Jornalismo IA
Foto: Dlxmedia/Unsplash

A adoção de ferramentas de inteligência artificial nas plataformas de busca pode provocar uma retração de até 43% no tráfego direcionado a sites jornalísticos. A estimativa é de um relatório global do Instituto Reuters, que identifica uma mudança estrutural na forma de acesso à informação e já observa impactos na audiência de grandes veículos internacionais.

O principal ponto dessa transformação é a expansão das buscas “sem clique”. Nesse modelo, respostas sintetizadas por IA aparecem diretamente na página de resultados, diminuindo a necessidade de o usuário acessar a fonte original. Com resumos posicionados no topo das pesquisas, plataformas como o Google concentram a atenção e reconfiguram a dinâmica de distribuição de audiência.

O efeito vai além da queda quantitativa, conforme aponta Felipe Cardoso, CEO da Rank Certo. Em nota, ele destaca que “há uma perda de volume, mas o leitor que continua clicando tende a ter uma intenção mais clara. É um público menos ocasional e mais qualificado. O jornalismo passa a lidar com menos escala e mais profundidade”. Na prática, isso impõe revisão nas métricas de desempenho e na estratégia editorial.

Desafios de adaptação no jornalismo regional

O levantamento também mostra lacunas relevantes na presença digital fora dos grandes centros: em municípios com até 100 mil habitantes, mais da metade das rádios analisadas não mantém portal de notícias, e parte significativa das publicações impressas opera sem site próprio.

Segundo Cardoso, a combinação entre redução de tráfego e infraestrutura digital limitada pode comprometer a competitividade de veículos regionais, especialmente diante de um ambiente em que a audiência remanescente se torna mais exigente. O relatório do Instituto Reuters também aponta mudanças no comportamento do público. Parte dos usuários demonstra fadiga informativa, enquanto outra parcela busca fontes específicas e reconhecidas por sua credibilidade.

Diante da instabilidade do tráfego orgânico, publicações têm reforçado investimentos em canais próprios, como newsletters, podcasts e aplicativos. A estratégia busca reduzir a dependência de intermediários e fortalecer a conexão direta com a audiência. Cardoso aponta que “a inteligência artificial não elimina o jornalismo, mas redefine o acesso à informação”.

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