
As mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma questão ambiental e passaram a ser também um ponto importante nas decisões econômicas. Durante palestra no Febraban Tech 2026, Dan Ioschpe, presidente do Conselho de Administração da Iochpe Maxion e Campeão de Alto Nível do Clima para a COP30, defendeu que a transição para uma economia de baixo carbono deve ser tratada também como uma oportunidade de desenvolvimento.
Ioschpe lembrou que a COP reúne países todos os anos para discutir medidas contra as mudanças climáticas. Um dos principais marcos dessa trajetória foi o Acordo de Paris, firmado há dez anos, que estabeleceu o compromisso internacional de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais.
Segundo o executivo, a agenda climática ganhou uma nova dinâmica com a COP30, realizada em Belém. A proposta passou a combinar dois caminhos: reduzir as emissões de gases de efeito estufa e preparar cidades, empresas e sociedades para lidar com os impactos que já estão ocorrendo.
COP30 amplia agenda de soluções
A nova agenda apresentada em Belém foi organizada em seis eixos. Cinco deles concentram setores considerados fundamentais para a transição, como energia, transporte e indústria. O sexto reúne fatores habilitadores necessários para viabilizar as mudanças.
A estrutura também contempla 30 objetivos-chave e mais de 120 planos de aceleração de soluções. Entre as iniciativas estão projetos relacionados a energia solar, redes elétricas, baterias e outras tecnologias necessárias para ampliar a participação de fontes renováveis.
Para Ioschpe, o crescimento da geração solar e eólica no Brasil mostra a dimensão desse desafio. Como essas fontes são intermitentes, a expansão precisa ser acompanhada por investimentos em redes de transmissão, armazenamento e baterias. Sem essa infraestrutura, o aumento da oferta renovável pode não acompanhar o crescimento da demanda por eletricidade.
O executivo destacou que o modelo criado para a agenda climática deverá orientar o trabalho dos próximos cinco anos. A proposta prevê a mobilização contínua de governos, empresas e organizações em torno de centenas de iniciativas, distribuídas pelos seis eixos.
Sustentabilidade como oportunidade econômica
Ioschpe também criticou a visão de que a transição para uma economia sustentável representa apenas um custo para empresas e governos. Embora reconheça a necessidade de investimentos, ele considera que a mudança pode representar uma das maiores oportunidades econômicas das próximas décadas.
A lógica é evitar que recursos sejam direcionados cada vez mais para reparar os efeitos de eventos climáticos extremos. As enchentes que atingiram Porto Alegre e as ondas de calor registradas na Europa foram citadas como exemplos dos impactos que já afetam cidades e economias.
Na avaliação dele, investir em mitigação também pode reduzir a necessidade de adaptação no futuro. O avanço dos veículos elétricos, por exemplo, mostra como a combinação entre energia renovável, ganho de escala e redução de custos pode acelerar mudanças tecnológicas e econômicas.
A mesma dinâmica pode ocorrer em setores como aviação e navegação. Combustíveis sustentáveis ainda podem apresentar custos mais elevados em uma fase inicial, mas a expectativa é de aumento da escala de produção e consequente redução de preços ao longo dos próximos 10 anos.
Deixar de participar desse movimento pode representar uma desvantagem competitiva. À medida que novas tecnologias e combustíveis passam a ser adotados como padrão, empresas que se anteciparem podem ganhar espaço em seus mercados.
IA aumenta demanda por energia e água
Outro ponto abordado na palestra foi o crescimento do consumo de energia provocado pela expansão da inteligência artificial e da computação em nuvem. Data centers exigem grandes volumes de eletricidade e, em determinadas operações, também de água para sistemas de refrigeração.
Por isso, Ioschpe defendeu que o avanço tecnológico precisa caminhar junto com critérios de sustentabilidade. Na visão do executivo, o crescimento da demanda por energia para novas aplicações só será duradouro se for acompanhado por investimentos capazes de reduzir os impactos ambientais.
O Brasil tem uma posição favorável nessa disputa, principalmente pela disponibilidade de fontes renováveis e pelo potencial para produzir combustíveis sustentáveis para a aviação e oferecer energia para grandes consumidores, como data centers.
Brasil pode transformar ativos naturais em vantagem
O país também tem uma oportunidade relevante na recuperação de áreas degradadas. Segundo Ioschpe, entre 50 e 100 milhões de hectares estão nessa condição e podem ser recuperados tanto para absorção de carbono quanto para atividades produtivas.
A recuperação dessas áreas combina objetivos ambientais e econômicos e trata-se de uma agenda capaz de gerar desenvolvimento socioeconômico e, ao mesmo tempo, melhorar a competitividade brasileira.
Outro diferencial está na capacidade de geração de energia e na disponibilidade de água. Esses fatores podem favorecer a instalação de novas infraestruturas digitais e industriais em um momento de aumento da demanda global por eletricidade.
Financiamento será decisivo
A transição climática também depende de capital. Tecnologias como baterias, redes elétricas e novas formas de geração de energia exigem investimentos elevados, especialmente para acompanhar a expansão das fontes renováveis.
Ioschpe destacou a importância de reduzir riscos tecnológicos, cambiais e financeiros para facilitar a chegada de recursos a projetos de médio e longo prazo. A combinação de diferentes instrumentos de financiamento, incluindo modelos de blended finance, pode ajudar a viabilizar iniciativas que ainda apresentam riscos elevados para investidores tradicionais.
O setor financeiro brasileiro tem uma posição importante nesse processo. O BNDES foi citado como um dos exemplos da capacidade do país de financiar projetos ligados à transição energética e ao desenvolvimento sustentável.
Para ampliar esse mercado, também seria necessário conectar globalmente empresas que possuem projetos a instituições interessadas em financiá-los. Plataformas capazes de aproximar essas duas pontas podem acelerar a implementação de soluções que já estão disponíveis tecnicamente.
A adaptação das cidades às mudanças climáticas também abre espaço para o setor de seguros Ioschpe observou que uma parcela pequena das residências está segurada no Brasil, o que aumenta a dificuldade de reconstrução depois de eventos como enchentes.
Uma maior cobertura poderia reduzir parte dos impactos financeiros provocados por desastres climáticos. O setor pode atuar tanto na proteção patrimonial quanto no desenvolvimento de soluções que ajudem a reduzir riscos antes da ocorrência dos eventos extremos.
A agenda climática, portanto, envolve diferentes setores da economia. Energia, indústria, transporte, seguros, bancos e governos precisam trabalhar de maneira coordenada para transformar metas em projetos concretos.
Empresas que se anteciparem podem ganhar espaço
O cenário geopolítico atual, marcado por conflitos e disputas entre grandes economias, pode dificultar a cooperação internacional. Ainda assim, a dimensão competitiva da transição climática deve manter empresas e países envolvidos no processo.
Dan Ioschpe indica que a principal mudança de perspectiva é deixar de enxergar a crise climática apenas como um problema a ser administrado. A agenda precisa ser tratada como uma oportunidade para combinar desenvolvimento econômico, inovação e sustentabilidade.
A proposta da agenda global de ação climática é justamente aproximar governos, empresas, instituições financeiras e organizações da sociedade civil. O objetivo é avançar nas metas estabelecidas pelo Acordo de Paris e reduzir os impactos das mudanças climáticas sem comprometer o desenvolvimento econômico.
Com a próxima COP prevista para ocorrer na Turquia, o desafio será manter a mobilização e transformar compromissos em investimentos, infraestrutura e soluções em escala. Quem conseguir avançar primeiro nessa transformação poderá não apenas reduzir riscos climáticos, mas também conquistar novas oportunidades de negócios.






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