
A inteligência artificial ganha cada vez mais espaço dentro das escolas e universidades. No AI+Education Summit 2026, organizado pela Universidade de Stanford, o debate não girou em torno de “se” a IA deve entrar na educação, mas “como” ela vai transformar — para melhor ou pior — o que entendemos por aprender. O tom predominante foi pragmático: a tecnologia avança em ritmo acelerado, enquanto os sistemas educacionais ainda operam sob lógicas do século passado. É algo muito similar ao que se observa em diversas indústrias, a digitalização avança, mas o modus operandis ainda é da revolução industrial.
Logo na abertura, representantes da Stanford Accelerator for Learning e do Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence reforçaram que a IA precisa ser pensada como infraestrutura pedagógica, e não como atalho. “A IA deve aprofundar a aprendizagem, não substituir o julgamento humano”, reforçou Dan Schwartz, diretor do Stanford Accelerator for Learning. Trata-se de uma síntese daquilo que se tornou uma das grandes preocupações dos participantes do evento: tecnologia que automatiza tarefas pode liberar tempo do professor, mas não pode eliminar o papel formativo da relação humana.
Nesse sentido, a ideia de “human-centered AI” apareceu como eixo estruturante das discussões. Para Fei-Fei Li, codiretora do HAI, o desafio é garantir que sistemas educacionais baseados em IA sejam construídos com princípios éticos e científicos desde a origem. “Tecnologia sem valores claros amplia desigualdades”, pontuou. Isso significa incluir professores no processo de desenvolvimento, testar ferramentas em contextos reais e alinhar inovação às evidências da ciência da aprendizagem.
A criatividade foi outro campo de tensão. Ferramentas generativas ampliam a capacidade de produzir textos, imagens e projetos em poucos minutos. Mas, como alertou Victor Lee, professor da Stanford Graduate School of Education, “se a tarefa continua a mesma, mas agora pode ser feita por uma máquina, talvez o problema esteja na tarefa — não na máquina”. A provocação sugere que o impacto da IA não está apenas no uso da ferramenta, mas na necessidade de redesenhar metodologias e avaliações.
Personalização e ética
O debate também destacou o potencial da personalização em larga escala. Sistemas inteligentes podem oferecer feedback imediato, adaptar trilhas de aprendizagem e apoiar estudantes com diferentes ritmos e necessidades. No entanto, vários participantes chamaram atenção para o risco de ampliar o fosso digital. Sem infraestrutura adequada, formação docente e acesso equitativo, a IA pode reforçar desigualdades já existentes.
Questões éticas atravessaram praticamente todas as mesas. Privacidade de dados, vieses algorítmicos, transparência e segurança de crianças e adolescentes foram tratados como requisitos básicos e não como ajustes posteriores. Os participantes deixaram claro que confiança será o fator determinante para a adoção sustentável da IA na educação. É uma mensagem clara no sentido de que sem governança e responsabilidade, inovação perde legitimidade.
Talvez a discussão mais estratégica tenha sido sobre o futuro das competências essenciais. Se a IA responde perguntas em segundos, o que deve continuar sendo ensinado? Pensamento crítico, comunicação, colaboração e raciocínio ético surgiram como pilares para um mundo em que informação é abundante, mas discernimento é escasso. A IA, nesse contexto, funciona como catalisadora de uma reforma educacional que já era necessária.
Assim como discussões empresariais, o fórum educacional proposto por Stanford caminhou para um lugar comum: a inteligência artificial não é solução mágica nem ameaça inevitável, mas uma força estrutural que exige escolhas intencionais. Como resumiu Dan Schwartz, “o futuro da aprendizagem depende menos do que a IA pode fazer e mais do que decidimos fazer com ela”. Para além do hype, o recado do Summit foi direto: a educação ainda é um projeto humano.






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