Foto: Towfiqu Barbhuiya/Pexels

Apesar da forte digitalização e do alto volume de informações processadas diariamente, o setor financeiro brasileiro ainda apresenta baixa maturidade em gestão de dados. A conclusão é de um levantamento da BLR DATA, consultoria especializada em Governança de Dados, que analisou 30 avaliações realizadas desde 2020 em diferentes segmentos da economia. O estudo mostra que bancos e fintechs operam, em média, em estágio considerado reativo, contrariando a percepção de que o mercado financeiro lidera de forma consolidada a estruturação de dados no país.

“Existe uma percepção de que setores como o financeiro já atingiram alta maturidade, mas isso não se confirma na prática. O que diferencia as organizações não é apenas tecnologia, mas a capacidade de estruturar governança, definir estratégia e executar com consistência. Sem isso, a IA não escala e os investimentos em dados não se traduzem em resultado real”, destacou em nota Bergson Lopes, fundador e sócio-diretor da BLR DATA.

Maturidade em dados ainda avança lentamente

A pesquisa utilizou o Índice de Maturidade em Gestão de Dados (IMGD), métrica desenvolvida pela própria consultoria para avaliar o grau de organização das empresas em uma escala de 1 a 4. Os níveis são divididos entre Reativo, Inicial, Definido e Coordenado. Segundo o levantamento, instituições financeiras registraram média de 1,51, abaixo da média geral dos demais setores avaliados, que alcançou 1,65.

O resultado reforça uma discussão crescente no ambiente corporativo sobre os limites da transformação digital sem uma estrutura sólida de governança. Mesmo em setores altamente regulados, como o financeiro, empresas ainda enfrentam dificuldades para integrar processos, padronizar informações e criar políticas consistentes de gestão de dados.

IA avança mais rápido que a estrutura de governança

O estudo também identificou diferenças relevantes entre os segmentos analisados. Empresas voltadas à oferta de produtos de dados analíticos apresentaram o maior nível de maturidade, com média de 2,05. Já o setor de Educação registrou o pior desempenho da amostra, com índice médio de 1,42, refletindo desafios mais profundos na organização e uso estratégico das informações.

Apesar do cenário ainda distante dos níveis mais avançados, a análise aponta evolução gradual das companhias que passaram por reavaliações ao longo dos últimos anos. Segundo a BLR DATA, organizações que implementaram planos estruturados de melhoria conseguiram elevar seus índices para patamares próximos de 2,5 após o primeiro ano. Em ciclos posteriores, algumas empresas alcançaram níveis próximos de 3, migrando para estágios classificados como Definido e Coordenado.

A pesquisa mostra que o avanço da inteligência artificial nas empresas não tem sido acompanhado, na mesma velocidade, pela evolução das disciplinas estruturantes da gestão de dados. As menores notas foram registradas em áreas como Gestão de Metadados (1,33), Governança de Dados (1,36) e Arquitetura (1,43), consideradas fundamentais para sustentar projetos de analytics e IA em larga escala.

Ainda falta preparo humano

Por outro lado, áreas historicamente mais consolidadas ou impulsionadas por exigências regulatórias apresentaram desempenho superior. Operações e Database lideraram o ranking interno de maturidade, com média de 2,66, seguidas por Privacidade (2,43) e Segurança (2,39). A influência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) aparece como um dos fatores que aceleraram investimentos nessas frentes.

Na análise das dimensões organizacionais, o principal gargalo identificado não está na tecnologia. A dimensão “Pessoas” registrou a menor média do levantamento, com 1,48, abaixo de Tecnologia (1,52) e Processos (1,67). O dado evidencia dificuldades relacionadas à formação de cultura orientada a dados, qualificação profissional e disseminação de conhecimento analítico dentro das empresas.

Para Bergson, a evolução da maturidade depende da combinação entre processos estruturados, infraestrutura tecnológica e capacitação humana. Segundo ele, o fator humano ainda representa o maior desafio para organizações que buscam transformar dados em ativos estratégicos de negócio.

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