Inteligência artificial e futuro do emprego

O avanço da inteligência artificial está remodelando, ou pelo menos movimentando, a nossa relação com o trabalho. O tema foi abordado no 2º Seminário do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA), trazendo discussões sobre ética, oportunidades e caminhos regulatórios.

Segundo Vinícius Pinheiro, diretor da OIT Brasil, a IA tem potencial de transformar estruturalmente o mundo do trabalho, mas seus efeitos ainda não estão predeterminados. “Seu impacto não está dado, não está escrito ainda. Deverá ser moldado a partir de escolhas públicas e a partir de escolhas sociais”, afirmou. Três frentes concentram os maiores desafios: a substituição ou ampliação de funções pela automação; as mudanças nas relações trabalhistas impulsionadas pelas plataformas digitais; e as condições de trabalho, incluindo vigilância, saúde e riscos psicossociais.

Os números da OIT ajudam a dimensionar o cenário. Estima-se que 23% das ocupações no mundo possam ser impactadas pela inteligência artificial em maior ou menor intensidade. Dentro desse universo, 3,3% dos empregos globais estariam em risco de extinção total, sobretudo aqueles altamente automatizáveis. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, o percentual sobe para 25%, evidenciando vulnerabilidades adicionais. Outro recorte preocupante é de gênero: entre as mulheres, 5% das ocupações correm risco de desaparecer, o dobro da taxa verificada entre os homens (2,5%).

Pinheiro defendeu a reafirmação de princípios básicos, como proibição do trabalho infantil e escravo, combate à discriminação e garantia de saúde e segurança no trabalho, e ainda destacou a necessidade de investimentos contínuos em qualificação profissional. “Investimento em formação técnico profissional, de maneira contínua e para todos os setores, inclusive trazendo acesso à tecnologia e educação para aqueles que estão mais vulneráveis”.

Informalidade digital

A participação governamental tem um papel importante na discussão sobre trabalho e IA. Paula Montagner, subsecretária do Ministério do Trabalho e Emprego, alertou para a expansão do chamado “trabalho invisível”, realizado por pessoas que alimentam e validam algoritmos sem reconhecimento formal. “Nós estamos vendo o nascimento de uma nova forma de trabalho informal, sobre a qual a sociedade quase nada conhece”, disse. Ela defendeu políticas para dar visibilidade e representação a esses trabalhadores, além de novas classificações sindicais que contemplem as formas emergentes de atividade digital.

Outro destaque é a necessidade de pesquisas mais amplas para medir o fenômeno. Embora estudos qualitativos já apontem a realidade de microtarefas remuneradas até em moeda instável ou bens, falta monitoramento oficial que sustente a formulação de políticas públicas. Paula enfatiza: “se a gente não trouxer essa visão digital para a população como um todo, nós vamos continuar tendo gente que se suicida porque conversa com a IA. A gente precisa que todo mundo seja capacitado”.

Ética e governança responsável

Um dos dilemas mais urgentes ligados à expansão da inteligência artificial é seu impacto ético e social. Para Renée Cummings, professora e pesquisadora da University of Virginia, a tecnologia ainda “promete mais do que entrega” no ambiente de trabalho e levanta desafios que vão da automação excessiva à vigilância constante dos trabalhadores. Nos Estados Unidos, estudos recentes mostram que muitas empresas não estão reimaginando seus modelos de negócio com IA generativa, mas sim aplicando-a em processos de avaliação e seleção de pessoal, frequentemente de forma enviesada e discriminatória.

Os riscos se multiplicam em áreas sensíveis, como recrutamento, avaliação de desempenho e até mesmo saúde mental no trabalho. Sistemas automatizados, baseados em padrões estatísticos, podem desclassificar candidatos apenas por sotaque, idade ou deficiência física. Outro ponto crítico é a chamada “extração cognitiva”: à medida que os profissionais utilizam ferramentas de IA para redigir relatórios, responder e-mails ou criar modelos de negócio, estão transferindo seus padrões de pensamento e criatividade para sistemas privados, o que abre espaço para novas formas de exploração digital pouco discutidas.

Renée defende uma governança mais robusta e transparente. Isso inclui não apenas auditorias e testes de impacto, mas também a preparação cultural das organizações para lidar com a tecnologia de forma responsável. Questões como accountability (quem responde pelos erros cometidos por um algoritmo?), proteção de dados e estratégias de gestão de crises precisam estar no centro do debate. Antes de adotar qualquer sistema, a pergunta essencial deveria ser: “Nós realmente precisamos dessa IA?”. A resposta, segundo Renée, deve vir acompanhada de políticas claras de equidade, explicabilidade e responsabilidade, para que a inovação não se transforme em mais um vetor de exclusão social.

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