
O Deep Tech Meetup, promovido pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, foi realizado durante a São Paulo Tech Week e reuniu nomes do venture capital para discutir um ponto sensível do ecossistema: por que investir em deeptechs exige paciência e estratégias diferentes?
Mais do que números, o debate mostrou que o Brasil começa a consolidar uma tese própria para tecnologia de base científica, combinando capital privado, público e corporativo em busca de soluções de impacto. Richard Zeiger, sócio da MSW Capital, apontou que o maior desafio é o tempo. Fundos de venture capital, em geral, têm ciclos de 10 a 12 anos, mas deep techs podem levar seis ou sete anos apenas para chegar ao mercado.
Esse descompasso pressiona o investidor que precisa mostrar retorno, e Zeiger exemplifica o que já vem acontecendo em outros países: “quando você pega mercados mais maduros, por exemplo no Vale do Silício ou em Boston, que é aquela região do MIT, eles já têm períodos de 15 anos, fundos de 20 anos”.
Mas esse tema exige mais do que capital: requer articulação entre ciência e negócios. Muitas vezes, os fundadores são pesquisadores de excelência, mas sem experiência empreendedora. Para Zeiger, fazer a interlocução entre cientistas e o mercado é outro ponto crítico e complexo.
Saúde, clima e governo
Para Wagner Araújo, COO da Invest Tech, setores como saúde estão na linha de frente da transformação e é essencial o diálogo entre empreendedores, investidores e o poder público. Ele acredita que o Brasil tem características únicas para desenvolvimento de deep techs de saúde e vê um futuro promissor.
Quando se fala em Govtech e Climatetech, eram áreas que vinham sendo vistas como nicho porém e hoje atraem recursos robustos. Danilo Zelinski, head de investimento em inovação para natureza e clima da KPTL aponta que o Brasil tem diferenciais competitivos como a biodiversidade, liderança em energia renovável e um agro sustentável que precisa ganhar escala. Ele comenta: “a empresa que tem soluções climáticas precisa de tecnologias para soluções climáticas, é questão de ecossistema. Se eu não tenho para quem vender, provavelmente eu não vou conseguir levantar recursos”.
Times e resiliência
Um ponto comum apresentado na fala de todos os participantes do painel foi a cobrança por maturidade organizacional. Araújo deixou claro que as deep techs que querem aportes precisam ter gestão organizada, transparência, visão de riscos e vendas: “ter as solução tecnológica e se apaixonar pela solução tecnológica não é o suficiente”.
Zelinski reforçou que a formação de times multidisciplinares é um ponto chave, que muitas deep techs nascem em torno de um time de PhDs, mas esquecem de incluir quem entende de mercado. Sem isso, têm um produto, mas não têm um negócio. Nos casos de sucesso, a combinação de complementaridade entre perfis, resiliência diante dos obstáculos regulatórios e capacidade de se adaptar a novas demandas fizeram a diferença.
Valor além do capital
O investimento em deeptech precisa vir acompanhado de apoio estratégico, muitas vezes executivos de corporações investidoras chegam a ocupar assentos em conselhos de deep techs e sartups para auxiliar com a visão de mercado. Derek Bittar, sócio fundador da Indicator Capital, relata que o suporte deve ser amplo: “além da ajuda operacional que a gente faz na companhia, a gente também tenta colocar a startup no trilho de buscar e acessar capital de fomento. Essa aproximação do privado com o público acaba sendo um ângulo muito importante para trazer eficiência”.
O caminho para o sucesso de uma deep tech passa por buscar investidores que entendam a tecnologia, preparar uma narrativa clara de valor e, acima de tudo, cultivar a persistência. Bittar faz uma referência que empreender em deep tech é como o mito (grego) de Sísifo: empurrando a pedra montanha acima todos os dias.






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