Luca Dell’Orletta, Global Head of Tech Innovation & Enterprise Architecture da Nestlé. Foto: Reprodução

A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade dentro da Nestlé. O próximo desafio, segundo Luca Dell’Orletta, Global Head of Tech Innovation & Enterprise Architecture da companhia, é fazer agentes de IA funcionarem em escala sem transformar a arquitetura tecnológica em um conjunto de soluções desconectadas. Durante painel no HumanX Amsterdam 2026, o executivo detalhou como a empresa está lidando com a rápida evolução da tecnologia.

A Nestlé tem mais de 2 mil marcas e mais de 300 fábricas, o que dá uma dimensão da complexidade tecnológica envolvida. Dell’Orletta explicou que seu trabalho passa por inovação, arquitetura corporativa e aplicação de tecnologia em áreas de negócio. Para ele, a mudança mais importante agora está na transição de aplicações tradicionais de IA para uma realidade cada vez mais baseada em agentes.

A experiência começou cedo. Poucos meses depois do lançamento do ChatGPT, a Nestlé criou o NestGPT, uma ferramenta interna voltada para os funcionários. A iniciativa serviu não apenas para liberar o uso de modelos de linguagem em um ambiente controlado, mas também para ensinar os profissionais a lidar com uma tecnologia que pode produzir respostas incorretas e exige uma nova forma de interação.

O risco da fragmentação

Com milhares de tecnologias já presentes em uma grande corporação, adicionar uma nova ferramenta a cada necessidade pode criar um problema maior do que aquele que a IA pretende resolver. “O risco é você ter fragmentação. Você tem um agente aqui, um agente ali, outro agente lá, e, no fim das contas, esses agentes não se conversam. Esses agentes não compartilham o mesmo contexto”, destacou.

A estratégia defendida pelo executivo é olhar para a jornada completa de consumidores, clientes e funcionários, em vez de implementar agentes isoladamente. Isso significa consolidar plataformas, padronizar dados e criar uma base tecnológica capaz de suportar novas aplicações sem multiplicar a fragmentação.

Dell’Orletta também questionou a ideia de que toda transformação empresarial precisa acontecer em poucos meses. “Tecnologia leva tempo. Se alguém te disser que pode causar uma disrupção no seu negócio em três ou seis meses, ou que dá para transformar uma grande empresa em seis meses, essa pessoa nunca esteve em uma grande empresa em escala”. Para uma companhia que atua em manufatura e produção de alimentos, mudanças estruturais exigem mais tempo do que aplicações de software desenvolvidas rapidamente.

Pilotos já nascem para escalar

Na Nestlé, a lógica para projetos de IA também começa antes do piloto. Segundo o executivo, cada experimento precisa considerar desde o início como poderá chegar a outras marcas, mercados ou categorias. A preocupação inclui não apenas a tecnologia, mas também contratos, parceiros, arquitetura e qualidade dos dados.

A empresa evita ainda avançar com agentes sem mecanismos adequados de monitoramento, observabilidade e controle de acesso. Em aplicações que podem executar ações em sistemas corporativos, como SAP, a companhia quer saber exatamente o que foi feito, por qual usuário e por qual agente. Dell’Orletta comentou que “se um agente tomar uma ação no SAP, precisamos ter certeza de que a ação está correta. E, se não estiver, saber por que e quem é o responsável por isso”.

Para Dell’Orletta, o desafio não é simplesmente adotar mais inteligência artificial, mas construir uma arquitetura preparada para a próxima fase da tecnologia: “se você não fizer isso hoje, estará perdendo vantagem competitiva amanhã”. A velocidade da IA pode ser aproveitada, mas empresas de grande porte precisam combinar experimentação com fundamentos tecnológicos sólidos. Na avaliação do executivo, essa preparação será decisiva para transformar pilotos em aplicações realmente escaláveis.

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