
O avanço acelerado da inteligência artificial e das tecnologias emergentes está reconfigurando a forma como a sociedade enxerga o futuro. Durante o 2º Seminário Internacional de Inteligência Artificial em Educação e Cultura, a futurista e pesquisadora Martha Gabriel defendeu a necessidade urgente de um “letramento em futuros”, competência que, segundo ela, deveria ser ensinada desde a infância para preparar indivíduos e instituições diante de cenários incertos.
A especialista destacou que o futuro não pode ser previsto com exatidão, mas pode ser explorado a partir de sinais e cenários possíveis, prováveis e preferíveis. Quem tem letramento de futuros não apenas imagina, mas age para construir os futuros desejados e evitar os indesejados. Como exemplo, relembrou o “bug do milênio”: um risco que não se concretizou justamente porque foi antecipado e corrigido.
Tempos acelerados
Entre os principais benefícios dessa prática, Martha aponta dois: a ampliação da capacidade de enxergar possibilidades de longo prazo e a superação do chamado “curtoprazismo”. Em um mundo em constante aceleração, tomar decisões baseadas apenas no presente tende a gerar escolhas equivocadas. Planejar o futuro como se fosse um jogo de tênis é fundamental: não sabemos onde a bola vai cair, mas precisamos treinar cenários para estar preparados.
A palestrante também alertou que a atual revolução tecnológica, impulsionada pela IA generativa, está apenas no começo e pode ser comparada à internet em 1999. A popularização das interfaces conversacionais democratizou o acesso ao conhecimento, criando tanto oportunidades quanto desafios. Para Martha, estamos vivendo uma hiperinflação cognitiva: o equivalente a dezenas de Einsteins na palma da mão. Isso impacta todas as profissões e exige habilidades novas.
O impacto no mercado de trabalho foi outro ponto em destaque. Martha lembrou que a automação e a robótica já estão substituindo funções operacionais, ao mesmo tempo em que novas profissões surgem – algumas das quais, no entanto, já começam a ser absorvidas novamente pela própria IA. Esse movimento pressiona sistemas educacionais a repensarem currículos, priorizando competências adaptativas, pensamento crítico e criatividade.
Robôs, biotecnologia e neurotecnologia
A pesquisadora também abordou temas que vêm ganhando espaço no radar global, como biotecnologia, neurotecnologia e computação quântica. O surgimento de robôs orgânicos, a possibilidade de edição genética com CRISPR e os experimentos com chips cerebrais levantam questões éticas sobre privacidade, identidade e desigualdade de acesso. Não podemos ignorar os riscos, mas também não podemos fechar os olhos para o potencial transformador dessas tecnologias.
Para Martha, o futuro dependerá da capacidade de indivíduos, organizações e governos de reconhecer sinais fracos de mudança e transformá-los em estratégias de longo prazo. Ela cita exemplos como Singapura e Gramado (RS), cidades que construíram futuros desejados a partir de escolhas estratégicas e consistentes. “A vida não recompensa a gente por esforço, recompensa por resultado. E para ter resultado, tem que estar preparado”, concluiu.
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