Painel durante o Febraban Tech 2026

A combinação entre inteligência artificial e computação quântica pode abrir uma nova etapa para a tecnologia. Mas antes de falar em uma revolução, ainda é preciso separar o que já funciona do que continua no campo dos experimentos, conforme discussão apresentada em painel do Febraban Tech 2026.

Para o professor titular da UFSCar, Celso J. Villas Boas, um dos principais desafios atuais é entender onde termina o entusiasmo e começa uma vantagem comprovada da computação quântica. A tecnologia avançou rapidamente, mas ainda existem dúvidas sobre o ganho real de determinados algoritmos diante dos computadores clássicos.

Villas Boas destacou que há resultados que mostram possíveis vantagens quânticas e estudos de grandes empresas de tecnologia apontando avanços. Ainda assim, é necessário ampliar a transparência e a quantidade de evidências. Em alguns casos, soluções inicialmente apresentadas como problemas para a computação clássica acabaram sendo resolvidas por máquinas tradicionais com novas técnicas e mais velocidade.

As redes neurais quânticas são um exemplo. Existe a expectativa de que elas possam acelerar processos e produzir resultados mais precisos, mas as evidências ainda são limitadas. Também permanece a questão da escalabilidade: um método que funciona em um experimento pequeno precisa provar que consegue operar em sistemas muito maiores.

O movimento internacional, por outro lado, é forte. O professor apontou que a computação quântica já recebe investimentos bilionários de governos e empresas. A China ampliou seus aportes e ganhou protagonismo na área, enquanto grandes empresas de tecnologia passaram a investir de forma mais intensa na tecnologia há cerca de uma década.

No Brasil, também existem iniciativas para desenvolver o setor, como o programa de tecnologias quânticas da Fapesp e iniciativas anunciadas pelo governo federal. Villas Boas afirmou que o país tem pesquisadores e universidades capazes de formar profissionais, mas ainda precisa ampliar investimentos e aproximar a pesquisa acadêmica dos problemas reais das empresas.

Itaú busca aplicações práticas

No Itaú Unibanco, a pesquisa sobre tecnologias quânticas começou em 2019. Samuraí Brito, Head de Tecnologias Quânticas e Data Science Manager do ICTi do banco, contou que a instituição passou os primeiros anos entendendo a tecnologia, formando profissionais e criando conexões com universidades e outros integrantes do ecossistema.

A estratégia não está limitada ao hardware, pois a instituição também pesquisa algoritmos, inteligência artificial quântica, otimização e possíveis aplicações para problemas financeiros. A ideia é descobrir onde a tecnologia pode realmente gerar valor, em vez de simplesmente adotar um computador quântico porque ele está disponível.

Um dos caminhos investigados envolve problemas de otimização e investimentos, com alguns testes apontando melhorias em simulações. Para Samuraí, a aproximação com a academia tem sido importante justamente para encontrar novas formas de formular problemas e identificar aplicações que poderiam passar despercebidas dentro de uma empresa.

Ainda não há, porém, computação quântica em produção no banco. O trabalho está concentrado na identificação e avaliação de potenciais casos de uso.

IA pode ajudar a própria computação quântica

A relação entre IA e computação quântica também pode funcionar nos dois sentidos. Samuraí explicou que as redes neurais, base das atuais LLMs, apresentam características que podem ser exploradas em arquiteturas quânticas.

Uma das linhas de pesquisa é avaliar o que acontece quando uma camada quântica é incorporada a uma rede neural. O setor financeiro pode ser um campo relevante para esses testes, especialmente em aplicações como detecção de fraudes.

Testes preliminares indicam a possibilidade de reduzir o tempo necessário para treinar determinados modelos. Samuraí ressaltou, porém, que a evolução não depende apenas de máquinas mais potentes. Novos algoritmos também serão fundamentais, e a própria IA pode contribuir para encontrar esses algoritmos.

O problema não é só o Q-Day

A segurança cibernética foi outro ponto da discussão, trazido por Alexis Aguirre, Head Cyber Security for Latin America da Tata Consultancy Services. Ele apontou que a computação quântica não é uma corrida exclusiva dos Estados Unidos. China, Reino Unido, Índia, França e outros países também desenvolvem projetos, inclusive iniciativas cujos resultados ainda não são amplamente conhecidos.

No setor financeiro, a preocupação está principalmente na possibilidade de computadores quânticos suficientemente poderosos comprometerem sistemas criptográficos usados atualmente. Isso poderia afetar diferentes componentes da infraestrutura digital, incluindo serviços em nuvem, redes, contratos e sistemas bancários.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas quando chegará o chamado Q-Day, termo usado para descrever o momento em que uma máquina quântica poderá quebrar determinados mecanismos criptográficos. A questão mais importante é se a instituição estará preparada quando isso acontecer.

Aguirre defendeu que os bancos comecem pela identificação dos ativos expostos, dos algoritmos criptográficos utilizados e dos sistemas que dependem deles. Esperar uma ameaça concreta para iniciar esse trabalho pode significar começar tarde demais.

Criptoagilidade vira prioridade

Para os painelistas, a preparação não deve ser tratada simplesmente como uma migração para a criptografia pós-quântica. O conceito mais importante é o de criptoagilidade, ou seja, a capacidade de uma organização trocar rapidamente seus mecanismos criptográficos quando uma tecnologia, protocolo ou ameaça mudar.

Samuraí citou justamente esse ponto ao lembrar que novos algoritmos e novas técnicas continuam surgindo. A preparação precisa permitir mudanças sem exigir uma reconstrução completa da infraestrutura de segurança. Novas pesquisas podem alterar o entendimento sobre quais protocolos são realmente resistentes a ataques quânticos. Por isso, fazer uma migração rígida agora, sem capacidade de adaptação, pode criar outro problema no futuro.

O impacto da computação quântica para os bancos vai muito além da escolha de um computador quântico, pois envolve estratégia, segurança, pessoas, algoritmos, infraestrutura e capacidade de adaptação. Aguirre resumiu a preocupação a partir de uma pergunta prática: a instituição está preparada para o Q-Day? Para responder, é preciso saber quais ativos existem, quais estão vulneráveis, onde a criptografia é utilizada e quanto tempo seria necessário para migrar os sistemas.

Para Villas Boas e Samuraí, o Brasil não está necessariamente atrás de outros países em conhecimento acadêmico. O ponto mais frágil está na conexão entre pesquisadores e empresas. Aproximar esses dois mundos pode acelerar a transformação de pesquisas em soluções aplicáveis ao setor financeiro.

De forma geral, a visão é menos futurista do que pode parecer. A computação quântica ainda não provou, em escala comercial, todas as vantagens esperadas. Mas já existe valor em estudar a tecnologia, desenvolver profissionais, testar algoritmos e mapear riscos.

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