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O professor Michael Wade e a hidra da resiliência. Foto: Marcus Bonham, Flashbang

Alguns animais, inclusive da fauna brasileira, da mitologia e até dos desenhos animados podem servir de boa inspiração para as organizações que almejam ser resilientes durante essa nova era de transformação digital, caracterizada pelo uso intensivo de dados e pela inteligência artificial, sob a sombra de um cenário global instável. Isso porque alguns desses bichos são capazes não só de escapar de ameaças, mas de resistir a elas, mesmo as impossíveis de evitar. Esse foi o recurso usado por Michael Wade, professor da escola suíça de negócios IMD Business School e líder do laboratório de inteligência artificial, durante abertura do Eatech Conference 2026 nesta quinta-feira (5). A CIO do Grupo OCQ, Claudia de Moya Ferraz, também participou como mediadora.

O evento é realizado pelo EATech na Chapada dos Guimarães, interior do Mato Grosso, e vai até domingo (8). O tema da conferência é justamente a resiliência, especialmente os desafios que as empresas enfrentam para se manterem e prosperarem em um momento de adoção acelerada de tecnologias emergentes – sendo a IA, claro, a mais “hypada” delas.

“A resiliência é o tópico do dia, está todo mundo falando disso. Mas o que vem antes? A verdade é que falamos por muito tempo sobre algo similar e importante, a agilidade. Vocês lembram de agilidade?”, questionou o professor à audiência formada por mais de 120 dos principais executivos de tecnologia do País. “Agora é tudo sobre resiliência. Não é mais suficiente ser ágil?”

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Wade explicou que a agilidade combina especialmente três características – a capacidade de sentir o ambiente (hyperawaraness); de tomar decisões de forma informada; e de executar projetos rapidamente. Mas o que era um assunto prevalente até poucos anos atrás talvez não seja mais suficiente porque, segundo o professor, “ser ágil não significa que você vá sobreviver a um ambiente tão volátil quanto o de hoje”.

As organizações atuais precisam resistir a eventos que são como cisnes negros, disse Michael Wade, que na natureza são raros e muito difíceis de serem vistos. A pandemia de covid-19 foi um exemplo – ninguém a previu ou sabia como lidar com ela. Também estarem prontos para lidar com os eventos que são “grandes rinocerontes”, ou seja, estão lá, parados, sem fazer nada a ninguém, mas são capazes de fazer grandes danos quando enfurecidos. As mudanças climáticas atuais são um exemplo, mas também as guerras e os ataques cibernéticos.

“Enquanto CIOs temos que nos preocupar com as coisas difíceis de prever e as fáceis de prever, ambas capazes de causar grandes danos. E é aí que entra a resiliência. E não importa o quão ágil você é, não é possível escapar de grandes eventos”, sentenciou.

Ou como o Coiote, personagem da Warner Bros. que perseguia o Papa-Léguas. Calma, eu posso explicar.

Seis pilares da resiliência

Nos desenhos animados de antigamente, o Coiote sempre acaba caindo de um precipício quando é enganado pelo Papa-Léguas. Mas nunca morre. Sempre volta, pronto para perseguir o pássaro corredor de novo e de novo. Isso é resiliência, brincou Wade. A resiliência, portanto, é como a hidra de Lerna, criatura da mitologia greco-romana de várias cabeças que, quando tinha uma delas cortada, criava outras duas no lugar. “É uma forma diferente de construir uma organização, mas se você acredita que o mundo está ficando mais imprevisível, precisa construir algo que se pareça com isso”, disse.

A hidra do professor suíço tem seis cabeças. Elas estão reunidas em grupos de dois, cada um representado por três letras A, de Avoid (evitar), Absorb (absorver), Accelerate (acelerar). E as tecnologias digitais podem “amplificar esses três aspectos”, salientou. “E acho que os CIOs têm um grande papel nisso. As organizações que conseguirem executar esses seis aspectos serão as vitoriosas, e já temos visto isso no mercado”, ponderou.

O primeiro A, de Avoid, consiste em se manter flexível. Michael Wade é contra “planos de negócio de três ou cinco anos, que só funcionam se você der a sorte de estar em um ambiente muito estável, porque o mercado muda muito rápido, e eles te prendem”. Para ele, a flexibilidade exige dados e análise em tempo real, além de ferramentas de suporte à decisão. “É aí que a IA entra e pode ajudar”, disse.

A segunda cabeça da hidra é a da velocidade, ou seja, agir rápido. Para as organizações, lembra ele, isso é “fácil de falar, difícil de fazer”, mas possível com dados precisos. “Uma das grandes responsabilidades do CIO hoje é garantir que os dados disponíveis são seguros. Cibersegurança é uma questão ainda maior no mundo de hoje”, ponderou ele, dizendo que esses dados não podem estar isolados em silos, mas sim fluindo através deles.

E a terceira cabeça, dentro do pilar Absorb, pode ser obtida por meio da diversificação, diz ele. As corporações ao longo dos anos se focaram “tanto e por tanto tempo em serem robustas que isso nos tornou mais vulneráveis, reduziu nossa habilidade de absorver dano”, disse, dizendo que às vezes ter redundâncias é algo positivo. “Para o CIO, o trabalho é mais complexo, porque ao invés de um fornecedor apenas, talvez você queira ter dois, ou três.”

Quarta cabeça: empoderamento. Michael Wade argumentou que muitas empresas já perderam o controle, por exemplo, sobre o poder dos próprios funcionários para experimentarem as ferramentas de IA em ascensão. Para o professor, essa “bagunça” precisa ser organizada pelos CIOs, mas sem deixar de permitir que “a informação esteja correndo na organização para que todos saibam o que está acontecendo”.

Michael Wade
O professor Michael Wade durante keynote do Eatech Conference 2026. Foto: Flashbang

O último par de cabeças da hidra, o Accelerate, diz respeito às capacidades que as pessoas têm para permitem às empresas acelerarem suas capacidades. Portanto, toda empresa precisa ser uma “organização aprendiz”, em que o fluxo de aprendizado é livre e constante. Isso também é mais fácil falar do que fazer, disse Michael Wade, e cabe aos CIOs boa parte da responsabilidade.

“Porque ele garante que os sistemas e ferramentas que coletam a informação e geram aprendizado, e que compartilham esse aprendizado. Se não é compartilhado e as pessoas não estão ouvindo, é difícil aprender”, ressalta. “E eu acredito que a IA pode ser uma aliada.”

A última cabeça é justamente a do generalismo. O professor não acredita que recrutar pessoas muito especialista seja a melhor política de talentos em um mundo de “modularidade e mobilidade”. Isso porque a inteligência artificial deve preencher as lacunas de conhecimento específico, e pessoas com “carreira em Y, não em T”, mais generalistas, são mais fáceis de “mudar e reconfigurar”.

O professor admite que transformar uma organização nesse monstro mitológico super-resistente “não vai ser fácil”, e que os CIOs tem “muito a fazer”, mas ele se declara um otimista sobre o papel dos líderes de tecnologia nesse novo mundo, porque a tecnologia ajuda a alcançar todos esses objetivos. “A hidra vai ser a inspiração de vocês”, defendeu.

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