
Por Cezar Taurion*
Já virou quase um mantra repetir: “A Inteligência Artificial não substituirá humanos, mas humanos que usam IA substituirão aqueles que não usam.” A frase captura uma intuição relevante sobre complementaridade tecnológica, mas simplifica excessivamente a dinâmica real.
É verdade que há evidências de ganhos individuais mensuráveis com o uso de IA em atividades como programação, redação ou análise. Ignorar ferramentas amplamente difundidas pode gerar desvantagem no curto prazo. Porém, o impacto competitivo sustentável raramente se esgota no nível individual. Ele tende a ser sistêmico.
Ganhos de produtividade não derivam apenas do uso da ferramenta, mas da combinação entre tecnologia, dados, processos, governança e redesenho do trabalho. A história de outras ondas tecnológicas mostra que benefícios duradouros surgem quando há complementariedades organizacionais, como treinamento, mudanças nos fluxos decisórios e integração com sistemas legados. Um profissional pode usar IA intensivamente e ainda assim gerar pouco impacto se o ambiente em que ele atua não estiver preparado para absorver esses ganhos.
Além disso, sistemas de IA cada vez mais se integram à plataformas e automações que reconfiguram tarefas inteiras. Muitas vezes não há substituição entre indivíduos, mas redefinição de etapas, eliminação de atividades intermediárias e reorganização de funções. A questão central deixa de ser “quem usa” e passa a ser “como o trabalho é reorganizado”.
Há também a dinâmica de difusão. Early adopters podem capturar vantagem temporária. Mas, à medida que ferramentas semelhantes se tornam amplamente disponíveis, ocorre convergência. O diferencial desloca-se para capacidades complementares como julgamento, formulação de problemas, conhecimento de domínio, coordenação e responsabilidade.
Outro ponto negligenciado pelo slogan é a governança. Em ambientes regulados ou críticos, o uso de IA exige validação, controles e accountability institucional. Não basta “usar”, mas é necessário integrar com segurança.
Por fim, a adoção é condicionada por fatores estruturais. Acesso a dados, infraestrutura, orçamento e capacitação não são decisões puramente individuais. Mudanças no mercado de trabalho refletem estratégias organizacionais e estruturas econômicas, não apenas escolhas pessoais.
Uma formulação mais robusta reconhece que a IA altera sistemas de produção e redefine competências valorizadas. Indivíduos que usam IA podem ganhar eficiência. Mas a vantagem competitiva duradoura emerge quando o uso é acompanhado por transformações organizacionais, institucionais e tecnológicas mais amplas.
*Cezar Taurion é advisor de IA com mais de 4 décadas de experiência no mercado de TI. Investidor e mentor de startups de IA e membro do conselho de inovação de diversas empresas e associações. Foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil, sócio-diretor e líder da prática de IT Strategy da PwC, além de passar por Shell e Chase Manhattan Bank. Escreve sobre TI em publicações especializadas e apresenta palestras em eventos e conferências. É autor de 14 livros e e-books. Membro notável do I2AI. Professor convidado da FDC, da PUC-RJ e PUC-RS, nas cadeiras de MBA “IA aplicada aos negócios” e “Transformação Digital”. Publisher da Intelligent Automation Magazine. Top Voice Linkedin.






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