovação e empreendedorismo amazônico, com foco em geração de renda para a população local. Na visão do especialista, dialogar sobre a região e as oportunidades que lá se encontram é o melhor caminho para inovar e preservar. 

Um vídeo produzido pelo Centro de Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) trouxe dados que mostram como esse diálogo é ausente e passa até por um letramento do que é a região e o que tem acontecido por lá. Embora 98% das casas brasileiras contem com algum item produzido na Zona Franca de Manaus, como afirmou o presidente do conselho do CIEAM, Luiz Augusto Rocha, 65% dos brasileiros não conhecem a Amazônia de verdade.

O que os dados mostram é uma total desconexão do imaginário popular da realidade das pessoas na região Norte. Enquanto a maioria associa Amazônia ou o Estado do Amazonas como um local apenas de floresta intocada, essa mesma maioria ignora que 76% da população da Amazônia Legal vive em cidades. Algo importante de ser considerado é o crescente interesse dos brasileiros por inovação que vem da floresta: 73% mostram interesse em bioeconomia, unindo recursos da floresta com tecnologia. 

Do fóssil ao biodegradável

O interesse crescente está mapeado pelas empresas que integram o complexo industrial do Amazonas. Um exemplo é a Tutiplast, liderada pela diretora-presidente Mariana Barrella. A empresa vem em um movimento de tornar seu produto mais sustentável agregando componentes da floresta e até pensando em um plástico 100% biodegradável. 

“Sempre nos questionamos sobre o impacto do plástico no meio ambiente. Nosso plástico não é o que polui os igarapés (a empresa fornece material para empresas), mas é plástico e está atrelado à cadeia fóssil. A COP 30 não avançou muito nisso porque é uma indústria importante em âmbito global, mas tem oportunidade”, garantiu a executiva

Uma das frentes de investimento da empresa é o bioplástico que utiliza insumos amazônicos. Atualmente, como contou Mariana, a empresa já incorporou 20% de bioplástico ao plástico tradicional. “Temos demanda dos clientes e isso torna nossa estratégia de negócio muito interessante. O ouriço da castanha (componente utilizado no bioplástico) é coletado com comunidades e isso faz com que geremos empregos. Temos 40 famílias no programa e eles fazem renda adicional relevante fabricando esse pó que será incorporado ao plástico.”

Outra aposta é o PLA (poliácido lático) que é 100% biodegradável e de fontes renováveis. Neste caso, Mariana explicou que o uso ainda deve ser para itens não duráveis, como garrafas, tampas, paletas de cosméticos, entre outros, mas não descarta sua aplicação em itens duráveis no futuro. “Nosso segmento é um dos mais questionados em termos de poluição. Em 2018 entendemos que poderíamos pensar coisas diferentes. Sou a segunda geração, meu pai criou a empresa e a conta é responsabilidade minha. E procuramos parceiros, como a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) – ela pode se conectar muito com a indústria -, porque sozinho processo de inovação é caro, demorado e desafiador.” 

Parcerias que fortalecem

Se na indústria do plástico a conexão com insumos da floresta pode parecer algo mais tangível, o que você acharia de uma empresa que, tradicionalmente, produz componentes eletrônicos entender a bioeconomia como possibilidade de alavancar novas áreas de negócio? Esse é o caso da GBR Componentes da Amazônia. A empresa existe há 20 anos e sempre teve em mente pensar a Amazônia no futuro, como explicou Rebecca Garcia, diretora de planejamento estratégico e presidente do conselho de ESG da companhia. 

Rebecca Garcia, diretora da GBR Componentes Amazônicos

“Decidimos investir fora do nosso segmento e, neste momento, entendemos a importância da parceria da indústria, com governo, academia e povos tradicionais. O que nossos ativos podem trazer para fortalecer nossa indústria e, ouvindo todos as pontas, encontramos produtos com potencial fantástico”, relata Rebecca, ressaltando o potencial regional em fármacos e biocosméticos. Essa parceria que ela menciona já resultou em um primeiro produto em fase de aprovação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): uma pomada para úlcera diabética.

Algo importante da estratégia da GBR foi pensar em se aventurar por novos negócios, que estivesse conectado à floresta, mas que, ao mesmo tempo, incluísse pessoas do interior do Estado do Amazonas. “Construímos isso no nosso comitê de ESG e entendemos a importância da bioeconomia como forma de expansão e inclusão. Inovação vai além do tecnológico, ela é mudança de valores e de mindset e este é nosso principal desafio”, refletiu, para provocar: “qual grande desafio da inovação? Subir régua de tolerância aos erros. Só inova quem erra e é custo errar, mas quando acerta, não só lança produto, mas faz revolução. Tenhamos juntos mais tolerância aos erros. Só assim vamos inovar na Amazonia e no Brasil.”

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