As transformações pelas quais as organizações passam vai muito além da decisão por investir em inteligência artificial. Trata-se de uma mudança cultural, de arquitetura e na maneira como as lideranças se organizam internamente. Parte do debate acontece, claro, pelo avanço de IA, que vem com defesa de mais liberdade de execução e uma certa descentralização sobre as decisões. O assunto integrou o painel “Quem lidera na era da IA”, durante o Febraban Tech.

Para Bernardo Ferreira Castello, diretor-presidente da Bradesco Vida e Previdência, o assunto precisa ser tratado com seriedade. Ele não se coloca contrário à descentralização e execução transversal dos projetos de IA, no entanto, avalia ser importante o respeito à governança, em especial pelo potencial de grande transformação que as empresas vivem com IA. 

“A analogia que faço é com time de futebol. No passado, goleiro defendia e atacante fazia gol. Hoje todos atacam e todos defendem. Mas a responsabilidade é do técnico. No mundo dos negócios, execução pode ser transversal, mas a responsabilidade não é, ela precisa ser bastante clara, ter o CPF. Se a responsabilidade é de mais de duas pessoas, não é de ninguém”, defendeu o executivo.

Governança tem sido tema de primeira ordem nos debates sobre inteligência artificial. Seja pela dificuldade de se pensar mecanismos que não travem a inovação, seja por falta de entendimento amplo do que poderia ser uma governança que dá liberdade, mas responsabiliza. 

Marisa Reghini, vice-presidente de negócios e tecnologia do Banco do Brasil, acompanha Castello no debate. Ela lembra que o momento atual é um paradoxo para lideranças de tecnologia, seja por todos falarem de soluções tecnológicas – algo impensável há alguns anos – seja pelo fato de a IA ser uma tecnologia que vem de fora para dentro, desafiando o papel da área, que sai de fazedora para um trabalho mais contextual e de parceria. 

“Mas precisamos orquestrar de forma transparente, por isso plataformas, padrões e governança. Se não tivermos governança, tenho receio de as coisas escaparem, não uma perda de controle; mas se cada um fizer do seu jeito, pode gerar problemas para as empresas. O papel muda e a TI precisa atuar como impulsionadora do negócio e entregando guard rails para gerar mudança”, avaliou Marisa. 

Chief Data Officer em alta

Em meio a essa mudança de contexto nas empresas, que convivem com busca por descentralização, mas necessidade de governança, o papel do Chief Data Officer (CDO) parece ganhar um novo capítulo de relevância. Parte disso se deve ao fato de muitos desses executivos acumularem a pauta de IA ou, simplesmente, por estarem à frente da estratégia do insumo essencial para bons projetos de IA, que são os dados.

Durante o painel, Telma Luchetta, sócia de tecnologia, AI e data para serviços financeiros da EY Brasil, apresentou dados da pesquisa Chief Data Officer Study. De acordo com o estudo, 61% dos CDOs respondiam sobre dados e apenas 33% sobre IA. Além disso, 85% deles identificam qualidade dos dados como tema crítico da agenda, 90% já implantaram IA com resultados positivos. Por outro lado, falta agenda integrada, já que apenas 25% conseguirem fazer esse tipo de projeto de forma integrada, o que, de acordo com Telma, pode gerar brechas. “Dados eram matéria prima, bastidor, e agora vêm para o front e participam desde o início da agenda estratégica”, comentou a executiva.

Para o CDO do Bradesco, Rafael Cavalcanti, os dados da pesquisa fazem sentido, mas ele entende haver uma evolução no papel do CDO. Se antes era uma profissão que transitava entre usar tecnologia para entregar dados e valor, agora, com IA, existe uma capacidade de gerar proposição de valor única para cliente, pensando em escala. 

“Um dado parado é custo financeiro e de frustração. Dado sem escala é oportunidade perdida. E operar em escala sem sentido para o negócio é inócuo. Agora deixa de olhar dados para personalizar a experiência e avança para proposição única de valor. As organizações que pensaram em dados para report regulatório precisam se movimentar rápido, porque report é diferente de pensar estratégia; tipo de dado é diferente daquele dado para report. Convergência vai em função disso. IA com LLM e prompt qualquer um faz, com proposição de valor é a liderança e escala não entrega sem tecnologia.”

Orquestração necessária

Se por um lado o perfil dos CDOs avança, o dos CIOs também, que são cobrados por um diálogo mais aberto com as áreas, em um papel de grande orquestrador em alguns casos. Mas quando olhamos especificamente para a transformação que as empresas enfrentam diante do uso da inteligência artificial, essa orquestração passa por um trabalho conjunto da tríade dado, tecnologia e negócio.

“Temos entendimento que pensar dados e IA para cada domínio de negócio é diferente. Temos banco de investimento, varejo, finanças, tecnologia, e pensar soluções de IA para cada domínio, tipo de skill é diferente. Essa conclusão ficou clara nas organizações.  Vamos lidar com esteiras cada vez mais difíceis de identificar quem é a pessoa de negócio analisando ou da TI entregando algo para negócio”, refletiu Cavalcanti.

Para o executivo do Bradesco, caminhamos para ter áreas de negócio que pensam mais tecnologia e possuem vocação mais análise e áreas de tecnologia e dados que pensam mais próximo do negócio. Assim, a aproximação dados, tecnologia e negócio se torna praticamente imperativo para repensar os ambientes organizacionais. 

“Dado que tecnologia vai ficar padrão, temos de olhar para novo papel do CIO. Antes era desenvolver tecnologia, agora é conectar o tripé dados, tecnologia e negócio”, concordou Marisa, do Banco do Brasil.  Para executiva, o grande desafio das empresas será no resgaste e treinamento de habilidades humanas, em especial pensamento crítico e capacidade analítica. “É focar no humano para criar competência, senão vamos usar IA para produtividade, que vai ser legal para o negócio; mas só vamos tirar real potencial com humano junto. Usamos IA para codar, mas e análise de sistemas? Só código que existe em sistemas? Não é. Começamos resgatar isso, não é código por código. Sem os devidos cuidados, nos deixamos levar pelas IAs, perguntamos e segue a vida.”

O diretor-presidente da Bradesco Vida e Previdência vai na mesma linha ao avaliar que, em breve, IA será commodity, assim como aconteceu com grandes servidores, computação em nuvem ou produtos com cheque e cartão de crédito. Assim, Castello avalia que o diferencial não estará em quem conseguir contratar ou desenvolver a melhor IA, mas quem melhor abraçar a possibilidade de transformação trazida pela tecnologia. E isso passa por repensar processo, produto e, sobretudo, nova proposta de valor para o cliente. 

“De que forma você gera valor na relação cliente empresa? Isso vale para qualquer indústria que for abraçar IA: a proposta de valor leva para cliente final. Não adianta só para eficiência interna. Como faz isso? Passa por pessoas, transformação cultural, pessoas precisam abraçar essa mudança. Temos duas alternativas: abraçar IA repensando tudo ou resistir à mudança e esperar empresa morrer. A escolha é nossa”, resumiu Castello.

Sem comentários registrados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *