Da esquerda: Vitor Cavalcanti, Glória Guimarães e Gianna Sagazio. Foto: Marcus Oliveira, Flashbang

Faltam ao Brasil políticas claras e uma estratégia nacional de ciência, tecnologia e inovação, e cabe não só aos governos corrigir esse rumo, mas também à sociedade civil e às empresas. Para essas últimas, simplesmente esperar não é uma opção na corrida da competitividade global. Essas são algumas das conclusões possíveis para quem assistiu o painel de encerramento do Eatech Conference 2026 na Chapada dos Guimarães, em março.

O debate reuniu dois grandes nomes do setor no Brasil – Glória Guimarães, diretora-presidente do Brasil Digital 30+, e Gianna Sagazio, CEO da SOSA Brazil –, ambas discutindo o tema Brasil resiliente – o papel do setor privado no salto digital do País.

O Plano Brasil Digital 30+, ou apenas BD30+, presidido por Glória, é um movimento com participação do setor privado, da sociedade civil e do setor público. O objetivo autodeclarado é criar estratégias de curto, médio e longo prazo para o desenvolvimento e uso de tecnologias digitais que apoiem os objetivos de desenvolvimento econômico e social do Brasil.

“Essa preocupação não veio do governo, veio do setor empresarial, da sociedade”, ponderou a executiva na abertura da conversa. O órgão baseou o próprio trabalho em exemplos internacionais, inclusive o de países como Japão, Dubai e México, entre outros, que tem estratégias digitais nacionais bem definidas. “É possível que o setor privado e o governo façam as mesmas coisas ao mesmo tempo, gastando dinheiro à toa, e estamos propondo uma convergência.”

Glória Guimarães, diretora-presidente do Brasil Digital 30+. Foto: Marcus Oliveira, Flashbang

O “30+” do nome do movimento indica que há objetivos previstos até 2030, incluindo temas como redução de desigualdades por meio da tecnologia, o crescimento sustentável do produto interno bruto (PIB), o ganho de relevância no contexto global e, por último, mas não menos importante, o ganho de autonomia tecnológica do País.

“Hoje a gente não é reconhecido como um país de tecnologia, com exceção do setor financeiro. E todos vocês aqui têm um papel importante”, disse Glória aos CIOs na plateia. “Infelizmente somos dependentes de tecnologias que vem de fora, e se existem [tecnologias nacionais] precisamos divulgar e fazer acontecer.”

Para a executiva, os setores do País trabalham excessivamente em “nichos”, quando deveriam buscar estruturas comuns para uma “ação coletiva” e para “priorizar”. Segundo ela, não adianta “todo mundo querer fazer o mesmo isoladamente”, e o caminho é “nos juntarmos e fazermos algo em rede”. E citou o setor financeiro como exemplo, articulado na Febraban em torno de objetivos comuns e colaboração setorial.

Projeto de País

Gianna Sagazio, da SOSA Brazil, dirigiu-se aos CIOs na plateia para salientar que “nós, como sociedade, temos que exigir que o Brasil tenha um projeto, em todas as instâncias”. Ela lidera a filial brasileira da consultoria global SOSA, especialista em inovação aberta (aquela em que empresas buscam a colaboração de outras, especialmente startups, para projetos de inovação). Para ela, é “inadmissível que o Brasil tenha caído no ranking das maiores economias do mundo, e vamos continuar caindo se não decidirmos o que nós queremos ser”.

A executiva elogiou o movimento capitaneado pela colega de painel. Segundo ela, o Brasil evoluiu nos últimos anos, considerando seu conjunto de política públicas voltadas à inovação. Legislações que estabeleceram e aprimoraram mecanismos como a Lei do Bem, por exemplo, se valem de mecanismos amplamente utilizados por países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Gianna Sagazio, CEO da SOSA Brazil. Foto: João Pontes, Flashbang

Mas até hoje, segundo ela, falta uma política nacional unificada de ciência, tecnologia e inovação. Também uma redução de burocracia e da insegurança jurídica que permita colaborações com empresas de fora.

Além disso, há uma enorme lacuna educacional a ser vencida, especialmente no ensino das chamadas STEM – acrônimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Ela salientou também que há no Brasil uma “grande dificuldade” para articular a pesquisa feita em universidades com as empresas, “algo que não existe em outros ecossistemas do mundo”.

Por parte das empresas, a executiva mencionou a inovação aberta como caminho possível, ao aliar a potência de uma grande corporação com a inventividade das pequenas.

“A maior parte das empresas no Brasil são micro, pequenas e médias. Claro que existe uma pressão para fazer pesquisa e desenvolvimento, mas para reduzir esse ‘gap’ é importante fazer inovação aberta. (…) Acredito muito no poder da inovação aberta para reduzir custos, o tempo [de desenvolvimento] e melhorar os resultados das empresas”, salientou.

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