
As fintechs atravessam um momento de transformação no Brasil. Depois de uma sequência de casos de fraudes, golpes e investigações envolvendo parte do setor, o Banco Central endureceu as exigências regulatórias para instituições financeiras. A partir de julho de 2026, entraram em vigor novas regras com cronograma progressivo para elevar os requisitos mínimos de capital social e patrimônio líquido, em uma tentativa de fortalecer a solidez e a confiança no segmento.
Em meio a esse cenário, um estudo desenvolvido por pesquisadoras da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) aponta que existe um conjunto de necessidades que permanece pouco atendido pelo sistema financeiro convencional. Segundo a pesquisa, fintechs com missão socioambiental surgem para preencher essas lacunas ao desenvolver soluções voltadas a comunidades historicamente excluídas do acesso a serviços financeiros.
Modelo propõe nova visão para inovação financeira
O trabalho, intitulado “Equitable sociotechnical reconfiguration: A model for analyzing the microfundations of socioenvironmental Fintechs”, apresenta o conceito de Reconfiguração Sociotécnica Equitativa (RSE). O modelo busca explicar como organizações de base socioambiental utilizam tecnologias digitais para estruturar serviços financeiros mais inclusivos e alinhados às necessidades de grupos vulneráveis.
Para validar a proposta, as pesquisadoras analisaram dez fintechs brasileiras com atuação em áreas como desenvolvimento socioeconômico, produção rural inclusiva e energia limpa. O levantamento identifica características comuns entre essas organizações, mostrando que elas combinam inovação tecnológica com forte conhecimento das realidades locais.
Entre os fatores observados está a relação direta entre a trajetória dos fundadores e os problemas que buscam solucionar. A pesquisa mostra que a proximidade com as comunidades permite compreender barreiras estruturais de acesso ao crédito e aos serviços financeiros, favorecendo o desenvolvimento de soluções mais aderentes às necessidades de cada local.
Tecnologia adaptada às necessidades das comunidades
Outro ponto destacado é que essas fintechs ampliam o conceito tradicional de inclusão financeira. Em vez de apenas oferecer novos canais de acesso ao crédito ou a meios de pagamento, elas adaptam produtos e serviços às condições econômicas, sociais e culturais das comunidades atendidas, incentivando participação ativa dos usuários e contribuindo para enfrentar desafios históricos.
O estudo também aponta que plataformas digitais e algoritmos desenvolvidos pelas próprias organizações desempenham papel estratégico nesse processo. A utilização de dados alternativos para análise de crédito, a adaptação da linguagem das plataformas e o desenvolvimento de soluções compatíveis com diferentes níveis de conectividade e letramento digital ajudam a reduzir custos, barreiras geográficas e assimetrias de informação.
Os autores observaram ainda que essas organizações tendem a operar como ecossistemas de relacionamento. Além da oferta de serviços financeiros, muitas iniciativas promovem capacitação profissional, fortalecimento de redes comunitárias e ações voltadas ao desenvolvimento de capacidades locais, ampliando o impacto social da tecnologia.
Contribuição para os ODS
De acordo com Érica Souza Siqueira, professora da FGV EAESP, pesquisadora do Centro de Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVcemif) e uma das autoras do estudo, esse modelo amplia o papel das fintechs ao combinar inovação financeira com transformação social.
Em nota, a professora destacou que “embora os desafios de captação de recursos, o de balanço entre a missão social e a sustentabilidade financeira, bem como o de governança de dados sejam complexos, a pesquisa discute, baseada nos casos de fintechs brasileiras, que a tecnologia, quando guiada por uma dinâmica social intencional, pode funcionar como um motor para acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, buscando transformar realidades de exclusão e vulnerabilidade socioambiental”.






Sem comentários registrados