
A soberania digital deixou de ser um debate restrito à tecnologia, envolvendo também desenvolvimento econômico, competitividade e segurança nacional. Em webinar da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), especialistas da academia e do setor privado defenderam que o fortalecimento da infraestrutura digital, da governança de dados e da capacidade de inovação nacional será determinante para ampliar a autonomia tecnológica do Brasil diante da crescente dependência de plataformas globais, inteligência artificial e serviços em nuvem.
O encontro foi promovido pelo Centro de Inteligência, Políticas Públicas e Inovação – Think Tank da ABES e reuniu Roseli de Deus Lopes, professora e diretora do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA/USP); Érico Aleixo, diretor de Tecnologia e Soluções da NowVertical e colíder do Comitê de Inteligência e Governança de Dados da ABES e os pesquisadores do Think Tank Darci de Borba Santos Jr., doutor em Administração e Victo José da Silva Neto, pós-doutor pela Radboud Universiteit e Harvard University.
Roseli iniciou destacando que a digitalização alcançou praticamente todos os setores da sociedade e exige uma abordagem multidisciplinar. Segundo ela, a velocidade das transformações tecnológicas impõe uma articulação permanente entre academia, Estado e mercado para que o país consiga formular respostas adequadas aos novos desafios. “Não há nenhum setor hoje de atuação humana que não faça uso de alguma forma de alguma tecnologia”, afirmou.
Base para autonomia tecnológica

Ao abordar o conceito de soberania digital, Darci argumentou que o tema vai além da infraestrutura tecnológica e disse que “a soberania digital talvez seja menos relacionada à independência absoluta e mais relacionada à autonomia estratégica”. Para o pesquisador, a discussão está diretamente relacionada à capacidade de um país de tomar decisões, regular mercados, proteger ativos estratégicos e gerar valor econômico em uma economia cada vez mais orientada por dados.
Darci também chamou atenção para a necessidade de integrar agendas que ainda avançam de forma paralela no país, como transformação digital e inteligência artificial. Na avaliação do pesquisador, ambas fazem parte de uma mesma estratégia de fortalecimento da capacidade tecnológica nacional. Ele ainda apontou a infraestrutura como um dos principais gargalos atuais e destacou iniciativas recentes voltadas à expansão da capacidade brasileira de processamento de dados e atração de investimentos em data centers.
Brasil precisa capturar mais valor na economia digital
Sob a perspectiva do desenvolvimento econômico, Victo explicou que a soberania digital deve ser analisada a partir da capacidade de o país fortalecer sua economia digital e reduzir vulnerabilidades diante de choques externos. Ele destacou que a questão zero da soberania digital é encontrar o equilíbrio entre a livre circulação e a proteção dos dados.
O pesquisador apontou dois pilares considerados prioritários. O primeiro é a resiliência da economia digital frente a interrupções de fornecimento, falhas técnicas e tensões geopolíticas. O segundo envolve a ampliação da participação das empresas nacionais na cadeia de valor digital. “A gente quer desenvolver as nossas competências, tecnologias e competitividade em várias camadas do stack digital, como um país do tamanho do Brasil pode e deve fazer”, frisou.
Victo ainda alertou para as dificuldades de mensuração da economia digital. Segundo ele, grande parte do valor gerado atualmente está associada a ativos intangíveis e fluxos de dados que não aparecem de forma adequada nas estatísticas tradicionais. Para o pesquisador, será necessário criar novas métricas para compreender o impacto econômico real dessas transformações.
Governança de dados se torna prioridade

No campo empresarial, Érico Aleixo destacou que a adoção de inteligência artificial e computação em nuvem avança rapidamente, mas ainda enfrenta barreiras relacionadas à cultura organizacional e à governança dos dados. A infraestrutura deixou de ser o principal problema para grande parte das organizações. O desafio agora está na construção de ambientes seguros e aderentes às exigências regulatórias.
“O que está segurando um pouco é o medo. E a gente não pode deixar o medo ser maior do que a necessidade e a transformação”, falou. Para o executivo, o uso não supervisionado de ferramentas de IA por colaboradores já representa um risco crescente para empresas que ainda não estabeleceram políticas claras de governança e proteção de informações sensíveis.
“A verdadeira riqueza está nos dados, dados de qualidade, onde é que estão esses dados? A gente não pode ficar refém com essa questão de onde é que estão armazenados os dados. Se a gente tiver algum ataque cibernético, a gente precisa ter garantias de segurança em relação a esses dados”, pontuou Roseli, ressaltando que o debate sobre soberania digital precisa incorporar aspectos relacionados à concorrência, transparência e ética. Para a professora, a regulação deve criar condições para que empresas de diferentes portes possam competir em igualdade de condições e para que consumidores não fiquem presos a ecossistemas tecnológicos específicos.
Coordenação entre Estado e empresas
Outro ponto da discussão foi o papel das compras públicas e das políticas industriais na construção de capacidades tecnológicas nacionais. Os especialistas citaram experiências internacionais, especialmente nos Estados Unidos e na União Europeia, onde mecanismos de contratação governamental vêm sendo utilizados para estimular ecossistemas locais de inovação, infraestrutura digital e desenvolvimento de tecnologias estratégicas.
Ao comentar exemplos brasileiros de sucesso, os participantes destacaram iniciativas como o Pix, apontado como um caso de infraestrutura pública digital construída de forma colaborativa entre governo e setor privado. Para Victo, a governança foi um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso da plataforma. Já Roseli citou experiências históricas como Embraer, Petrobras e o avanço tecnológico do sistema bancário brasileiro como demonstrações da capacidade do país de desenvolver soluções próprias quando existe coordenação entre Estado, empresas e instituições de pesquisa.
Apesar dos desafios, a avaliação entre os participantes foi de que o Brasil possui ativos relevantes para ampliar sua presença na economia digital global. O avanço dependerá de uma combinação entre investimentos em infraestrutura, fortalecimento da governança de dados, formação de competências tecnológicas e participação mais ativa na definição de normas e padrões internacionais.
“A questão central, a meu ver, é a gente entender como que um país desenvolve capacidade para decidir, regular, proteger e gerar valor econômico e social em uma economia cada vez mais baseada em dados e tecnologias digitais“, resumiu Darci.






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