
A corrida por infraestrutura digital está trazendo uma disputa por investimentos entre países. Com o avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem e da economia baseada em dados, os data centers passaram a ser objeto também nas políticas de desenvolvimento econômico. O Brasil busca ampliar sua competitividade para atrair projetos estimados em US$ 92 bilhões até 2031, mas ainda enfrenta desafios ligados à carga tributária e ao ambiente regulatório.
O tema foi debatido durante encontro promovido pela Brasscom, que reuniu representantes do setor público e privado para discutir oportunidades de investimentos, infraestrutura digital, energia renovável e o papel dos estados na atração de novos empreendimentos.
O diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Brasscom, Sérgio Sgobbi, destacou que o debate sobre data centers vai além da instalação de grandes estruturas de processamento. Segundo ele, o assunto envolve toda a base computacional necessária para sustentar a transformação digital da economia brasileira. Sgobbi apresentou diferentes modalidades de operação, como data centers corporativos, colocation, nuvem, hyperscale e edge computing, ressaltando que todas fazem parte da estratégia nacional de expansão da infraestrutura digital.
Ao abordar o potencial do país, o executivo chamou atenção para a combinação de fatores que favorecem a atração de investimentos, como a disponibilidade de energia renovável e o tamanho do mercado interno. Ele defendeu maior alinhamento entre estados e governo federal e reforçou a necessidade de avanços tributários para ampliar a competitividade.
Segundo dados apresentados pela Brasscom, a capacidade instalada de data centers no Brasil era de 843 megawatts em 2024 e pode alcançar 3,1 gigawatts até 2031. A projeção está associada a investimentos em infraestrutura física e equipamentos, além da crescente demanda por aplicações de inteligência artificial. A entidade também alertou para o déficit de US$ 7,9 bilhões registrado em 2025 na balança comercial de serviços de computação, reflexo da dependência de processamento realizado fora do país.
Rio Grande do Norte aposta em energia renovável e cabos submarinos
Representando o governo do Rio Grande do Norte, o secretário da Fazenda, Álvaro Bezerra, afirmou que o estado pretende se posicionar como um dos destinos para novos investimentos em infraestrutura digital. Entre os diferenciais apontados estão a liderança nacional na geração de energia eólica, a disponibilidade territorial para grandes projetos e a localização estratégica para a instalação de cabos submarinos de comunicação.
O secretário também defendeu medidas para ampliar a competitividade brasileira na disputa global por investimentos. Segundo ele, estados e União precisam atuar de forma coordenada para criar condições favoráveis ao setor. “A gente não está falando de uma competitividade local, a gente está falando de uma competitividade mundial. E precisamos entender o peso dos tributos nesse grande arcabouço e se o Brasil realmente quer ser essa potência quee tem tudo para ser”, frisou Bezerra, destacando que o Rio Grande do Norte apoia iniciativas de incentivos fiscais em discussão no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e avalia modelos de parceria público-privada para atrair grandes operações de data centers.
Infraestrutura digital vive ciclo histórico de investimentos
Já na iniciativa privada, Cibele Perillo, diretora de Relações Institucionais da Scala Data Centers, reforçou que o setor atravessa um dos maiores ciclos de investimentos já registrados na economia global. Segundo ela, a expansão da IA tem elevado a demanda por capacidade computacional em ritmo sem precedentes, impulsionando projetos em diversas regiões do mundo.
Ao analisar o cenário internacional, a executiva destacou que os principais mercados já operam próximos da saturação, especialmente nos Estados Unidos. Para ilustrar a magnitude desse movimento, citou que os investimentos previstos pelas grandes empresas de tecnologia em infraestrutura digital neste ano ultrapassam os recursos mobilizados historicamente pelo projeto que levou o homem à Lua. “Tem alguns fatos que já não se discutem hoje mais no mundo. O primeiro deles é a existência de um super ciclo de investimento global. Existe hoje essa demanda exponencial crescente“, apontou. Para ela, a principal questão agora é definir quais países conseguirão capturar esse fluxo de capital.
Cibele também ressaltou que o Brasil possui vantagens competitivas relevantes, como matriz energética renovável, conectividade internacional, disponibilidade de terrenos e formação de talentos. Apesar disso, argumentou que o país ainda precisa avançar na previsibilidade regulatória e na redução dos custos tributários para competir em igualdade com mercados emergentes como Índia, Chile, Austrália e países do Sudeste Asiático.
“É urgente que o setor tenha algum tipo de impulso político para que o Brasil possa sentar na mesa em pé de igualdade com os outros países. Que a gente possa ver os próximos anos uma coordenação de políticas públicas e de regulações voltadas à atratividade da infraestrutura digital”, frisou Cibele. Em sua avaliação, os data centers não representam apenas infraestrutura tecnológica, mas plataformas capazes de estimular inovação, geração de empregos qualificados e desenvolvimento econômico.






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