Por Flávio Horita*

A urgência e a necessidade de lidar com as mudanças climáticas não são novas. Há anos, diferentes esferas — nacionais e internacionais — reforçam essa causa, não apenas com discurso, mas também com pesquisas e fatos. Estudos indicam que estamos próximos do ponto de não retorno (tipping point), em que o aquecimento global impacta a saúde da população, eleva o nível dos oceanos e intensifica eventos extremos, como chuvas, secas e ondas de calor mais frequentes e severas. Negligenciar o fenômeno pode ser irreversível para a sociedade.

O que também não é novo é a necessidade constante de mais dados para monitorar as variáveis ambientais de interesse. O Brasil conta com milhares de sensores, uma rede de radares meteorológicos e diversas instituições e empresas relevantes atuando no setor. No entanto, isso ainda é insuficiente — principalmente pela extensão territorial do país e pela complexidade na manutenção dos equipamentos.

O que muda no cenário atual é a capacidade tecnológica. Avanços em processamento e inteligência artificial permitem traçar diferentes cenários — generativos, determinísticos ou preditivos — impulsionados pela evolução das GPUs e pela maturidade das IAs generativas.

Essa junção entre IA, dados brutos e monitoramento climático foi tema de um painel durante a Futurecom 2025, no qual destacamos a importância de uma atuação conjunta — e não isolada — entre os temas. Em outras palavras: sem monitoramento climático, não há dados; sem dados, a IA se torna ineficiente; e sem isso, perdemos o potencial de resposta frente às mudanças climáticas. O painel contou com representantes do setor público — CGE, CEMADEN e Anatel — e do setor privado — Climatempo e METOS Brasil.

Nesse contexto, ao projetar o futuro e como esses elementos se conectam, podemos visualizar dois horizontes prováveis e um plausível. Os prováveis já mostram sinais de materialização; o plausível ainda é incerto, com poucas evidências concretas.

O primeiro futuro provável está relacionado ao aumento de eventos extremos em diferentes regiões do país nos próximos anos. Pesquisas apontam para secas mais severas no Nordeste, chuvas intensas e ondas de calor no Sudeste, além de geadas e precipitações no Sul. Esses fenômenos tendem a resultar em inundações repentinas e queimadas — e, inevitavelmente, em uma maior demanda por dados das diferentes localidades do país.

Nesse sentido, o horizonte plausível diz respeito à necessidade crescente de ampliar a coleta e integração de dados. Embora essa necessidade já seja concreta, o alto custo de manutenção e aquisição, somado à falta de alinhamento entre diferentes esferas da sociedade, dificulta prever como isso evoluirá no país. Aqui, a tecnologia tem papel relevante, mas o ponto central é a integração — não apenas dos dados, mas também de governos, estados e empresas — para que cada parte exerça seu papel na construção de uma resiliência climática mais sólida.

Com mais dados disponíveis, o segundo futuro provável envolve o uso crescente de tecnologias modernas para lidar com esses desafios. Sistemas de visualização, monitoramento e integração de dados já existem há algum tempo e continuam a evoluir. O ponto emergente, aqui, é a aplicação da IA na previsão de eventos extremos e no apoio à tomada de decisão. Modelos como o WeatherNext (Google Cloud), o Earth-2 (NVIDIA) e o CT2W (Climatempo) ilustram bem como a IA vem sendo aplicada nesse contexto e, seus resultados tem sido muito promissores.Somado a isso, o avanço das IAs generativas torna o processamento e a integração de dados heterogêneos mais acessíveis — o que pode abrir caminho para novas fontes de dados e fortalecer ainda mais a malha observacional.

O tema é extenso e, certamente, ainda há muito a avançar em nosso país.

A intenção aqui foi lançar luz sobre pautas essenciais para fortalecer nossa capacidade de adaptação às mudanças climáticas — passando, de fato, da observação à ação.

*Flávio Horita é CTO da Climatempo

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