
A inteligência artificial (IA) está no centro de debates que movimentam o campo da educação, da cultura e das artes. No 2º Seminário Internacional de Inteligência Artificial em Educação e Cultura, a historiadora, professora, antropóloga e imortal da Academia Brasileira de Letras Lilia Schwarcz, trouxe uma reflexão que atravessa tempo, memória e desigualdades: as coisas só são previsíveis quando já aconteceram. A frase de Machado de Assis serviu como fio condutor para discutir os impactos da tecnologia e a necessidade de enxergá-la como parte de um processo histórico em andamento, cheio de vertigem, dúvidas e contradições.
Para Lilia, pensar a IA exige lidar com diferentes temporalidades. Assim como a Revolução Industrial, que reorganizou a sociedade e gerou novas classes sociais, ou a fotografia, que alterou nossa forma de ver e registrar o mundo, a inteligência artificial inaugura uma mudança profunda. Estamos no meio do caminho, e a historiadora afirma que o meio do caminho é sempre atordoante.
Ela lembrou que momentos de grande transformação sempre foram acompanhados por medo, surpresa e nostalgia, mas também por esperança e invenção. “Eu acredito que a história pode dar um lembrete, a história pode lembrar de não esquecer”, destacou, citando o historiador Peter Burke.
O risco da reprodução de desigualdades
Durante sua fala, ela mostrou experimentos com imagens geradas por IA. Ao pedir representações de historiadores, recebeu figuras eurocêntricas e masculinas, cercadas de símbolos do Ocidente. Mesmo quando a tecnologia tentou retratar a própria Lilia, os resultados reforçaram a branquitude e relegaram povos indígenas e africanos a papéis secundários.
Há um risco do racismo estrutural, misoginia e exclusões históricas que a IA pode amplificar. Para ela, o risco não está apenas na inovação técnica, mas na forma como a tecnologia herda e reproduz os vieses de uma sociedade desigual.
A historiadora destacou que a cultura não deve ser entendida como reflexo passivo, mas como produção ativa de valores e invenções coletivas. Nessa perspectiva, também a ciência e a tecnologia são frutos de contextos sociais e desejos coletivos, não apenas de “gênios isolados”.
A crítica se estende aos regimes de memória: o que é lembrado e o que é silenciado pela história, pelos arquivos coloniais e agora pelos algoritmos. Lilia reforça que os arquivos sempre guardaram esquecimentos e a IA pode multiplicá-los, se não estivermos atentos.
Arte como espaço de questionamento
Lilia aproximou o debate da arte, lembrando como as imagens moldam o imaginário coletivo. A tela “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, por exemplo, é uma ficção visual que marcou a identidade nacional apesar de suas contradições históricas. Hoje, artistas contemporâneos e indígenas reconfiguram esse imaginário, mostrando outras perspectivas da independência e da história brasileira.
“Em tempos de crise, fique perto de um artista”, disse, citando o crítico Mário Pedrosa. Para ela, os artistas têm a capacidade de tensionar visões estabelecidas e abrir novas formas de leitura, um papel fundamental também no diálogo com a IA.
No campo da educação, ressaltou a importância de integrar saberes formais e informais, valorizando tanto a escola quanto a experiência comunitária. A IA precisa ser ensinada, criticada e questionada, e não naturalizada como neutra.
A historiadora defendeu a urgência de regulação ética, que vá além de “muros de algoritmos” e considere segurança, responsabilidade e cidadania digital. O desafio, disse, é formar uma geração capaz de navegar com autonomia, sem abrir mão da crítica e da reflexão.
Aprender com o presente
Ao encerrar sua palestra, Lilia retomou a metáfora dos mapas: instrumentos que registram, mas também escondem. O mesmo vale para os documentos históricos e para os sistemas de inteligência artificial. “É preciso ter coragem, porque as coisas estão no mundo e só falta para a gente, aprender”, concluiu.
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