
Embora seja um desejo antigo, a interoperabilidade ainda não avançou como deveria no Brasil. Hoje, no entanto, com avanço de tecnologias como inteligência artificial e um benefício claro e visível na tomada de decisão por dados, é possível que os diferentes atores do setor entendam que seja o momento, afinal, de destravar esse processo. Parte desse pensamento integrou a fala de Marco Bego, diretor-executivo do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas de São Paulo e Chief Innovation Officer do InovaHC, durante o Congresso Brasileiro de Medicina Geral, organizado pela Associação Médica Brasileira (AMB).
Durante a apresentação, o executivo detalhou as diretrizes do Projeto OpenCare, que é focado em conectar as pontas de um ecossistema historicamente fragmentado. Mas mais do que uma simples modernização de sistemas, a iniciativa busca redesenhar a circulação de informações médicas no Brasil, integrando hospitais públicos e privados, indústrias, clínicas de diagnóstico, operadoras de saúde e redes de farmácias em uma mesma camada de troca de dados.
Apenas para se ter uma ideia, nesse piloto, integram instituições como Fleury, Dasa, AC Camargo, Hospital Sírio-Libanês, além do próprio Hospital das Clínicas de São Paulo.
Integração vs. Interoperabilidade
Para Bego, o primeiro passo para avançar no debate de forma madura é diferenciar dois conceitos frequentemente confundidos no mercado: integração e interoperabilidade.
“Integração é quando eu pego um software e o coloco para falar diretamente com outro”, explicou o executivo. “Em interoperabilidade, nós estamos dizendo: não importa o que eu estou fazendo ali, eu vou conseguir ver esse dado em qualquer outro lugar que seja necessário.” Tecnicamente falando, em vez de colocar todos os sistemas de todas as instituições para falar entre si, é criado uma instância que conversa com os demais sistemas para acessar a informação necessária.
Nesse modelo descentralizado, o próprio sistema encarrega-se da transcrição ou utiliza padrões pré-adequados para viabilizar a troca universal, independentemente de o paciente pertencer ao SUS ou à saúde suplementar.
Benefícios práticos na ponta do ecossistema
Um dos grandes desafios desse tipo de projeto é convencer hospitais de que o trabalho valerá a pena, ou seja, haverá algum tipo de ganho mensurável. Como apresentou Bego, a consolidação dessa rede traz impactos diretos e mensuráveis para todos os elos que compõem a cadeia da saúde:
- Para o paciente: Deixa de carregar o peso de ser o único integrador de seu histórico por meio de pastas físicas e relatos orais. “No momento, ele vai ser integrador realmente com dados verdadeiros.” Isso se traduz em redução de exames desnecessários, transições de cuidado facilitadas e acesso rápido a diagnósticos em casos de urgência.
- Para o médico: Oferece tomada de decisões mais ágil e assertiva baseada em dados reais, permitindo que o atendimento seja cada vez mais personalizado, sem o alto custo tradicional da personalização.
- Para o sistema e gestão pública: Permite um controle epidemiológico preciso. Bego citou o exemplo das campanhas de vacinação: hoje, o sistema conhece o percentual de cobertura vacinal, mas não quem individualmente foi imunizado. A interoperabilidade resolve esse apagão de dados.
- Para hospitais e clínicas: Promove a redução drástica de desperdícios e custos operacionais de TI voltados a criar pontes individuais de publicação.
- Para a pesquisa científica: Simplifica a busca por dados de coortes de pacientes e viabiliza validações em mundo real de forma muito mais rápida e regulatoriamente segura.
Dados na origem e segurança inspirada no setor financeiro
Um dos diferenciais do projeto OpenCare é a quebra de paradigmas tecnológicos antigos, como a busca utópica por um “prontuário único” ou a criação de repositórios gigantescos. “Criar um grande data lake na nuvem onde eu jogo os dados de toda a população lá e depois vou fazendo a troca de dados à medida que eles acontecem… Isso é praticamente inviável pelo valor do custo e pelo risco desse dado vazar”, alertou.
A solução desenhada funciona com dados armazenados estritamente na origem. O sistema atua registrando apenas os metadados dos eventos (sabendo, por exemplo, que determinado paciente realizou uma tomografia em tal clínica). Quando o dado é necessário no atendimento, a plataforma busca a informação, apresenta-a ao médico autorizado sob o modelo de consentimento do paciente (opt-in) e, encerrado o atendimento, o dado é apagado da tela de visualização, permanecendo seguro na sua origem.
Para viabilizar uma estrutura transacional dessa magnitude e com cibersegurança de ponta, o projeto-piloto buscou um parceiro estratégico incomum para a saúde: o mercado financeiro, rodando sua infraestrutura tecnológica de testes dentro da bolsa de valores (B3). A escolha permitiu aproveitar a maturidade transacional, a velocidade e a arquitetura de segurança que o setor financeiro já consolidou há anos. Afinal, a B3 já opera em lógica semelhante à buscada pelo projeto: acessar dados de diferentes fontes, de maneira segura e com o dado armazenado na origem.
Próximos passos e validação real
O projeto-piloto, que conta com a colaboração ativa de cinco hospitais (um público e quatro privados), grandes empresas de medicina diagnóstica nacional e testes futuros com redes de farmácia, iniciou suas operações no início do ano e tem encerramento desta fase previsto para agosto.
A partir disso, o comitê gestor pretende rodar o modelo por mais alguns meses para coletar métricas consistentes. O objetivo final é claro: apresentar os resultados de forma transparente para abrir o debate prático no setor.“A nossa ideia é apresentar para a sociedade em linhas gerais o que a gente validou nesse projeto, os problemas que tivemos, as soluções que não tivemos, as teses que foram certas, as que não foram, para, a partir daí, começar uma discussão não em cima mais de proposições, mas em cima de casos mais reais”, concluiu Bego.






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