
A expansão da infraestrutura digital pode transformar o Brasil em um dos principais polos globais para processamento de dados e inteligência artificial na próxima década. É o que aponta o “Estudo de Potenciais Impactos Socioeconômicos da Consolidação do Brasil como Hub Internacional de Infraestrutura Digital na Era da Inteligência Artificial”, elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) a pedido da Scala Data Centers e da Norgás. A pesquisa avalia os efeitos econômicos da ampliação da capacidade instalada de data centers e identifica fatores que fortalecem a posição brasileira na competição internacional por investimentos.
Segundo a análise, o país reúne características consideradas estratégicas para esse movimento, entre elas a predominância de fontes renováveis na matriz elétrica. Também foram citadas a localização geográfica favorável, a dimensão do mercado interno, o avanço da demanda por serviços de computação em nuvem e aplicações baseadas em inteligência artificial.
O levantamento indica que, caso a capacidade instalada de infraestrutura digital evolua de aproximadamente 1 GW para 13,7 GW até 2035, o impacto econômico poderá ser significativo. A projeção mais otimista estima a criação de mais de 230 mil empregos permanentes. Desse total, cerca de 59,7 mil vagas seriam diretas, ligadas à operação dos empreendimentos, enquanto aproximadamente 176,5 mil corresponderiam a empregos indiretos e induzidos distribuídos pela cadeia produtiva.
Investimentos trilionários
Além do efeito sobre o mercado de trabalho, o estudo calcula que a expansão adicional de 12,7 GW poderá mobilizar investimentos entre US$ 431,8 bilhões e US$ 698,5 bilhões, equivalentes a aproximadamente R$ 2,3 trilhões e R$ 3,7 trilhões. Os recursos abrangem desde obras civis, infraestrutura elétrica, sistemas mecânicos, equipamentos de refrigeração e segurança até servidores, redes, armazenamento de dados e aceleradores voltados às cargas de IA.
Para estimar esses impactos, a FGV utilizou a metodologia de Matriz Insumo-Produto, ferramenta que permite medir como investimentos em um setor estimulam diferentes segmentos da economia. A pesquisa conclui que os data centers exercem papel estratégico ao impulsionar atividades como construção civil, energia, telecomunicações, logística e serviços especializados.
O estudo também aponta efeitos de longo prazo associados à operação dessas infraestruturas. Entre eles estão ganhos de produtividade, formação de mão de obra qualificada, fortalecimento das economias regionais e ampliação da atividade econômica em diversos setores.
“A pesquisa utiliza uma modelagem de insumo-produto para capturar os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos investimentos em infraestrutura digital, permitindo medir como esses projetos ativam cadeias produtivas inteira. Os resultados mostram que os impactos não se concentram no setor de tecnologia, mas se disseminam por toda a economia, com efeitos relevantes sobre emprego, renda e produção”, destacou em nota Charles Schramm, Gerente Executivo de Projetos da FGV.
Competitividade internacional
A pesquisa compara o Brasil com mercados já consolidados em infraestrutura digital, como Estados Unidos, Singapura, Dubai, Japão, Portugal, Canadá e o cluster europeu formado por Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin (FLAP-D). A avaliação considera fatores tecnológicos, econômicos, energéticos e regulatórios.
Apesar das vantagens competitivas identificadas, a FGV aponta que o país ainda precisa superar desafios estruturais para ampliar sua atratividade. Entre eles estão a necessidade de maior estabilidade regulatória e o planejamento integrado entre a expansão do sistema elétrico e o crescimento das cargas digitais.
Outro fator apontado como limitador é a elevada carga tributária incidente sobre equipamentos e serviços utilizados na implantação dos data centers. Esse cenário aumenta o custo da internalização de tecnologias e reduz a competitividade brasileira frente a outros mercados internacionais.
Agenda para expansão

O levantamento propõe uma agenda organizada em quatro pilares. As medidas incluem políticas industriais voltadas ao fortalecimento da cadeia nacional de hardware, reconhecimento dos data centers como atividade estruturante para o setor elétrico, criação de um ambiente jurídico estável para incentivos fiscais e coordenação regulatória entre áreas como indústria, energia, tributação e governança digital.
O estudo também aponta instrumentos que podem contribuir para reduzir diferenças competitivas em relação a outros países, como o Redata, a proposta de redução de ICMS sobre importações em discussão no Confaz, os regimes de Ex-Tarifários e as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs).
Outra recomendação é a criação de uma instância permanente de coordenação envolvendo União, estados, municípios, órgãos reguladores e representantes da iniciativa privada. O objetivo é simplificar processos, reduzir prazos e oferecer maior previsibilidade para projetos de infraestrutura digital de longo prazo.
Luciano Fialho, SVP Corporativo da Scala Data Centers, explicou também em nota que “os principais mercados de infraestrutura digital do mundo, especialmente Estados Unidos e Europa, enfrentam gargalos crescentes para expandir capacidade, como restrições de energia, conexão à rede e disponibilidade de áreas para novos projetos, enquanto a demanda por processamento de dados e inteligência artificial continua acelerando. Isso abre espaço para o surgimento de novos hubs globais. O Brasil reúne atributos raros para capturar essa oportunidade: energia em escala, matriz predominantemente renovável, potencial de expansão, disponibilidade de território e integração às principais rotas internacionais de dados. Se agir agora, o país pode atrair investimentos em escala sem precedentes, gerar empregos qualificados e se consolidar como um dos principais polos globais de infraestrutura digital”.






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