
O avanço da inteligência artificial e a expansão do setor de tecnologia no Brasil ampliaram o interesse de jovens por carreiras digitais. Ainda assim, dificuldades de acesso ao primeiro emprego, exigência de experiência prévia e problemas ligados à saúde mental seguem limitando a entrada e permanência dessa população no mercado de TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação). Os dados fazem parte do estudo “Escuta Jovem: Juventudes, Trabalho e Tecnologia“, desenvolvido pela Brasscom em parceria com o Instituto PROA.
A pesquisa mostra que 58% dos jovens entrevistados consideram a IA uma ferramenta estratégica para crescimento profissional. O levantamento aponta percepção positiva sobre aumento de produtividade, ganho de eficiência e necessidade de qualificação técnica mais avançada. Ao mesmo tempo, 30% demonstram receio de substituição por sistemas automatizados, cenário que reforça debates sobre alfabetização digital, capacitação contínua e adaptação dos processos seletivos.
O estudo foi divulgado em um momento de crescimento acelerado do mercado brasileiro de TIC. Em 2024, o setor movimentou R$ 393,3 bilhões e representou 3,3% do PIB nacional, com expansão de 12,5% no período. Além do peso econômico, a área se destaca pela oferta de empregos qualificados e salários superiores à média brasileira, aumentando a pressão por estratégias que ampliem o acesso de novos profissionais ao segmento.
Experiência prévia e recrutamento tradicional são desafios
Os dados também revelam uma distância entre interesse e contratação. Segundo a pesquisa, 59% dos jovens desejam atuar em tecnologia e 89% já buscaram algum tipo de curso preparatório para o mercado de trabalho. Apesar disso, 54% afirmam que a principal dificuldade é conseguir uma entrevista de emprego. Entre os entrevistados, 45% nunca tiveram carteira assinada e 30% não possuem experiência profissional anterior.
A análise indica que os critérios tradicionais de recrutamento continuam restringindo o acesso de jovens em início de carreira. O mercado ainda prioriza históricos formais e experiências prévias, mesmo em um contexto em que parte significativa da juventude enfrenta trajetórias educacionais e profissionais mais instáveis. O estudo também aponta que aprendizados informais e potencial de desenvolvimento ainda recebem pouca valorização nos processos seletivos.
Para Alini Dal’Magro, CEO e presidente do Instituto PROA, esse debate precisa avançar para mudanças concretas na forma como os jovens são avaliados e acompanhados ao longo da jornada profissional. Esta afirmou em nota que “mais do que reconhecer sua importância, é necessário rever práticas, desde os processos seletivos até a gestão no dia a dia, para que não se tornem fontes adicionais de ansiedade e exclusão. Criar caminhos de entrada mais transparentes e relações mais consistentes desde o início é essencial para que esses jovens consigam se desenvolver e permanecer no trabalho”.
Desigualdade digital
As limitações financeiras aparecem como outro fator relevante. Cerca de 69% dos participantes vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos. Em muitos casos, o celular é o único dispositivo disponível para acesso à internet, o que dificulta participação em entrevistas online, cursos de capacitação e plataformas de recrutamento. O cenário evidencia desigualdades estruturais que impactam diretamente a empregabilidade de jovens de baixa renda.
A saúde mental também surge na relação dos jovens com o trabalho. Para 71% dos entrevistados, respeito, acolhimento e cuidado emocional são fatores fundamentais para permanência nas empresas. O levantamento mostra que ansiedade, pressão constante e sensação de avaliação contínua fazem parte da experiência de entrada no mercado, especialmente entre jovens periféricos e em situação de maior vulnerabilidade social.
“Na Brasscom, compreendemos que para além de ouvir as empresas, temos que abrir para os talentos, ouvir quem tem interesse em ingressar no setor e nos provocar. É fundamental que o mercado de TI acolha e retenha esses novos talentos, superando barreiras como as dificuldades nas entrevistas e a falta de experiência formal, e garantindo um futuro mais inclusivo para esses jovens”, destacou também em nota Roberta Piozzi, diretora de Parcerias e Projetos em Educação da Brasscom.
O estudo combinou duas abordagens complementares: a “Escuta Jovem Brasscom” e o “Horizontes Comuns PROA”.






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