Pascal Daloz
Pascal Daloz, durante o 3D Experience World 2026. Foto: Divulgação

Esqueça termos como transformação digital ou indústria 4.0. Com tudo que está acontecendo em virtude da combinação de tecnologias e o avanço da IA generativa, dos agentes e gêmeos digitais, esses nomes parecem já não dar conta. Existe uma metamorfose em andamento e a francesa Dassault Systèmes quer estar entre as empresas que lideram essa revolução. E esse desejo fica claro nos discursos dos executivos da empresa, como o do CEO Pascal Daloz, e por alianças como a anunciada com a NVIDIA durante o 3D Experience World 2026.

Para Pascal Daloz, a inteligência artificial não deve ser encarada como uma tecnologia isolada, mas como um multiplicador de habilidades que permite aos engenheiros realizar tarefas de forma exponencialmente mais rápida. Segundo o CEO, a geometria de um projeto hoje carrega todas as informações necessárias para prever comportamentos e processos produtivos. “O virtual não está mais apenas representando o real; o virtual está conduzindo o real”, afirmou Daloz, introduzindo o conceito de que os produtos estão se tornando “objetos definidos por software”.

Essa visão é compartilhada por Mario Belesi, diretor da Dassault – SolidWorks para América Latina. Ele destaca a responsabilidade de entregar soluções que permitam aos clientes lançar produtos no mercado com agilidade máxima e explica que, antes da IA, o engenheiro precisava garimpar detalhes técnicos manualmente; agora, a tecnologia acelera o design e a simulação de forma paralela.

Aura, Leo e Marie

Dentro da estratégia de incorporar IA em seus produtos, uma das apostas são os agentes de IA, ou “companheiros virtuais”. No caso da SolidWorks, são três desses companheiros, cada um focado em um tipo de conhecimento ou inteligência. Enquanto a Aura auxilia o usuário na execução de sua missão e na busca de informações gerais, o Leo é focado no engenheiro, unindo criatividade à resolução de problemas, e a Marie é a cientista que fundamenta os projetos na ciência, automatizando simulações de materiais e testes físicos.

Em diversas demonstrações de como funcionavam os agentes, foi possível visualizar essa agilidade prometida no desenho de um produto e na combinação de conhecimentos de um engenheiro com a biblioteca Dassault, já que o companheiro digital pode até sugerir opções de materiais para o projeto de maneira antecipada.

Belesi avalia que o ponto crucial dessa tecnologia é seu impacto prático: ao desenhar apenas um pé de uma mesa, o software compreende o contexto e gera automaticamente os outros três. Já Daloz reforça que esses agentes permitem transformar o know-how (antes perdido em papéis ou na mente dos colaboradores) em um ativo digital real e escalável, criando o que ele chama de “fábrica de conhecimento”.

Transformação do Modelo de Negócio

Olhando para o modelo da própria Dassault, a transição do mundo on-premise ou de licença perpétua para software como serviço (SaaS), também é algo que acompanha a transformação do mercado e permite uma inclusão ainda maior no volume de profissionais com acesso a esse tipo de tecnologia. Na América Latina, 45% das vendas já seguem o modelo de assinatura, o que reduz a necessidade de hardware potente nas empresas, já que o processamento pesado de simulação é deslocado para a nuvem. No entanto, Belesi afirma que a SolidWorks manterá a flexibilidade, oferecendo tanto o modelo de licenciamento perpétuo quanto o SaaS conforme a necessidade do cliente.

Além dos agentes e do modelo SaaS, Alejandro Chocolat, managing director da Dassault Systèmes para América Latina, entende que a própria parceria com a NVIDIA ampliará acessos. “Ela encurta gaps competitivos com outras geografias. Equaliza o nível de acesso à tecnologia para engenheiros da região latino-americana; eles acessam a mesma tecnologia que engenheiros da Europa ou Estados Unidos”, explicou.

Olhando especificamente para o Brasil, há uma perspectiva otimista, já que o mercado local representa 70% da operação na América Latina (no caso da Dassault, o México é contabilizado com América do Norte). Como exemplos do que tem acontecido no Brasil e que justifica o otimismo, Belesi destaca o papel de centros de excelência como o Senai Cimatec, em Salvador, que utiliza as ferramentas da Dassault para projetos de alta complexidade, como submarinos não tripulados para a indústria offshore. A visão de futuro da empresa inclui ainda forte investimento educacional, exemplificado pela parceria com o Centro Paula Souza, que disponibilizará mais de 10 mil licenças para formar a próxima geração de engenheiros e técnicos brasileiros.

Engenharia regida por dados

No âmbito global, Pascal Daloz vislumbra uma mudança na “moeda” da indústria. Com a IA trabalhando ininterruptamente, o faturamento pode evoluir para a “unidade de trabalho”, que combina o esforço humano e o dos agentes virtuais. Devido a todo esse movimento, Daloz acredita ainda que sairemos da visão de ciclo de vida do produto para IPLM, sigla em inglês para o que seria uma gestão do ciclo de vida da propriedade intelectual, garantindo que os dados de uma empresa permaneçam segregados e protegidos ao utilizar modelos de IA.

A visão da Dassault Systèmes aponta para uma engenharia onde o Gêmeo Virtual é o mestre de cerimônias da produção física. Já que por meio deles as simulações do mundo real no virtual se tornam mais precisas e aceleram a produtividade com mais confiabilidade. Para Daloz, os gêmeos virtuais abrem possiblidades infinitas para engenharia. A promessa da gigante francesa é de uma indústria mais inteligente, segura e centrada no conhecimento digital.

“Toda ideia de futuro que vemos em tecnologia passa por cloud, plataforma, conexões das soluções na mesma plataforma e virtualização, da fábrica, da vida; a próxima etapa é virtualização do corpo humano que no fundo é a mesma coisa”, reflete Belesi.

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