Créditos Carbono
Foto: Nhungdm/Pixabay

Uma pesquisa conduzida por cientistas brasileiros e publicada na Global Change Biology apresenta um avanço metodológico relevante para o setor florestal e para a agenda climática nacional. O estudo desenvolveu modelos estatísticos que elevam a precisão no cálculo de carbono estocado em florestas plantadas, com redução de erro de 10% na biomassa aérea e de até 60% nas raízes, componente historicamente mais difícil de mensurar.

O trabalho analisou mais de 2 mil árvores em 27 áreas distribuídas por diferentes regiões do país, com foco em plantações de eucalipto e pinus, base da indústria brasileira de papel e celulose. O setor de florestas plantadas tem papel estratégico na mitigação climática e descarbonização, ao capturar mais de 1,8 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente no Brasil. Uma maior precisão nos inventários fortalece a transparência das metas climáticas e amplia a confiabilidade para acesso a mercados de carbono.

Limitações dos modelos atuais

Hoje, grande parte dos inventários de carbono no Brasil, inclusive aqueles reportados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ainda utiliza fatores médios definidos em 2004 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Esses parâmetros genéricos não consideram variáveis como idade das árvores, espécie, solo, clima ou localização, o que pode gerar distorções relevantes nas estimativas de remoção de carbono.

A nova abordagem substitui esses valores fixos por equações calibradas com dados de campo. As fórmulas utilizam variáveis como diâmetro à altura do peito (DAP), altura total, idade do plantio, espécie cultivada e características ambientais, incluindo clima segundo a classificação de Köppen, precipitação média e temperatura regional. Os dados alimentam modelos de regressão que capturam a variabilidade real das florestas brasileiras.

Indicadores mais aderentes à realidade

O estudo também aprimora dois indicadores centrais para estimar biomassa e carbono. O primeiro é o Fator de Expansão da Biomassa (BEF), que converte a biomassa do tronco na biomassa total da parte aérea. O segundo é a Relação Raiz–Parte Aérea (R), que estima a proporção de biomassa subterrânea. A combinação desses parâmetros torna os inventários mais robustos e tecnicamente consistentes.

Segundo nota do pesquisador Otávio Camargo Campoe, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e autor principal do estudo, essa mudança é importante e impacta inventários de empresas e governos. Campoe explique que “ao substituir valores genéricos por fórmulas calibradas com dados reais, os novos modelos capturam a variabilidade das florestas plantadas brasileiras com muito mais precisão. Os modelos anteriores davam uma estimativa média. Agora, conseguimos dizer com mais precisão quanto carbono existe em cada floresta, dependendo do tipo, da idade e do lugar”.

Aplicação corporativa e impacto no mercado de carbono

A Bracell forneceu sua base de dados para a pesquisa a partir de medições realizadas em áreas operacionais em parceria com universidades e centros de pesquisa. Além disso, a empresa já incorporou os novos modelos em seus inventários de emissões e remoções de gases de efeito estufa.

Gabriela Matzner, gerente de P&D Manejo Florestal da Bracell, contou também em nota que “antes era uma estimativa genérica, agora virou um cálculo técnico preciso, com base em dados reais da floresta, isso nos permite relatar com mais responsabilidade nossas emissões e remoções de carbono, além de melhorar o planejamento florestal”.

Sem comentários registrados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *