Robson Esteves, presidente da ABREE

Todo mundo tem um eletrônico em sua casa, mas a maioria, provavelmente, não sabe o que fazer com ele após o fim de sua vida útil. Esse pensamento abriu a conversa com Robson Esteves, presidente da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE). A fala dele reflete a falta de conscientização – e conhecimento – do consumidor sobre descarte correto desses equipamentos. Acontece também de essa mesma pessoa ter a preocupação ambiental, mas desconhecer como e onde descartar. 

Mas além do desafio de conhecimento e educação das pessoas, a associação tem ainda outra tarefa árdua: convencer mais empresas a aderirem a plataformas que suportem a logística reversa e, consequentemente, a reciclagem e reaproveitamento dos materiais contidos nesse emaranhado de dispositivos. 

Nesta seara, os números são grandes. Esteves estima que existam ao redor de 4 mil empresas que fabricam ou importam eletroeletrônicos e eletrodomésticos no Brasil. Dessas, apenas algo em torno de 5% estariam no sistema de logística reversa. Embora não seja um número exato, mostra a dimensão do desafio. 

A consciência ampla parece se mostrar ausente nas duas pontas. Do lado do consumidor, a educação precisa ser consistente e frequente, para evitar descarte irregular e mais poluição nas cidades; do lado empresarial, apelo à imagem, mas também ao cumprimento do decreto 10.240/2020, que trata justamente da logística reversa de produtos eletroeletrônicos de uso doméstico e seus componentes. 

Nesse sentido, o trabalho da ABREE, como explica Esteves é tratar o problema nas duas pontas. Ele facilita a adequação da empresa ao decreto e, por meio de campanhas educativas, inclusive em escolas, trabalha para que o conhecimento seja disseminado com mais agilidade e em todas as faixas etárias. E aqui vale ressaltar que o trabalho da associação é focado em produtos de usuários domésticos e não aqueles que as empresas descartam, que, igualmente, pedem descarte correto.

Riqueza perdida

“Nosso desafio constante é mostrar para o consumidor o que fazer”, pontua Esteves, ao lembrar que o descarte correto é uma corresponsabilidade das empresas fabricantes e importadores e dos consumidores. Por meio de parceiros, a ABREE conta com 7 mil pontos de coleta que podem ser consultados no site da organização a partir do CEP de sua residência.

A importância do descarte adequado, como explicou o presidente da ABREE, vale tanto pelo reaproveitamento de materiais, mas também para evitar que alguns compostos contaminem o solo. Do lado do reaproveitamento, existe até um termo que é mineração urbana. Muitos dos eletroeletrônicos, em especial computadores e celulares, contém metais importantes que podem ser reaproveitados, inclusive ouro.

Mas antes que exista uma corrida por isso, Esteves frisa que nem gosta muito de falar sobre a presença do outro que é mínima e de difícil extração. Estima-se 1 tonelada de placas para coletar 300 gramas de ouro. Mas existem outros componentes que podem contribuir com redução de uso de materiais puros. O próprio plástico presente nesses equipamentos pode ser reaproveitado em diversas frentes. Empresas como Dell e Lenovo, por exemplo, já utilizam em algumas linhas de laptops um porcentual importante de plástico reciclado.

Outro exemplo dado por Esteves é do aço extraído de geladeiras, que podem virar vigas para a construção civil. O fato é que produzimos muito lixo eletrônico e reciclamos pouco. São pelo menos 2,4 milhões de toneladas por ano, o que faz com que o Brasil seja o 5º maior produtor de lixo eletrônico do mundo. “O decreto determina uma meta que fabricantes e importadores coletem pelo menos 17% desse material para processos de logística reversa”, lembra Esteves.Há ações no governo como o decreto acima citado e a Política Nacional de Economia Circular, além de trabalhos como do Laboratório de Sustentabilidade da Universidade de São Paulo (LASSU-USP), comandado pela professora Tereza Cristina Carvalho, e de empresas que se conscientizaram. Mas o Brasil pede mais, seja por questões econômicas, seja por questões climáticas. E. como ressaltou Robson Esteves, a adesão do setor produtivo é fundamental para melhorarmos essas estatísticas e assumirmos um papel mais relevante na chamada economia verde.

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