
Quando o Rio Guaíba começou a encher após dias de chuva forte no Rio Grande do Sul em 2024, pouca gente realmente acreditava que as águas inundariam parte expressiva da cidade de Porto Alegre. No entanto ruas, casas e andares de prédios ficaram embaixo d’água ou inacessíveis, alguns deles responsáveis por prestar serviços essenciais à população – foi o caso do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), que perdeu acesso a um de seus data centers na sala cofre de seu principal edifício, responsável por rodar sistemas jurídicos essenciais.
Para lidar com a situação, o órgão agiu rápido. Decidiu migrar o Eproc, principal sistema do tribunal, para a nuvem, superando dificuldades básicas como manter o abastecimento de energia. O projeto já vinha sendo planejado e levaria cerca de oito meses para ser concluído, mas foi adiantado e executado em velocidade recorde: apenas 21 dias. Quem contou a história foi a então CIO do tribunal, Vanessa Barbisan – hoje CTO do Ministério Público do estado.
“Eu acho que a resiliência é a capacidade que temos de sair da adversidade. De usar as ferramentas que temos para sair das crises”, disse ela, visivelmente emocionada, durante o EATech Conference 2026, realizado entre quarta-feira (4) e domingo (8) na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso. “O data center principal e o secundário estavam em áreas alagadas. Eles não sofreram danos, mas a subestação de energia não funcionava. A segunda sala cofre, que ficava em um prédio perto dali, sustentou o tribunal mantida por geradores.”
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O Eproc é o principal sistema da informação do TJ-RS. São 350 mil usuários cadastrados, incluindo magistrados e advogados, rodando sob 100 máquinas virtuais e utilizando mais de 10 TB nos bancos de dados, além de integrações com 46 sistemas. Tudo isso foi migrado para a nuvem entre os dias 6 de maio de 2024, quando a enchente já alcançava o segundo andar do prédio do TJ, e concluída no dia 27 do mesmo mês.
“Nós já estávamos preparados, sabíamos que era possível levar o Eproc para a nuvem”, lembra ela, recordando que o TJ-RS vinha em um processo de digitalização pelo menos desde 2017, quando adotou o sistema, movimento intensificado depois da pandemia de covid-19. “Em 2023 criamos um modelo de inovação em tecnologia, com ‘nortes’ para trabalhar. Um deles era a computação em nuvem.”
A executiva do setor público citou como parceiros essenciais para o projeto a Amazon Web Services, que “quando começou a crise entrou em contato conosco para ajudar”, além da Hitachi e do Serpro. Também todos os servidores envolvidos, além de entidades parceiras como a OAB e a Defensoria Pública do estado. “Eu não acredito que seja possível migrar um sistema assim em 21 dias se não estiver todo mundo trabalhando com o mesmo fim. O sucesso dessa operação se deu porque estava todo mundo no mesmo barco”, disse.
O processo de migração foi feito primeiro para a nuvem da AWS, que acionou um programa específico para socorrer clientes em casos de catástrofe. Isso permitiu que o projeto fosse executado em regime emergencial, sem os trâmites de contratação que normalmente ocorreriam no caso de uma compra pública. Passados dois meses, foi assinado um contrato definitivo com Serpro, que é multinuvem.
Pouco mais de um ano depois, em junho do ano passado, a TI do TJ-RS fez uma grande entrega: a plataforma GAIA, que reúne oito agentes de IA desenvolvidos com parceiros do tribunal, incluindo grandes empresas de tecnologia e startups. Eles estão em três eixos: jurisdicional (para auxiliar advogados e juízes), um administrativo e um para a população.
Segundo Vanessa, o projeto começou logo depois da migração para a nuvem e foi executado em cerca de seis meses utilizando conceitos de inovação aberta.






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