Rafael Siqueira, sócio da McKinsey & Company, durante palestra no São Paulo Innovation Week 2026.

A inteligência artificial já faz parte da rotina corporativa global, mas a adoção em escala ainda permanece restrita a uma parcela reduzida das organizações. Durante o São Paulo Innovation Week 2026, Rafael Siqueira, sócio da McKinsey & Company, abordou o estado da IA em 2026 e trouxe diversos insights sobre o que e como as empresas estão usando a tecnologia.

Dados de uma pesquisa da McKinsey realizada entre o fim de 2025 e o início de 2026 mostram que 88% das empresas já utilizam IA em alguma medida, movimento impulsionado principalmente pela expansão da IA generativa. Apesar disso, apenas cerca de 10% afirmam operar agentes de IA em escala dentro da organização. O cenário revela uma diferença crescente entre adoção tecnológica e transformação operacional.

Muitas empresas ainda concentram investimentos na aquisição de grandes modelos de linguagem (LLMs), tratando a implementação da tecnologia como sinônimo de maturidade em IA. “Temos que repensar processos para os agentes, se colocar só a IA em cima dos processos, é cosmético“, falou Siqueira, que também apontou que a escalabilidade depende da evolução para sistemas agênticos capazes de executar tarefas, interagir com diferentes áreas e operar sob supervisão humana contínua.

A nova etapa da IA corporativa exige infraestrutura de dados, governança, mecanismos de controle e revisão dos fluxos internos de trabalho. Siqueira explicou que “para a IA funcionar tem que dados, guardrails, governança. Tem que haver uma mudança de papéis, onde vai entrar o agente e onde entra o humano”. O avanço dos agentes amplia a necessidade de redefinir funções humanas dentro das organizações. Em vez de substituir integralmente equipes, a tendência observada é de mudança de papel dos profissionais, que passam a atuar na orquestração, treinamento, supervisão e validação dos sistemas inteligentes.

Maturidade digital define ritmo da adoção de IA

A pesquisa aponta que a maior parte das empresas ainda utiliza IA de forma limitada a uma única função de negócio. Apenas 20% afirmam aplicar a tecnologia em cinco áreas ou mais. Para analistas do mercado, o maior potencial econômico da IA surge justamente quando os sistemas conseguem operar de maneira integrada entre departamentos, conectando estratégia, operações, atendimento, finanças e tecnologia.

As diferenças de maturidade entre setores também influenciam o ritmo da transformação. Indústrias com maior preparo digital, estrutura de dados consolidada e capacidade de investimento conseguem avançar mais rapidamente. Os impactos mais relevantes já aparecem em áreas ligadas à estratégia corporativa, finanças e tecnologia da informação. Em TI, a automação de tarefas repetitivas tem gerado ganhos operacionais relevantes. O movimento também aumenta a demanda por requalificação profissional e acelera o surgimento de novas funções ligadas à gestão e coordenação de agentes de IA.

Segundo o levantamento, aproximadamente 20% do orçamento digital das empresas já está sendo direcionado para iniciativas de IA, 64% das empresas enxergam a IA principalmente como oportunidade de inovação e criação de novos produtos e receitas, enquanto 49% afirmam ainda não perceber mudanças relevantes na participação dos colaboradores após a adoção da tecnologia. Ao mesmo tempo, 32% das organizações esperam reduzir o número de funcionários com o avanço da IA, enquanto 43% acreditam que não haverá impacto significativo no quadro de pessoal.

Transformação com IA exige alinhamento entre tecnologia, pessoas e estratégia

Rafael Siqueira, sócio da McKinsey & Company, durante palestra no São Paulo Innovation Week 2026.

O avanço da IA agêntica levanta preocupações ligadas à confiabilidade dos sistemas. O principal risco apontado pelas empresas é a imprecisão das respostas geradas pelos modelos, seguido por ameaças de cibersegurança. O debate regulatório ainda é visto como insuficiente para acompanhar a velocidade da transformação tecnológica.

Siqueira também explicou a importância de da implementação adequada dos agentes, que exige processos semelhantes ao onboarding de um novo profissional. “Tem que ensinar, dar os acessos necessários, treinar, inclusive o que não pode fazer. Empresas já estão preparando pessoas para entender o potencial do negócio e como transformar isso com ia, tudo conectado à liderança e ao negócio”, destacou.

Projetos de IA têm menor chance de sucesso quando permanecem restritos às áreas técnicas. A transformação vem exigindo alinhamento direto entre CEOs, lideranças de pessoas, tecnologia e estratégia corporativa. No encerramento, Siqueira reforçou que o que estamos vivendo “não é uma transformação de tecnologia, mas de modelo operacional”.

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