Imagem: StockCake

Toda vez que surgem dados mostrando ganhos de produtividade com IA na geração de código, a reação é quase automática: “agora os times vão produzir muito mais”.

Mas essa conclusão merece um pouco mais de ceticismo. Ferramentas de geração de código são, sem dúvida, amplificadores poderosos de produtividade individual. Reduzem fricção, aceleram debugging, eliminam tarefas repetitivas e permitem que um desenvolvedor avance muito mais rápido do que antes. Até aqui, nada controverso.

O problema começa quando se assume que esse ganho escala diretamente para o time. Não escala.

Porque engenharia de software nunca foi apenas escrever código. Uma parte significativa do trabalho está na coordenação: integrar, revisar, alinhar arquitetura, garantir consistência. E isso não desaparece com IA. Em muitos casos, fica mais complexo. Quanto mais código é gerado, maior a necessidade de integração. Quanto maior a velocidade individual, maior o risco de divergência. Mais autonomia também aumenta a chance de decisões locais desalinhadas.

Na prática, parte do ganho individual volta como custo coletivo. Mais código não significa necessariamente mais progresso. Pode significar mais inconsistência, mais duplicação, mais dívida técnica e mais esforço de revisão.

Mas a discussão precisa ir além. O ganho real com IA só começa a aparecer de forma relevante quando ele deixa de ser uma vantagem isolada de indivíduos e passa a ser absorvido pelo time como sistema de trabalho. E isso exige rever processos, papéis, skills e até a forma como a responsabilidade é distribuída.

Se cada desenvolvedor usa IA de maneira diferente, com critérios próprios, estilos próprios e níveis distintos de rigor, o resultado tende a ser uma produção mais rápida, mas também mais heterogênea. Isso obriga o time a fortalecer padrões de arquitetura, práticas de revisão, critérios de teste, documentação e governança técnica. Sem isso, a IA acelera a produção local e desorganiza o conjunto.

Existe ainda um efeito mais sutil.

Antes, boa parte do aprendizado e da coordenação acontecia de forma informal: uma dúvida rápida, uma revisão comentada, uma conversa de alinhamento. Quando a IA passa a responder tudo instantaneamente, essas interações diminuem. O indivíduo ganha autonomia, mas o time pode perder sincronização, repertório compartilhado e aprendizado coletivo. E isso não é trivial. Em muitos contextos, o conhecimento tácito do time vale tanto quanto a velocidade de execução.

Além disso, quando codar deixa de ser o principal gargalo, outras etapas passam a concentrar o esforço: definição de contexto, validação de requisitos, testes, integração, observabilidade, segurança, operação e manutenção. Ou seja, a IA não elimina a complexidade. Ela desloca a complexidade. E times que não redesenharem seus processos para esse novo ponto de estrangulamento apenas trocarão um gargalo por outro.

Isso também muda o perfil de skills necessário. Saber programar continua importante, mas não basta. Ganha peso a capacidade de formular melhor problemas, validar saídas, fazer curadoria técnica, integrar componentes, interpretar impacto sistêmico e decidir quando confiar e quando desconfiar da sugestão gerada. Menos foco apenas em produção de código bruto, mais foco em julgamento, coordenação e engenharia de sistema.

Até as funções tendem a se mover.

Tech leads, arquitetos, QA, SRE e product managers passam a ter um papel ainda mais crítico, porque são eles que ajudam a transformar velocidade individual em fluxo coletivo sustentável. Sem essa camada de orquestração, a IA pode até elevar a produtividade aparente, mas fragilizar a qualidade do sistema no médio prazo.

No fim, a pergunta relevante não é “quanto mais rápido conseguimos codar”. É se o time, seus processos e sua estrutura de competências conseguem transformar essa aceleração individual em capacidade coletiva real.

Porque, se não conseguirem, não estaremos desenvolvendo melhor. Estaremos apenas produzindo código mais rápido do que a organização consegue entender, integrar e sustentar.

Cezar Taurion é advisor de IA com mais de 4 décadas de experiência no mercado de TI. Investidor e mentor de startups de IA e membro do conselho de inovação de diversas empresas e associações. Foi Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Chief Evangelist da IBM Brasil, sócio-diretor e líder da prática de IT Strategy da PwC, além de passar por Shell e Chase Manhattan Bank. Escreve sobre TI em publicações especializadas e apresenta palestras em eventos e conferências. É autor de 14 livros e e-books. Membro notável do I2AI. Professor convidado da FDC, da PUC-RJ e PUC-RS, nas cadeiras de MBA “IA aplicada aos negócios” e “Transformação Digital”. Publisher da Intelligent Automation Magazine. Top Voice Linkedin.

Sem comentários registrados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *