
A gestão de equipes em um cenário de agentes autônomos foi o tema do painel “Orquestrando a Inteligência – Governança, Filosofia e Implementação”, realizado no inovabra. Com mediação da jornalista Aline Sordili, o debate discutiu o papel dos humanos em um mundo cada vez mais automatizado.
O contexto é de transição acelerada. A adoção de modelos de linguagem e sistemas agênticos reconfigura funções, pressiona estruturas de carreira e impõe às lideranças uma revisão profunda de cultura, processos e critérios de senioridade. Para os participantes, não se trata apenas de incorporar ferramentas, mas de redesenhar a lógica de geração de valor nas organizações.
Contexto claro, valor definido
Do ponto de vista técnico, a aplicação eficiente de inteligência artificial depende de contexto bem delimitado. Emiliano Oliveira, CTO da Zaia.app, destacou que agentes performam melhor quando operam sobre objetivos específicos e informações estruturadas. Em áreas digitais, onde dados e processos já estão organizados, a implementação tende a avançar com mais fluidez. Em setores menos digitalizados, o desafio é maior: falta base informacional consistente para treinar e orientar modelos.
A consequência é direta, onde profissionais que dominam o contexto do negócio se tornam estratégicos. Senioridade, segundo os debatedores, deixa de estar atrelada apenas ao tempo de experiência e passa a considerar a capacidade de entregar valor, inclusive ao saber quando não automatizar uma decisão.
Liderança é fundamental na adoção
Na visão de André Borges, Development Manager do Bradesco, o papel do líder é central para garantir adesão consistente às novas tecnologias: “acho que o grande papel do líder aqui é equalizar isso, é trazer as pessoas, incentivo ao benefício, ao quanto você vai conseguir com isso, começar a compartilhar”. Porém, incentivo isolado não é suficiente, é preciso orientar equipes a definirem objetivos claros e compreenderem como trabalhar com agentes de forma estruturada. O chamado “letramento agêntico” passa a integrar as competências essenciais das organizações.
A discussão também evidenciou diferenças geracionais. Profissionais formados em linguagens legadas, convivem com desenvolvedores focados em arquiteturas modernas e IA generativa. A mediação entre perfis, repertórios e expectativas distintas exige sensibilidade antropológica e comunicação transparente da liderança.
Planos de carreira em revisão

Outro ponto recorrente foi a necessidade de repensar planos de carreira. Se agentes executam parte significativa das tarefas operacionais, o que define progressão profissional? Para Flaw Bone, professora da ESPM e Doutoranda em Filosofia pela UFRJ, será necessário reconstruir critérios de promoção com base em impacto no negócio e capacidade de articulação entre objetivos individuais e coletivos.
A bifurcação de senioridade (velocidade de entrega versus maturidade estratégica) tende a marcar esse período de transição. No médio prazo, a expectativa é que o uso de IA se torne padrão em atividades cognitivas, reduzindo a assimetria atual entre profissionais mais e menos adaptados. Com redução de vagas juniores e maior pressão por produtividade, a renovação da base técnica já virou um desafio.
Roberta Duarte, Phd em Física Computacional pela USP e Cientista Sênior em IA pela I4sea, defendeu maior integração entre academia e indústria, explicando que “na ciência a gente sempre tá na fronteira do conhecimento, então a gente tem que desbravar uma coisa que ninguém fez antes”. Ela destaca que o financiamento de projetos por empresas para aplicação prática durante mestrado e doutorado é um caminho promissor para o gap de profissionais no mercado.
Também foi ressaltado o desafio estrutural da educação básica no Brasil. O desenvolvimento de pensamento crítico, apontado como competência-chave na era dos agentes, ainda enfrenta lacunas formativas. Para os painelistas, empresas terão papel crescente na capacitação, tanto interna quanto social.






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