Ivair Gontijo, da NASA, durante o São Paulo Innovation Week 2026.

A exploração espacial voltou a ter atenção global com o lançamento da missão Artemis II. Em meio à corrida por inteligência artificial, soberania industrial e inovação de alto impacto, programas ligados à Lua e a Marte passaram a concentrar investimentos bilionários e disputas geopolíticas. Esse cenário foi apresentado pelo cientista brasileiro Ivair Gontijo, líder na área da exploração espacial e cientista da NASA, durante o São Paulo Innovation Week 2026.

Com trajetória construída no NASA Jet Propulsion Laboratory (JPL), Gontijo apresentou os bastidores tecnológicos das missões robóticas em Marte e detalhou os obstáculos científicos ainda sem solução para uma futura presença humana no planeta vermelho. Segundo ele, a ida a Marte depende menos de promessas comerciais e mais de décadas de desenvolvimento em engenharia, automação, sistemas autônomos e produção de recursos em ambientes extremos.

Apesar dos avanços, ele afirmou que os principais desafios de uma viagem humana a Marte seguem sem solução definitiva. Entre eles estão proteção contra radiação cósmica, saúde física e mental da tripulação, produção de alimentos, suporte médico remoto e transporte de combustível para retorno à Terra. Uma missão tripulada poderia durar entre seis e oito meses apenas no trajeto de ida.

“A estratégia de fazer uma missão tripulada para Marte é primeiro desenvolver toda essa tecnologia e demonstrar essa tecnologia, mostrar que ela funciona na Lua, porque é tudo mais fácil, é mais perto. Aprender com a Lua para depois fazer uma missão para Marte”, contou o cientista. Para ele, a exploração espacial funciona como um super laboratório de inovação, capaz de acelerar pesquisas em robótica, telecomunicações, materiais avançados, computação e inteligência artificial.

Pouso autônomo e análise química em Marte

Ivair Gontijo, da NASA, durante o São Paulo Innovation Week 2026.

Gontijo participou diretamente do desenvolvimento do radar responsável pela etapa final de pouso do rover da missão Perseverance, lançado pela NASA em 2020 para investigar sinais de vida microbiana antiga e coletar amostras do solo marciano. O sistema liderado pelo brasileiro controlou os últimos quilômetros da descida automática em Marte, operação executada sem intervenção humana devido ao atraso de comunicação entre os planetas.

Entre os destaques do equipamento que está em solo marciano, o cientista detalhou o funcionamento do SuperCam, um dos instrumentos centrais da missão. O equipamento utiliza laser de alta potência para vaporizar fragmentos microscópicos de rochas marcianas e gerar plasma. “O laser bate, a rocha explode e cria um plasma, uma luz é produzida. A gente capta essa luz de volta, analisa essa luz e com isso a gente sabe quais são os elementos químicos que formam a rocha da Marte”, explicou Gontijo. O sistema é capaz de atingir alvos de apenas milímetros a cerca de sete metros do rover, mesmo sob grandes variações térmicas.

A arquitetura tecnológica da missão também evidenciou o caráter internacional da exploração espacial moderna. Componentes do Perseverance foram desenvolvidos por equipes dos Estados Unidos, França, Espanha e Noruega. Além da instrumentação científica, o rover incorporou sensores ambientais, radares subterrâneos, microfones e sistemas autônomos de navegação. Parte dessas tecnologias servirá de base para futuras operações tripuladas.

Planos para missões humanas a Marte

Entre os experimentos mais relevantes apresentados por Gontijo está o MOXIE, instrumento que conseguiu produzir oxigênio em Marte a partir do dióxido de carbono presente na atmosfera do planeta. “Foi a primeira vez que nós produzimos oxigênio em Marte usando recursos marcianos”, contou. A tecnologia é considerada estratégica para missões humanas, já que futuras bases precisarão fabricar localmente oxigênio, combustível e outros recursos essenciais.

O pesquisador enfatizou o avanço da autonomia embarcada nas missões espaciais. Durante o pouso do Perseverance, algoritmos analisaram imagens em tempo real para identificar áreas seguras e corrigir a trajetória automaticamente. O sistema decidiu sozinho onde pousar, evitando regiões com rochas e inclinações perigosas.

Gontijo comentou também sobre o programa de retorno das amostras coletadas, considerado um dos projetos científicos mais complexos já planejados. A proposta prevê múltiplas missões coordenadas para recolher tubos com material coletado pelo Perseverance, lançá-los da superfície marciana para órbita e transportá-los até a Terra. Embora partes do projeto tenham sido canceladas ou reavaliadas pela NASA, ele acredita que as amostras ainda serão trazidas para análise em laboratórios terrestres nas próximas décadas.

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