
A soberania digital ganhou espaço nas discussões estratégicas das grandes organizações, mas a ideia de controlar toda a infraestrutura tecnológica está longe de ser considerada viável. É o que mostra um estudo do Instituto de Pesquisa da Capgemini com 1.300 executivos de negócios e tecnologia: 59% dizem que alcançar soberania digital plena não é um objetivo realista.
O tema já chegou inclusive aos conselhos administrativos. Segundo o estudo “Soberania Digital: Da Ambição Política ao Imperativo Executivo”, 93% das organizações globais discutiram soberania digital nesse nível, enquanto 44% colocam o assunto entre as principais prioridades do conselho. A resposta mais comum tem sido buscar maior controle sobre tecnologias críticas, reduzir vulnerabilidades e manter alternativas para situações de interrupção, em vez de tentar eliminar toda dependência externa.
Dependência tecnológica aumenta riscos
A expansão da computação em nuvem, da inteligência artificial e da transformação digital aumentou a dependência de grandes fornecedores globais. O problema é que cadeias de suprimentos concentradas podem dificultar a reação das empresas diante de crises geopolíticas, problemas de fornecimento ou mudanças regulatórias.
O Índice de Soberania Digital da Capgemini, elaborado a partir da análise de 866 organizações nos Estados Unidos, Europa e Ásia-Pacífico, mostra que 86% têm exposição significativa a cadeias de suprimentos estrangeiras ou controladas externamente.
A vulnerabilidade também aparece na capacidade de trocar de fornecedor. Mais de um terço das empresas (36%) afirma que precisaria de mais de 12 meses para substituir um fornecedor tecnológico crítico. Em 10% dos casos, sequer existe uma alternativa considerada viável.
A preparação para interrupções também varia bastante. Entre as organizações que passaram recentemente por algum problema operacional, apenas 42% possuem planos de contingência estruturados. Nos Estados Unidos, a proporção chega a quase dois terços, enquanto Europa e Ásia-Pacífico ficam pouco acima de um terço.
Resiliência ganha espaço
A pesquisa mostra uma mudança na forma de encarar a soberania digital. Para quatro em cada cinco entrevistados, a capacidade de manter as operações diante de instabilidades geopolíticas e interrupções é o principal motivo para investir no tema.
A inteligência artificial aparece como uma das prioridades tecnológicas mais importantes. Três quartos das organizações apontam a IA como uma área central na busca por maior soberania, especialmente em setores que dependem de infraestrutura, dados e operações críticas, como transporte, aeroespacial e defesa.
Karine Brunet, Diretora de Operações e Entregas da Capgemini e membro do Conselho Executivo do Grupo, apontou em nota que “as organizações de hoje operam em ecossistemas tecnológicos altamente interconectados, onde a independência completa raramente é alcançável. Portanto, a soberania digital não se trata de autonomia total, mas sim de garantir que as organizações tenham uma compreensão clara de suas dependências tecnológicas, a fim de recuperar o controle e a flexibilidade para gerenciar riscos. Isso permitirá que elas construam o melhor roteiro pragmático para atingir seus objetivos estratégicos – levando em consideração a localização de dados, o controle de acesso, as operações e as restrições regulatórias e tecnológicas. O verdadeiro desafio será construir resiliência sem comprometer a competitividade, para impulsionar a inovação e o crescimento a longo prazo”.
Europa, EUA e Ásia seguem caminhos diferentes
A definição de soberania digital também muda de acordo com a região. Na Ásia-Pacífico, 41% das organizações associam o conceito principalmente à redução de riscos e ao aumento da resiliência. Na Europa continental, são 52%, enquanto no Reino Unido o índice chega a 56%. Já nos Estados Unidos, a visão é diferente. 52% relacionam a soberania digital principalmente à conformidade, enquanto 40% a veem como instrumento para aumentar a resiliência.
Apesar das diferenças, existe uma convergência importante: dois terços das organizações globais entendem soberania digital como uma forma de interdependência resiliente. A proporção sobe para 75% na Europa e fica em 50% nos Estados Unidos. A estratégia também não depende apenas de desenvolvimento interno. Mais de dois terços das empresas planejam combinar recursos próprios com colaboração externa e parcerias para desenvolver capacidades consideradas importantes.
Um dos principais obstáculos está na dificuldade de entender todas as dependências tecnológicas existentes. Apenas 14% das organizações afirmam ter visibilidade de ponta a ponta sobre seu ecossistema de tecnologia. Sem essa visão, fica mais difícil calcular riscos associados a fornecedores, infraestrutura e questões geopolíticas. O custo é outro fator de pressão: pouco menos da metade das empresas estaria disposta a pagar uma taxa adicional pela soberania digital, estimada em média em 23%.
Para boa parte das empresas, a estratégia passa por saber onde estão as dependências, quais tecnologias precisam de maior controle e quais fornecedores ou parceiros podem oferecer alternativas sem prejudicar inovação, custos e competitividade.
A pesquisa (em inglês) pode ser obtida neste link.






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