À medida que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma promessa para se tornar infraestrutura básica nas empresas, essa tecnologia desafia a área de recursos humanos de forma dupla. De um lado, a automação de rotinas burocráticas promete libertar equipes do peso operacional; de outro, o volume massivo de candidaturas e a necessidade constante de requalificação ou treinamento em novas habilidades impõem novos desafios culturais e estratégicos.

Ao participar do HumanX Amsterdam 2026, Job van der Voort, cofundador e CEO da Remote, plataforma global de gestão de equipes, detalhou como a empresa lida com o uso interno de modelos de linguagem, os limites da IA em processos seletivos e a urgência de capacitar profissionais para o novo cenário do trabalho.

Menos burocracia, mais eficiência

Para Van der Voort, a missão primária da inteligência artificial no RH é eliminar o trabalho repetitivo que consome tempo e recursos das organizações. Funções como gestão de folha de pagamento, processamento de licenças e tiragem de dúvidas trabalhistas estão no topo da lista das atividades automatizáveis na visão do executivo.

“Quando você administra uma empresa, há tudo aquilo que você quer fazer, construir seu produto, trabalhar com clientes, e há tudo aquilo que você não quer fazer, que é a parte burocrática, como RH, folha de pagamento”, pontuou o executivo. “O que vimos nos últimos anos foi a capacidade de automatizar e tirar esse trabalho da frente. A expectativa é que todas essas funções que precisamos fazer apenas para manter a empresa funcionando serão automatizadas por IA, para que possamos focar nos problemas reais.”

Claro que a visão de Van der Voort é a mesma da maioria das empresas que ofertam algum produto de IA. Chegar nesse ponto, no entanto, é um grande desafio, seja por falta de letramento adequado, problemas de comunicação ou mesmo na estratégia de aplicação de IA no ambiente corporativo. Na Remote, comentou o executivo, agentes de IA já respondem a dúvidas operacionais de clientes e colaboradores em qualquer página da plataforma, gerando relatórios ou executando tarefas agendadas a pedido do usuário.

O dilema da impessoalidade

Se a automação resolve entraves na gestão interna, na ponta do recrutamento o cenário ganha contornos mais complexos, e Van der Voort reconhece isso. Com a alta demanda por vagas 100% remotas, a Remote chega a receber entre 10 mil e 30 mil candidaturas por mês, tornando o contato puramente humano inviável para a triagem inicial. Ao aplicar IA nesse processo e ganhar em escala, o executivo reconhece, no entanto, o risco de impessoalidade e o risco de vieses, que tem sido um grande problema quando se trata de IA em seleção de pessoas. 

“Certamente o processo se torna impessoal. A realidade é que empresas que contratam remotamente enfrentam um problema gigante. Recebemos muito mais candidatos do que podemos entrevistar ou responder pessoalmente”, pondera Van der Voort. “O risco de tomar a decisão errada usando IA continua sendo basicamente o mesmo. No fim das contas, esses programas de entrevista por IA baseiam-se em ‘quais são seus critérios e como a pessoa se encaixa neles’. Esse já era um processo muito falho. Acho que estamos apenas tornando um processo falho escalável”.

Para contornar inconsistências ou “alucinações” dos modelos, o que é crítico em áreas de conformidade legal e trabalhista, a Remote aposta na supervisão humana contínua, o agora famoso human-in-the-loop. O sistema transfere a conversa para um especialista humano sempre que atinge um ponto de ambiguidade, utilizando esse feedback para treinar o algoritmo iterativamente.

IA como o “melhor tutor”

De um lado os dilemas da automação intensa relacionados a compliance e outras preocupações, do outro, aqueles ligados diretamente aos temores sobre a substituição de empregos. E, nesse caso, o CEO da Remote adota uma postura pragmática. Com base nos dados de pagamentos de centenas de milhares de trabalhadores atendidos pela empresa, ele afirma que ainda não há sinais de uma eliminação em massa de postos de trabalho provocada pela IA. O que muda, na verdade, é o perfil das tarefas executadas.

Nesse contexto, o reskilling deixa de ser opcional e passa a ser mandatório. Na própria Remote, todos os funcionários passam por um treinamento de IA desenvolvido internamente para aprenderem a aplicar a tecnologia no dia a dia.

“A IA é a melhor ferramenta que já existiu para aprender. Você pode literalmente dizer: ‘me ensine isso’, e ela vai ensinar”, afirma o fundador. “Trabalhei muito para garantir que as pessoas do RH gastem zero tempo com folha de pagamento, porque ela simplesmente funciona. Algumas categorias de trabalho vão desaparecer, por isso, é um momento ótimo para se requalificar e fazer algo novo”.

O impacto dessa autonomia no aprendizado já se reflete na dinâmica interna de compras de tecnologia. Munidas de ferramentas de programação assistida e low-code, equipes não técnicas começaram a criar suas próprias soluções. “Nós paramos de comprar software em toda a empresa. Recentemente, um dos nossos times de RH avisou a um fornecedor que não usaria mais o serviço dele porque eles próprios construíram a ferramenta de que precisavam”, revela Van der Voort. “Se você tem uma ideia de software, você pode criá-la. Não há mais nada te impedindo”.

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