
A inovação radical está deixando de ser apenas uma aposta tecnológica e passando a ocupar um papel mais estratégico nas grandes empresas. Uma pesquisa global da Cambridge Consultants, braço de deep tech da Capgemini, mostra que executivos estão recorrendo a tecnologias avançadas para buscar crescimento, responder a mudanças no mercado e criar novas fontes de vantagem competitiva.
O problema é que colocar essas iniciativas em prática continua sendo difícil. O novo “Deep Tech Index”, elaborado a partir de uma pesquisa com 750 líderes empresariais e entrevistas aprofundadas com executivos de experiência do cliente (CXO), aponta uma distância relevante entre o interesse pela inovação radical e a capacidade das organizações de transformar essas ideias em negócios.
Inovação com pressão por resultado
Para 59% dos executivos entrevistados, a inovação radical é o formato de inovação mais atrativo. O estudo também mostra que 81% consideram importante contar com propriedade intelectual protegida por tecnologia para capturar valor no longo prazo.
A mudança está relacionada também à pressão por crescimento. Em vez de manter projetos experimentais por longos períodos, as empresas estão cobrando uma conexão mais direta entre inovação, receita e resultados financeiros. A expectativa é que iniciativas de deep tech consigam avançar do conceito para aplicações comerciais com mais clareza sobre retorno e mercado.
Richard Traherne, CEO da Cambridge Consultants, destacou em nota que “é empolgante ver que os líderes empresariais reconhecem cada vez mais o valor de uma estratégia de deep tech, e o que realmente chama a atenção é o reconhecimento de que a inovação radical pode atender a necessidades comerciais reais. Contudo, o ponto crucial é que as organizações não estão perdendo a corrida global pela inovação porque os concorrentes têm ideias melhores, mas sim porque esses concorrentes se destacam ao financiar, proteger e comercializar melhor essas ideias. A lacuna não é técnica, é estrutural”.
Do experimento ao negócio
A pesquisa identifica uma mudança na forma como os projetos de inovação radical são conduzidos. O foco passa a ser menos a quantidade de iniciativas lançadas e mais a capacidade de provar que elas podem gerar valor para a empresa.
Um dos sinais dessa transformação é o peso crescente dos critérios financeiros. Projetos exploratórios precisam apresentar uma justificativa comercial mais clara, com perspectivas de rentabilidade e condições para chegar ao mercado em prazos menores.
Também ganham força modelos de parceria em que empresas e fornecedores de tecnologia dividem investimentos, riscos e resultados. A lógica é diferente da contratação tradicional por serviço: os envolvidos passam a ter interesse direto no desempenho da solução desenvolvida.
Outro ponto é a validação antecipada com clientes. Projetos de tecnologia radical passam por etapas mais rigorosas antes de receber novos aportes, com a demanda do usuário final sendo usada como um dos critérios para decidir se a iniciativa deve avançar.
Quanto as empresas estão investindo
O levantamento mostra que cerca de 16% dos líderes, considerando diferentes setores, afirmam que suas empresas destinam 70% ou mais do orçamento de inovação para iniciativas radicais.
A distribuição, porém, é bastante desigual. Entre empresas de bens de consumo, apenas 3% dos executivos disseram que esse nível de investimento é adotado. Nos semicondutores, a parcela chega a 36%.
O setor industrial aparece com 22%, seguido por saúde, com 18%. Materiais registram 14%, serviços de comunicação ficam em 13% e energia, em 12%. Entre empresas de serviços públicos, nenhum dos entrevistados relatou uma fatia superior a 70% do orçamento de inovação dedicada à inovação radical.
As barreiras estão dentro das empresas
O estudo aponta que a dificuldade de avançar com deep tech não está restrita ao desenvolvimento tecnológico. Conselhos de administração, processos de aprovação, modelos de financiamento e culturas corporativas pouco tolerantes ao risco podem interromper projetos antes que eles cheguem ao mercado.
A pressão por resultados de curto prazo também pesa. Segundo os executivos entrevistados, estruturas burocráticas, excesso de consenso e falta de profissionais especializados dificultam a continuidade de projetos que ainda precisam de tempo para amadurecer.






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