Deep Tech
Foto: Kenneth Rodrigues/Pixabay

O Tech Brazil Advocates apresentou um estudo do Latin American Dynamism Project (LADP) que mapeia 2.566 startups de Deep Tech em 18 países da América Latina e revela um avanço sem precedentes no setor. O levantamento indica crescimento anual de 219% nos investimentos em 2024, o maior entre os segmentos tecnológicos, segundo o SlingHub, e confirma o Brasil como âncora regional, concentrando 41% dos empreendimentos.

México (14%), Argentina (10%), Chile (10%) e Colômbia (9%) completam o grupo dos “Cinco Grandes”, que abrigam 83% das startups analisadas. No recorte por cidades, São Paulo lidera com 329 iniciativas, seguida por Buenos Aires, Santiago e Cidade do México, juntas responsáveis por 63% da atividade mapeada. O Brasil também concentra cinco dos dez principais hubs (São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre), sinalizando fortes efeitos de rede, mas expondo desequilíbrios geográficos.

Apesar da expansão, o estudo aponta que 72% das startups permanecem na fase seed, 19% alcançaram Série A e apenas 9% chegaram à Série B ou superior. “Temos o talento, os recursos naturais e o impulso inicial, mas estamos falhando no momento crucial em que a ciência se converte em indústria. Há vários motivos para isso, um deles é estrutural”, afirmou em comunicado Marcus Alburez, coautor do estudo.

Falta de financiamento privado

No caso brasileiro, o ecossistema apresenta pontos fortes, como 11 hubs ativos de biotecnologia e programas públicos consolidados, entre ele a FAPESP, com R$ 5 milhões para centros internacionais de pesquisa, e o FINEP, com US$ 500 milhões para atrair P&D de multinacionais. Contudo, o país opera em um ambiente assimétrico: enquanto economias desenvolvidas contam com 20% a 35% do financiamento vindo do setor público, o Brasil depende de cerca de 70%, criando um cenário extenso, mas pouco profundo, que exige tickets maiores por rodada.

O relatório também destaca fatores que freiam o capital internacional. Startups latino-americanas tendem a receber avaliações mais baixas que seus pares globais, com um desconto de 50% em relação à média mundial, segundo o MSCI Index, mesmo apresentando métricas similares. Persistem ainda percepções negativas sobre a robustez do P&D regional, o que aumenta a exigência de validações técnicas antes do aporte. “Os investidores dos EUA estão acostumados a avaliar tecnologia de Stanford, MIT e Harvard. Quando chega um founder de uma universidade brasileira ou chilena com pesquisa igualmente sólida, enfrenta preconceitos que retardam os prazos dos processos de due diligence”, aponta Alburez.

No retrato setorial, a biotecnologia concentra cerca de 60% das startups latino-americanas, seguida por IA (10%) e nichos como nanotecnologia, cleantech e aeroespacial (5% cada). Brasil e Chile se destacam: enquanto o país lidera em volume e estrutura, apoiado por programas governamentais que financiam 70% do Deep Tech, o ecossistema chileno ganha tração com 251 startups e uma articulação público-privada considerada promissora.

China aposta alto

Na dimensão geopolítica, a expansão chinesa ganha força: entre 2018 e 2023, os projetos do país na região cresceram 33%, com foco em telecomunicações, fintech e energias renováveis. A criação de um fundo soberano da China de US$ 138 trilhões para IA, manufatura e energia limpa reposiciona a disputa global. “O avanço da China em Deep Tech é parte de uma estratégia calculada para fortalecer sua influência econômica. A América Latina deve decidir se será um campo de batalha ou um ator com voz própria na próxima era tecnológica”, disse também em comunicado Leonardo Quattrucci, coautor do estudo.

Como resposta, o relatório propõe um roteiro com 20 recomendações. Entre elas, a criação de programas de venture building inspirados no modelo da GridX, que já cofundou 81 empresas; a instituição de um “34º Regime” regulatório regional, garantindo um marco unificado para startups; e a mobilização de fundos de pensão que tem mais de US$ 10 trilhões disponíveis na região por meio de veículos especializados, replicando práticas da França e Reino Unido. O documento também sugere uma estratégia de autonomia tecnológica baseada na diversificação de alianças, incluindo Israel, Singapura, Coreia do Sul e Emirados Árabes.

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