Manish Kumar, CEO da SolidWorks

De personalidade tranquila, sem holofotes e caminhando e conversando com as pessoas pelos corredores do centro de convenções de Houston (EUA). Escrevendo assim, nem parece que falamos de um CEO de uma grande empresa de tecnologia, já que o mais comum na atualidade são personalidades midiáticas e cercada por seguranças e fãs. Esse não é o caso de Manish Kumar, CEO da SolidWorks, um dos braços da gigante francesa Dassault Systèmes.

De anúncios sobre a incorporação de inteligência artificial na plataforma da empresa, passando pelo trio de agentes Aura, Leo e Marie, que auxiliam profissionais com sabedorias específicas, indo da genérica (Aura) e chegando à científica (Marie), mas também trazendo sua visão sobre o potencial de transformação que a IA traz ao mundo SolidWorks e à comunidade de milhões de usuários espalhados pelo mundo, Kumar segue sem sobressaltos. Pé no chão, trata da complexidade com a leveza que um mundo em ebulição pede. 

Indo para praticidades, o discurso sobre inteligência artificial do CEO reforça que a IA não opera de forma isolada: assim como um cérebro precisa de um corpo, sistemas inteligentes exigem estruturas físicas capazes de executar movimentos, suportar cargas, dissipar calor e operar com segurança e confiabilidade. O exemplo do cão robótico ilustra esse ponto ao mostrar que, embora o aprendizado algorítmico seja relativamente simples, a complexidade está na engenharia mecânica necessária para viabilizar o movimento contínuo, estável e resistente às condições do ambiente.

No contexto da SolidWorks e da aplicação de IA de forma consistente, as simulações permitem desenvolvimento de produtos com muito mais agilidade e, na visão da empresa, ressalta a qualidade e as capacidades dos engenheiros, que seriam a espinha dorsal da IA. Desde a fabricação de chips, que depende de sistemas mecânicos altamente sofisticados, até a construção e operação de data centers e infraestrutura energética, cada etapa da cadeia da inteligência artificial exige soluções físicas robustas. Máquinas de escavação, elevação, posicionamento, veículos industriais e sistemas hidráulicos são elementos indispensáveis para que a IA funcione no mundo real.

Nessa toada, Kumar posiciona a IA dentro da sua plataforma como ferramenta estratégica, mas não como algo que substitua engenheiros e projetistas. Criatividade, julgamento técnico e domínio do trabalho físico continuam sendo os fatores que definem a engenharia e moldam o futuro da indústria. Os anúncios e as posições do CEO foram dadas durante o 3D Experience World 2026, principal evento anual da empresa. Foi por lá também que ele concedeu uma entrevista ao Coletivo Tech e os principais destaques dessa conversa você confere a seguir:

Vitor Cavalcanti – Como vocês se anteciparam ao impacto que a IA poderia ter no negócio? Como foi o processo para desenvolver não apenas os gêmeos virtuais, mas toda a estratégia de IA para colocar o SolidWorks à frente no mercado e manter a relevância?

Manish Kumar – Eu li um livro, não lembro exatamente o nome agora, mas o livro falava que, se existe um rio correndo, se você nadar a favor da corrente, consegue ir muito longe. Se você nadar contra a corrente, não vai conseguir, dependendo da força da correnteza.

A realidade é que a IA — ou melhor, a inteligência artificial — é uma realidade de hoje. Você não pode simplesmente ignorá-la. A IA está aqui e vai continuar aqui. A melhor maneira possível é não ter medo dela. Não se assustar. Abraçar a IA. Usá-la na vida diária, na vida profissional, em todas as formas possíveis. Usá-la para conhecê-la, torná-la sua aliada e fazer com que ela trabalhe para você.

Vou dar um exemplo totalmente diferente, mas com o qual todo mundo consegue se identificar. Imagine que, ao ir ao médico, em vez de ele passar tempo com você, ele entra na sala com um laptop digitando: peso do paciente, altura, sintomas. Depois, no final, você ainda precisa passar pelo setor de cobrança, perdendo tempo. Há muito desperdício aí, certo?

Agora imagine que o médico entra na sala, conversa com você normalmente, como paciente. Tudo o que precisa ser registrado é capturado automaticamente por IA. Isso não daria ao médico mais tempo para cuidar do paciente, em vez de gastar tempo com tarefas burocráticas?

O mesmo vale para engenheiros. O tempo gasto em tarefas que você não gosta, mas precisa fazer, não é onde está o valor. O médico não gosta de preencher dados nem cuidar de faturamento, ele gosta de cuidar do paciente, porque esse é o valor principal.

