
Uma nova tecnologia brasileira combina inteligência artificial, ausculta digital e smartphones para ampliar a identificação precoce de cardiopatias associadas à febre reumática. O projeto reúne o Hospital Sírio-Libanês, a Siemens Healthineers, a Fundação CERTI e o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (InCor), com aproximadamente R$ 5 milhões em recursos da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação (Embrapii).
A proposta é levar uma ferramenta de triagem cardíaca para locais onde exames especializados e cardiologistas são menos acessíveis. A solução pode ser usada na atenção primária e, em uma etapa futura, apoiar programas de rastreamento em escolas, creches e comunidades isoladas.
O sistema utiliza um dispositivo de baixo custo desenvolvido para captar os sons do coração, conectado ao smartphone. A partir da fonocardiografia, esses sinais são processados por algoritmos de inteligência artificial baseados em deep learning. O objetivo é reconhecer padrões associados a sopros cardíacos e alterações nas válvulas do coração. A tecnologia pode funcionar como uma primeira etapa de investigação, ajudando profissionais de saúde a identificar quem precisa ser encaminhado para uma avaliação especializada.
Os resultados obtidos até agora indicam um bom desempenho. Na base CirCor, uma referência internacional para pesquisas de algoritmos voltados à identificação de sopros cardíacos, o modelo registrou 90,5% de acurácia, 89% de precisão e 87% de sensibilidade.
Problema começa na infância
A febre reumática pode aparecer depois de uma infecção de garganta provocada pelo estreptococo do grupo A. A doença afeta principalmente crianças e adolescentes e pode desencadear uma resposta inflamatória que atinge diferentes órgãos, sendo o coração um dos principais alvos das complicações. Quando a inflamação provoca danos progressivos nas válvulas cardíacas, pode surgir a chamada cardiopatia reumática.
Estimativas citadas no projeto apontam que entre 60 milhões e 80 milhões de pessoas convivem no mundo com cardiopatias decorrentes da febre reumática. A doença também estaria relacionada a aproximadamente 360 mil mortes por ano, principalmente em países de baixa e média renda.
Parceria entre saúde, indústria e pesquisa
O desenvolvimento foi estruturado em um modelo de inovação aberta. Cada instituição assumiu uma frente diferente do projeto. O Sírio-Libanês ficou responsável pelo desenho do estudo clínico, pelos processos de aprovação ética e pela curadoria dos dados. As informações utilizadas na pesquisa foram obtidas a partir de pacientes acompanhados no ambulatório de valvopatias do InCor.
A Siemens Healthineers participou com conhecimento em inteligência artificial, transferência tecnológica e desenvolvimento de mercado. A Fundação CERTI e a Embrapii atuaram no desenvolvimento do dispositivo utilizado para a captura dos sons cardíacos.
Conrado Tramontini, Gerente de Inovação do Sírio-Libanês, contou em nota que “o projeto nasce de uma necessidade concreta de reduzir desigualdades no acesso ao diagnóstico. Ao levar uma tecnologia de alta precisão para um dispositivo acessível, conseguimos ampliar o alcance da triagem e atuar de forma preventiva”.
Próxima etapa é ampliar o rastreamento
O projeto ainda precisa avançar em maturidade tecnológica antes de uma aplicação mais ampla e uma das possibilidades estudadas é utilizar a solução em programas de monitoramento em massa, principalmente em ambientes frequentados por crianças e adolescentes. Escolas e creches poderiam ser alguns dos locais para futuras iniciativas de rastreamento.
A tecnologia também pode ser útil em comunidades distantes dos grandes centros. Manuel Coelho, Head de Pesquisa e Inovação da Siemens Healthineers para a América Latina, apontou justamente esse potencial de expansão. Também em nota o executivo destacou que “essa é uma possibilidade de diagnóstico com custos de detecção mais reduzido, que permite, por exemplo, que agentes de saúde em comunidades isoladas realizem triagens eficazes, garantindo que pacientes com sinais de disfunção valvular sejam encaminhados rapidamente para tratamento evitando-se cirurgias complexas e onerosas no futuro”.






Sem comentários registrados