
Sem controles claros de conformidade, a corrida da inteligência artificial corre o risco de terminar em frustração corporativa. Essa uma das provocações de Stefan Weitz, CEO do HumanX, durante a abertura do evento da instituição em Amsterdã. Ao sintetizar o atual estágio de adoção da tecnologia, o executivo lembrou uma premissa fundamental que muitas empresas ainda insistem em ignorar: “IA sem governança é apenas um brinquedo”.
O alerta, na verdade vale tanto para o mundo empresarial, quanto para a sociedade. Já que Weitz levantou o assunto ao falar também sobre o processo de regulação de IA que tem acontecido em diversos países
Mas se de um lado há grupos que defendem desregulamentação e passo acelerado, a falta de governança reflete a realidade do mercado global, onde cerca de 95% dos projetos piloto de IA não conseguem chegar à escala de produção. Para Weitz, parte do problema está na ausência de controle e governança.
O executivo deu como exemplo o setor da aviação civil, que lida com riscos críticos. “Cerca de 11 milhões de voos comerciais ocorrem diariamente pelo planeta e as pessoas embarcam sem a necessidade de ler manuais complexos ou termos de uso. Isso acontece porque a aviação é altamente regulada”, provocou.
Transformação de setores seculares

Essa virada de chave sobre governança atinge diretamente mercados tradicionais, como o setor jurídico, cuja estrutura centenária vem sendo reformulada pela automação. Max Junestrand, CEO da startup de IA jurídica Legora, reforça que o papel da tecnologia não é o de romper destrutivamente com a profissão, mas de transformá-la. “Não gostamos da palavra ruptura na Legora. Isso não deixa os advogados muito confortáveis. Gostamos da palavra ‘transformar’”, pontuou o executivo durante sua participação.
A urgência dessa transformação é impulsionada pela escalada de demandas automatizadas que recaem sobre escritórios e departamentos jurídicos. Com o aumento na oferta de ferramentas acessíveis, os consumidores ganharam poder para acionar empresas e órgãos com muito mais velocidade e eficiência, gerando o que analistas já definem como um verdadeiro “DDoS jurídico”. Em vez de substituir profissionais, a tecnologia está gerando uma explosão de volume de trabalho, exigindo que os advogados abandonem rotinas burocráticas para focar em tarefas estratégicas e no atendimento direto ao cliente.
A gratuidade da inteligência
Por trás desse cenário está uma mudança estrutural na economia da tecnologia. Segundo Nikesh Arora, CEO da Palo Alto Networks, os custos associados ao desenvolvimento e uso da inteligência artificial estão mudando drasticamente: embora o poder computacional continue caro, a inteligência propriamente dita caminha para a gratuidade. “Eu acredito que a inteligência é algo que não pagaremos com o tempo. O custo da inteligência continua caindo à medida que o preço dos tokens diminui”, analisou Arora.
A popularização de modelos abertos e baratos democratizou o acesso à tecnologia avançada, criando oportunidades inéditas de eficiência, mas também armando cibercriminosos com recursos de ponta.

Para fazer frente a essa nova onda de ameaças e preparar a Palo Alto Networks para o futuro, Arora assumiu pessoalmente a liderança da internalização da tecnologia na companhia, atuando como o próprio Chief AI Officer. O executivo tem promovido imersões intensivas com seus líderes técnicos para capacitar os 21 mil funcionários da empresa e adaptar as operações à velocidade dos robôs.
A resposta para proteger a infraestrutura corporativa passa pelo uso de múltiplos agentes de IA defensivos e pelo conceito de autonomia monitorada. Com atacantes usando automação para realizar varreduras e explorar vulnerabilidades em larga escala, os defensores não têm outra escolha a não ser agir na velocidade das máquinas. “Em nossa indústria, o indicador é chamado de tempo médio de detecção e tempo médio de resposta. Se você conseguir trazer isso para o tempo quase real, você evita o problema de alguém ultrapassar suas defesas”, explicou Arora, destacando que a Palo Alto trabalha com uma meta interna de reação inferior a um minuto.
À medida que o custo da inteligência despenca e as capacidades computacionais avançam, o divisor de águas entre o fracasso dos pilotos e a escalabilidade real estará na capacidade das organizações de equilibrar velocidade, segurança e responsabilidade.






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