
O professor, pensador e futurista Carlos Piazza não é exatamente conhecido pela ponderação na hora de expressar opiniões ou fazer críticas, especialmente contra as tecnologias mais “hypadas”. Não foi diferente na sexta-feira (6), terceiro dia do EATech Conference 2026. Ele subiu ao palco principal para apontar as contradições e os desafios da inteligência artificial, e a mensagem principal pode ser resumida em uma singela frase: “é inacreditável o nível de delírio a que vocês se entregam para as promessas que certas tecnologias nunca fizeram”.
A mensagem poderia ter feito alguns dos mais de 120 executivos de tecnologia presentes protestar, mas ninguém se levantou. Afinal, os CIOs também estão submetidos à pressão exagerada para adoção da IA, vindas do mercado, dos funcionários e especialmente dos fabricantes e seus incansáveis departamentos de marketing. Mas a crítica de Piazza é ainda mais profunda que isso, pois remonta ao nosso lado mais humano.
“A gente se apaixona tanto pela tecnologia que perde o poder de análise crítica. A inovação é um fenômeno humano, não tecnológico! Desde sempre humanos, em qualquer condição, fizeram tecnologias em suas épocas. Isso remonta ao domínio do sílex e do quartzo”, ponderou ele, relembrando dos nossos antepassados e suas primeiras ferramentas. “Nós somos inovação biológica sobre nós mesmos, e você aí achando que IA é uma tecnologia que veio lá do futuro.”

Ele lembrou que a IA floresceu nos laboratórios de exércitos e empresas do setor militar após a Segunda Guerra Mundial, “bem no meio da bomba de Hiroshima, a de Nagasaki e a Tsar”, ou seja, desde a origem associada à destruição. Aqueles que trabalham no setor de tecnologia estão acostumados a louvar os benefícios e potencial de transformação da IA, mas Piazza quis chamar atenção especialmente para o potencial destrutivo.
“A gênese dela [da IA] é a pior que você pode encontrar. Se estamos falando de uma tecnologia que nasceu para exterminar a humanidade, tem alguma coisa muito errada. (…) Quando remontamos à história das coisas, é importante que revejamos o nosso posicionamento”, alertou ele aos presentes.
O professor salientou que a IA, vendida atualmente como solução de otimização e ganho de produtividade para absolutamente tudo, não foi feita de fato para as pessoas, mas sim para as próprias máquinas corporativas. E que as pessoas têm se esquecido da nossa singularidade. “Você está mais preocupado em parecer um robô fofo do que com um humano de verdade. Eu ando de saco cheio de robô fofo e humano robotizado”, disparou.
Ele reforçou o papel do pensamento humano, lembrando que “tecnologia e filosofia andam de mãos dadas desde absolutamente sempre”, porque a reflexão a respeito dos nossos avanços é uma forma de prevenir nossa catástrofe. “Tecnologias são capazes de colapsar civilizações inteiras. Inclusive o que ela tem promovido nesse momento é só psicopatia”, disse, provavelmente se referindo a certos barões de Big Techs.
“Sejam especialistas em humanidade. As tecnologias vêm e vão”, lembrou. Aos CIOs, Piazza admitiu que a função de todo seu discurso foi “causar perturbação”, e lembrar que a única obrigação dos seres humanos deveria “ser feliz; por favor, seja feliz!”
As meas culpas
Coube a Andreia Sanchez, superintendente de tecnologia da Ailos, e a Cristiane Gomes, CIO com longa carreira no mercado, debaterem o tema após as intensas provocações de Piazza.

“Há gente fala de IA há dois anos fortemente em todos os eventos de tecnologia, e é a primeira vez que vejo um contraponto tão chocante”, admitiu Andreia. “Essa conversa é muito maior do que como vamos chegar na segunda-feira [nas empresas]. Temos que fazer a engrenagem rodar para baixo e certas provocações para cima”, disse.
A executiva também ponderou que, embora a IA tenha ares de “maior tecnologia descoberta até hoje”, muitas das consequências que ela traz para negócios e pessoas ainda são desconhecidas. “Quando se trata de estratégia, estamos acelerando com tudo. Mas será? Estamos tendo tempo de colher valor daquilo que estamos vendendo para os conselhos? Fazendo as perguntas certas?”
A executiva da Ailos lembrou que as empresas precisam nesse momento criar suas próprias políticas de ética, encaixadas aos seus pilares culturais, e que isso vai variar conforme a maturidade e o apetite à risco de cada uma. Mas também defendeu um processo de governança menos impositivo, mais conversado, e que hoje ainda é construído de forma “muito unilateral, a gente ouve pouco”, disse.
Cristiane Gomes concordou. E ponderou que governar não pode ser só controlar tecnologias para proteger os negócios, mas também criar formas de proteger as pessoas. E que mesmo a saída da fase de MVPs de IA, tão comuns nos últimos anos, precisam se tornar logo projetos de fato inclusive como forma de oferecer mais estabilidade e segurança para todas as partes envolvidas, funcionários e lideranças.
Também salientou a importância do “letramento”, ou seja, o treinamento e conscientização sobre a IA e seus efeitos. O que pode ser um problema porque “como vamos conseguir ensinar algo que nós mesmos não sabemos?”, questionou. “Temos que ter um ambiente em que as pessoas possam se colocar de maneira mais aberta. As pessoas estão com medo! Muitos postos de trabalho não vão mais existir e o que a gente faz? Comemorar o ROI? Temos uma responsabilidade. É muito mais profundo do que falar de IA.”






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