Em obra recém-lançada, Gabriela Blanchet, sócia fundadora do Blanchet Advogados e referência em governança corporativa, sustentabilidade e liderança empresarial, aborda como conselhos e lideranças devem migrar do “comando e controle” para uma postura ativa de regeneração de ecossistemas e comunidades.

No livro “Governança Regenerativa: uma evolução do sistema de governança para enfrentar os desafios do mundo em transição”, a autora reflete sobre como a governança corporativa, concebida há décadas como um mecanismo de monitoramento, controle e proteção de valor financeiro, responde às demandas do nosso tempo. A análise baseia-se em sua ampla experiência em órgãos de governança, como Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e no comando do comitê de líderes pelo clima do capítulo brasileiro da Climate Governance Initiative (Fórum Econômico Mundial). 

Diante de urgências climáticas, desigualdades sociais e uma complexidade geopolítica crescente, a especialista ressalta que as ferramentas tradicionais parecem insuficientes para garantir a perenidade das organizações. É neste cenário que ela propõe uma mudança de paradigma: a governança regenerativa. 

Karen Ferraz – As organizações passam por desafios inéditos, além dos econômicos, que incluem emergência climática, expansão acelerada do uso da IA, pressão sobre os recursos naturais e retrocessos sociais ocasionados pela pandemia. Quais as limitações do modelo de governança tradicional para lidar com esses desafios?

Gabriela Blanche – O modelo de governança tradicional é o mesmo tom há anos. Ele não reflete a realidade de hoje, marcada pela pandemia, sequências de guerras que impactam a cadeia de fornecimento, discussões geopolíticas e tarifas, resultando em um cenário complexo. 

Uma das principais limitações é a visão mecanicista, muito focada em comando e controle, herdada da Revolução Industrial. Embora tenha funcionado até hoje, a estrutura não é adequada para o futuro. O modelo tradicional tende a focar em ações pontuais, concentradas na área da sustentabilidade ou em departamentos específicos, sem permear a organização como um todo e sem se tornar uma pauta estratégica de longo prazo.

Além disso, as empresas se colocam em uma posição muito desconectada do ecossistema. O olhar ainda é financeiro, preocupado com o impacto que eventos climáticos extremos podem causar no negócio, em vez de entender os impactos que elas próprias causam na perda de biodiversidade ou serviços ecossistêmicos. Outra barreira é a falta de atualização: conceitos como o “Triple Bottom Line” já foram revistos pelo próprio criador para incluir a regeneração, mas o mercado ainda repete o conceito original. Isso demonstra uma dificuldade na capacitação de conselheiros e executivos, que muitas vezes operam em um modo automático de sobrevivência de curto prazo, esquecendo-se do propósito e dos cenários futuros.

KF – Você propõe um novo modelo baseado na governança regenerativa. Quais são as principais práticas desse modelo e como ele se difere do tradicional?

GB – O novo modelo busca modernizar e renovar a discussão, propondo uma mudança de mindset profunda. Ele se difere do tradicional ao incorporar a regeneração na governança, conectando temas transversais.

Entre as principais práticas, destaco a incorporação do conceito de regeneração, onde o “net zero” é visto como um ponto de partida, não de chegada. O objetivo é que as empresas pensem em como chegar efetivamente à regeneração. Propomos também uma visão ampliada da ética, holística e aplicada para a afirmação da vida, indo além do compliance e considerando o impacto em vidas não humanas e serviços ecossistêmicos.

Outros pilares fundamentais incluem a transparência verdadeira — divulgar informações para que as pessoas saibam a real situação da empresa, não apenas por obrigação regulatória — e a interdependência, reconhecendo que a empresa é parte de um sistema maior. O propósito torna-se um direcionador central para a cultura e estratégia.

Além disso, sugerimos a mudança do termo “stakeholders” para “care holders“, com um olhar de cuidado com o todo, buscando uma relação de ganha-ganha. Tudo isso configura um sistema de governança regenerativa: um sistema guiado por propósito, composto por elementos tangíveis e intangíveis, revisto para gerar valor e impactos positivos e duradouros.

KF – As agendas de ESG dão conta dessa nova lógica regenerativa?

GB – Embora tenham cumprido um papel importante ao trazer luz à discussão sobre governança como base das boas práticas, elas não dão conta da nova lógica regenerativa e exigem uma mudança estrutural. O ESG tem um viés muito forte de mercado de capitais, finanças e indicadores, tornando-se muitas vezes mais uma questão de conformidade do que uma discussão profunda sobre a importância das questões ambientais e sociais.