Da mesma forma, para designers mecânicos, engenheiros, makers, empreendedores, o valor principal é ter uma ideia e transformá-la em algo real, algo que possa ser vendido a clientes. O valor não está nos cliques que você precisa dar no sistema para fazer tudo funcionar, para obter informações, para simular coisas no mundo virtual, para acertar na primeira vez.

VC – Por isso você diz que a IA é apenas um multiplicador?

MK – Na verdade, dizendo de outra forma: a IA é apenas um motor. Você é o motorista. Você controla para onde ela vai e como será usada. Então, se você é engenheiro — mecânico, civil ou qualquer outro — e existe um trabalho que não gera valor real para você, você precisa começar a pensar: a IA pode fazer isso por mim?

VC – Então você nunca viu a IA como um risco para o seu negócio? Sempre como algo para expandir capacidades e facilitar o trabalho dos clientes?

MK – Imagine que você esteja anotando algo agora. Automaticamente isso vira uma transcrição. Antes, você precisava gravar, ouvir de novo, transcrever manualmente. Qual é o seu valor? O seu valor é captar a mensagem da conversa e levá-la ao seu público. Converter áudio em texto não é o seu valor. Se a transcrição acontece automaticamente e você consegue extrair as mensagens principais, isso ajuda você a focar no que realmente importa. O mesmo vale para engenheiros.

Simulação do mundo real

VC – Essas ferramentas de IA, como o assistente de design, já estão sendo usadas em projetos reais de produção?

MK – No passado, implementamos funcionalidades isoladas baseadas em IA: geração de desenhos, previsão de comandos, previsão de seleção, e assim por diante. Elas já estão sendo usadas, mas não sabemos exatamente por quantas pessoas. Temos cerca de 8 milhões de usuários e não conseguimos rastrear quantos usam cada recurso, mas meu palpite é que a maioria usa pelo menos um deles. Eu diria que não existe um único usuário que não utilize ao menos uma funcionalidade baseada em IA no nosso software.

VC – O CEO da NVIDIA afirma que vocês foram precursores nos gêmeos digitais antes mesmo de isso ganhar o mercado como ganhou. O que mudou desde o início das simulações até agora, com IA e todo o poder atual dos gêmeos digitais? 

MK – No início, o CAD era apenas uma representação virtual de um objeto para fabricação . Criar um pistão, por exemplo, saber suas dimensões, gerar desenhos e fabricar. Esse era o objetivo principal. Depois, isso evoluiu para permitir protótipos virtuais. No mundo real, você cria protótipos, testa e descarta — é lento. No ambiente virtual, você cria vários protótipos e testa todos em paralelo: movimento, resistência, fadiga, cargas repetitivas.

Por exemplo, uma cadeira precisa suportar milhares de pessoas sentando. No mundo físico, existe uma máquina que testa isso repetidamente, leva tempo, energia e esforço. No mundo virtual, isso pode ser feito rapidamente.
Agora, a IA reduz ainda mais esse tempo. Simular uma fábrica inteira, com milhões de objetos interagindo, antes levaria dias em um laptop. Com IA, isso pode acontecer quase em tempo real. Isso é algo que antes era impossível.

VC – Então é uma IA que entende física, não apenas calcula com base em dados históricos?

MK – Exatamente. Os LLMs atuais não entendem física. O conceito de world model é justamente esse: entender física, porque o mundo real é regido por ela.

VC – Quais áreas você acha que vão adotar isso mais rápido? Aeroespacial, automotiva, fábricas inteligentes?

MK – Vai acontecer em todas. Seja a Volkswagen ou uma pequena empresa com duas pessoas, os desafios são os mesmos: produtividade e tempo de mercado. Se a IA ajuda, todos vão adotar. Não vejo isso segmentado por indústria.

VC – Você não vê barreiras por falta de conhecimento em IA dos clientes? Pensando no Brasil, por exemplo, muitas empresas querem implementar IA, mas os funcionários não sabem usá-la bem.

MK – Se um usuário já usa o SolidWorks e lançamos uma nova funcionalidade, ele simplesmente passa a usá-la. A IA está integrada. Não é algo separado, não exige sair do ambiente. Por exemplo, em vez de navegar por menus para ver estatísticas de um assembly, você pode simplesmente perguntar quantos componentes existem. É mais fácil. Não forçamos ninguém a usar — é opcional.

VC – E sobre a nuvem? O SolidWorks vai se tornar cloud-first?

MK – Para usar IA, eu preciso saber quem você é. Contexto é essencial. Depois disso, preciso acessar os dados que você quer usar. Se os dados estão apenas na memória da sessão, a IA consegue ajudar até certo ponto. Para ir além, é necessário acessar dados na nuvem, sempre com permissão. Não queremos todos os seus dados, mas, sem contexto e acesso, a IA é limitada. Por isso, precisamos saber quem você é. 

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