
Por Lucas Bueno*
Durante mais de uma década, a indústria dos smartphones viveu de uma promessa simples. Telas maiores, câmeras cada vez mais perfeitas, chips capazes de competir com notebooks. A corrida era por potência e brilho. Mas o que acontece quando já não há mais o que melhorar?
O ano de 2026 começa a dar essa resposta. O smartphone não vai desaparecer, mas vai mudar de papel. Depois de anos como protagonista absoluto, ele começa a ceder espaço a um ecossistema inteiro de dispositivos inteligentes que orbitam ao seu redor.
O celular deixa de ser estrela e assume o papel de maestro. Ele conecta, coordena, interpreta. O que antes era uma disputa por hardware vira uma busca por experiências mais naturais, mais personalizadas, mais humanas.
Os números confirmam a mudança. Enquanto as vendas de smartphones crescem em ritmo lento, o mercado de acessórios conectados dispara. A inovação agora acontece nos periféricos, não na palma da mão. Relógios, anéis, fones e óculos inteligentes ampliam o alcance da tecnologia e moldam uma nova relação entre pessoas e máquinas.
A IDC mostra que 68% dos consumidores globais acreditam que os smartphones já chegaram ao limite do que conseguem oferecer em termos de hardware. A partir daqui, o jogo muda. O diferencial não está mais na potência, mas na integração. A Counterpoint Research estima que, até 2026, quase 80% dos novos modelos de smartphones virão equipados com sistemas de inteligência artificial que aprendem com os periféricos em tempo real. O resultado é um ecossistema digital que se ajusta a nós, e não o contrário.
O campo da saúde é o melhor exemplo. Smartwatches e anéis inteligentes já analisam sono, batimentos e até níveis de estresse. A IA cruza dados, identifica padrões e sugere pequenas ações para melhorar o bem-estar. O smartphone segue sendo o centro de processamento, mas a interação direta com a tela se torna secundária. A tecnologia se torna silenciosa, quase invisível, mas presente.
Agora, esses dispositivos avançam ainda mais. Além de monitorar sono e frequência cardíaca, passam a medir a composição corporal, como níveis de gordura, massa magra, músculo esquelético, água e até os índices de antioxidantes, que indicam o equilíbrio entre oxidação celular e capacidade de regeneração do organismo. Sensores cada vez mais precisos, aliados à inteligência artificial, cruzam essas informações com padrões de atividade, alimentação e descanso, oferecendo uma visão mais completa do corpo.
Esses dados, antes restritos a exames laboratoriais, agora são coletados continuamente, integrados e contextualizados em tempo real, e a IA consegue interpretar até mesmo tendências sutis. Uma leve queda na massa muscular combinada à redução dos antioxidantes, por exemplo, sugere pequenas correções personalizadas, como ajustes no treino, na dieta ou no sono.
A produtividade também ganha uma nova camada. Óculos de realidade aumentada e fones com assistentes de voz já permitem que o trabalho flua entre o físico e o digital. As grandes marcas experimentam novas interfaces que unem som, visão e toque, abrindo caminho para uma forma de interação mais fluida, quase instintiva.
Mas todo avanço traz tensões. O crescimento dos dispositivos conectados fragmenta ecossistemas e acirra disputas entre marcas. A coleta de dados biométricos e comportamentais levanta dúvidas sobre privacidade e controle. E há uma questão ainda mais humana. A geração Z começa a questionar o excesso de tela, buscando experiências mais equilibradas, menos intrusivas, mais conscientes.
O smartphone do futuro não será o centro das atenções. Será o elo invisível entre nós e uma rede de inteligências que aprende a ler o contexto, a respeitar o silêncio, a não competir com o olhar.
O futuro não é carregar mais tecnologia no bolso. É fazer com que ela nos entenda melhor e saiba quando sair de cena.
*Lucas Bueno é bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, possui ampla trajetória em desenvolvimento de negócios e estratégias comerciais. Atualmente, é diretor da unidade de negócios de Varejo físico na Allied Tecnologia






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