A regeneração propõe uma visão mais ampliada. A área de sustentabilidade precisa se reinventar para sair da conformidade e do cumprimento de políticas, buscando uma visão estratégica que faça parte da cultura da organização. Enquanto o ESG foca em metas, a governança regenerativa exige que o tema seja genuinamente “comprado” por todos, transformando a forma como a empresa opera e se relaciona com o ecossistema.

KF – Qual o papel dos líderes nesse novo modelo?

GB – O papel é fundamental. Se o tema da governança regenerativa não estiver na pauta da alta liderança, especialmente no conselho de administração, ele não entrará na estratégia de negócios. É o conselho que aprova a estratégia e, se o tema não estiver lá, não haverá cobrança sobre a diretoria para implementá-lo.

A discussão passa também pela modernização da responsabilidade dos administradores. Precisamos falar sobre a ampliação dos deveres fiduciários para incluir o olhar sobre questões climáticas, sociais e ambientais. Os administradores têm a responsabilidade de gerar valor não só no curto prazo, mas para a longevidade da organização.

Case da Dengo mostra que mudança é possível

KF – Considerando o sistema capitalista que rege as dinâmicas da governança corporativa, seria necessária uma mudança de consciência nesse sistema para que um modelo regenerativo seja adotado?

GB – Sim, é necessária uma mudança de consciência. O modelo tradicional, de tom mecanicista, não é adequado para o futuro. Precisamos de uma mudança de mentalidade para repensar essa visão. O propósito das empresas deve ser o direcionador para a cultura e estratégia de longo prazo, o que implica refletir sobre a razão de existir da organização e sua contribuição para as pessoas e o planeta, indo além do foco puramente financeiro.

Infelizmente, observamos que a maioria das empresas só se movimenta quando há regulação, legislação ou quando um desastre acontece. A consciência atual muitas vezes não é suficiente para impulsionar essas práticas sem pressões externas, e é preciso superar essa desconexão com o ecossistema.

KF – Quais são os principais ganhos da governança regenerativa tanto para as empresas quanto para a economia?

GB – Para as empresas, o principal ganho é a preparação para o futuro. Elas se tornam mais resilientes, adaptadas e garantem maior longevidade e perenidade, pois trabalham para preservar as relações dentro do ecossistema. É uma vantagem competitiva de sobrevivência em um mundo incerto, complexo e volátil.

Para a economia e o ecossistema, o ganho está na geração de valor e impactos positivos duradouros. É um benefício para todos os “care holders” e atua diretamente na redução da desigualdade, promovendo uma transformação sistêmica.

KF – Há exemplos de empresas e líderes que já implementam? Como as empresas podem adotar a lógica regenerativa?

GB – A Natura anunciou o desejo de se tornar regenerativa. A Dengo Chocolates é um case que impacta positivamente todo o ecossistema, pagando mais pelo cacau e capacitando produtores, transformando a região de Ilhéus na Bahia. A Korin é outro exemplo sério na produção de alimentos, e temos startups como a “Meu Chapa”, que formalizou trabalhadores informais através de uma plataforma, gerando inclusão.

Para adotar essa lógica, as empresas precisam: reconhecer a necessidade de uma estrutura de governança apropriada para esse novo mindset; entender-se como parte de um ecossistema maior, mapeando seus impactos na biodiversidade e serviços ecossistêmicos; ir além do “Net Zero”, encarando-o como ponto de partida; revisitar o propósito e desenhar uma agenda com metas de longo prazo que considerem riscos futuros, especialmente ambientais; conectar o tema estrategicamente ao dia a dia do negócio, e não apenas para cumprir regulações.

KF – Quais tendências tecnológicas ajudarão a impulsionar a implementação de práticas regenerativas nas organizações?

GB – O futuro é verde e tecnológico. Vimos movimentos de vanguarda, como na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que incorporou normas de sustentabilidade alinhadas à visão de que tecnologia e agenda verde caminham juntas.

Startups e plataformas digitais têm um papel importante nesse impulso. O exemplo da “Meu Chapa” mostra como a tecnologia pode integrar e formalizar trabalhadores, oferecendo capacitação e conectando pontas soltas do sistema. A tecnologia pode ser um grande habilitador para tirar pessoas da margem e implementar práticas regenerativas de forma escalável.

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