Devanil Rueda, Leandro Ângelo, Juliano Kimura e Fernanda Santos em encontro no inovabra. Foto: Reprodução

A inteligência artificial e os novos modelos de inovação corporativa avançam para uma fase mais pragmática. Durante o “Download Web Summit Rio 2026”, promovido pelo inovabra, executivos e especialistas discutiram temas que foram falados no evento, como empresas estão deixando para trás a etapa inicial de experimentação para buscar escala, governança, retorno financeiro e novos modelos de negócio. As discussões mostraram que a maturidade tecnológica passa cada vez mais pela capacidade de transformar inovação em resultados mensuráveis.

A evolução do debate sobre inteligência artificial foi um dos principais pontos destacados pelos participantes. Para Devanil Rueda, gerente de tecnologia e inovação da Claro, o mercado já começa a migrar das discussões conceituais para aplicações concretas. Segundo ele, “o discurso está mudando, está saindo um pouco do hype” e as organizações passaram a discutir menos o potencial da tecnologia e mais os resultados efetivamente entregues.

Na mesma linha, o executivo afirmou que a fase “da descoberta tem que existir, ela precisa continuar, mas a gente tem que começar a escalar”, destacando a necessidade de transformar testes em iniciativas de maior alcance. Para gerar valor real, a sugestão de Rueda é começar pequeno, testar pequeno mas pensar grande com as aplicações de IA.

Leandro Ângelo, sócio da CI&T, avaliou que o principal desafio agora está na transformação organizacional. “A disrupção é digital, mas a transformação é humana. É a gente que vai definir como usar a tecnologia, como ela deve ser aplicada”, explicou, pois trata-se de uma mudança que exige novas competências, revisão de processos e adaptação cultural. Leandro também chamou atenção para a velocidade da mudança, onde “ou você se torna um agente da mudança, da transformação, ou você vive tempo suficiente para se ver refém dela”, reforçando a urgência de adaptação por parte das lideranças e equipes.

Fundações sólidas para o avanço dos agentes

O debate também destacou que a construção de bases tecnológicas robustas será decisiva para o sucesso da IA corporativa. Juliano Kimura, head de Ecossistemas da AI Brasil, observou que muitas organizações ainda estão concentradas nas aplicações visíveis da tecnologia, enquanto negligenciam a infraestrutura necessária para sustentá-las. Em sua avaliação o mercado ainda está em processo de aprendizado sobre arquitetura, governança e integração dos sistemas de IA.

Kimura também ressaltou que os principais obstáculos não estão necessariamente na tecnologia. “Hoje o que a gente tem visto dentro das empresas é muito mais um problema cultural do que um problema de acesso à própria tecnologia“, destacou. Ao discutir a evolução dos copilotos para agentes autônomos, Kimura resumiu a diferença de forma direta ao afirmar que o agente age e o copiloto te acompanha e corrige, mas não age.

A próxima etapa da IA não será sobre a capacidade dos modelos, mas sobre a capacidade das empresas de estruturar processos, governança e métricas que sustentem sua adoção em larga escala.

Pressão por resultados muda a rota dos investimentos

Elder Yudi Nakashima, Leonardo Poça D`água, Bruno Rondani e Maya Pires durante encontro no inovabra. Foto: Reprodução

Já a discussão sobre inovação e capital trouxe uma visão mais cautelosa sobre o mercado. Elder Yudi Nakashima, pesquisador em inovação aberta do inovabra, disse que as empresas continuam sob forte pressão para gerar retorno financeiro ao mesmo tempo em que precisam acompanhar a aceleração tecnológica. Para ele, “as empresas continuam pressionadas para trazerem seus resultados. A tecnologia evolui em nível exponencial, enquanto as empresas evoluem nível linear”. O pesquisador também observou que as empresas estão “muito mais maduras para conseguirem trazer algo que vai tocar diretamente o cliente agora”, reflexo da maior acessibilidade das ferramentas de IA e desenvolvimento.

Na visão de Leonardo Poça D’Água, founder e chairman da Semantix, o ambiente econômico influencia diretamente a forma como as empresas avaliam inovação. O executivo afirmou que o custo de capital ainda é muito alto, fator que aumenta a cobrança por eficiência, produtividade e geração de receita. A prioridade dos investimentos está cada vez mais associada a iniciativas que entreguem retorno financeiro consistente. Leonardo comentou que os investidores observam projetos que geram “resultado na última linha”, referência direta ao impacto no desempenho do negócio.

Open startups e novas oportunidades de crescimento

Bruno Rondani, founder e CEO da 100 Open Startups, defendeu que a aproximação entre grandes empresas e startups se consolidou como um dos principais caminhos para acelerar a inovação. “Eu acredito que existe o empreendedorismo que aproveita essa oportunidade das dores do executivo, ou da corporação, que a gente batizou de open startups”. A proposta, explicou, é criar novos negócios a partir de desafios reais enfrentados pelas organizações.

O CEO também destacou que o próprio mercado de venture capital vem ajustando nas estratégias. “Hoje o Venture Capital está apostando em open startups”, movimento impulsionado pela busca por soluções mais aderentes às necessidades corporativas e com potencial de escala. A percepção compartilhada pelos participantes é que o próximo ciclo da inovação será marcado menos por crescimento acelerado a qualquer custo e mais pela combinação entre viabilidade financeira e capacidade de resolver problemas concretos do mercado.

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