
O painel no palco do HumanX Amsterdam 2026 deixou uma mensagem clara: ter o algoritmo do momento ou rios de dinheiro para gastar com infraestrutura não garante sucesso para nenhuma empresa. O grande diferencial das corporações globais para tirar valor real da inteligência artificial está no fator humano e na capacidade de adoção das pessoas.
O debate reuniu dois grandes nomes do mercado internacional: Gonzague de Pirey, Chief OmniChannel and Data Officer do conglomerado de luxo LVMH, e Hanne Jesca Bax, Global Vice Chair da consultoria EY. Os dois mostraram caminhos bem diferentes, mas que convergem para o mesmo ponto: a tecnologia precisa servir à estratégia das pessoas, e nunca o contrário.
O segredo do luxo discreto
Para o universo das marcas de luxo, colocar tecnologia na rotina costuma ser um terreno delicado, já que a exclusividade depende do toque humano, do artesanato e das relações pessoais. Pirey explicou como a LVMH contorna esse desafio sem afastar seus times das ferramentas digitais. A ideia é trabalhar com uma integração que não roube a cena das criações.
Dentro dessa estratégia de bastidores, a automação entra para apoiar os times de criação e de design das vitrines internacionais, funcionando como um motor para testar novas rotinas de trabalho sem perder a identidade das grifes. “É por isso que introduzimos este conceito de quiet tech. A tecnologia presente em todo o lado, mas visível em lugar nenhum”, explicou Pirey.
Adoção acelerada na EY
Do lado da EY, a realidade envolve centenas de milhares de profissionais espalhados pelo mundo e um ritmo de adoção bem mais dinâmico. Hanne contou que a idade média baixa das equipes ajudou a acelerar o uso interno das ferramentas e a criação de ambientes seguros de dados para apoiar os consultores no atendimento aos clientes.
“O valor real surge quando você pega um processo transversal, pega a experiência do cliente, não importa se seu cliente é B2B ou B2C, e passa isso por toda a cadeia, onde a logística faz a diferença, onde o jurídico faz a diferença. Portanto, o valor real está entre as áreas“, destacou Hanne.
Mesmo com um modelo de negócio muito mais voltado para processos analíticos, ela ressaltou que focar apenas na automação de tarefas isoladas traz um retorno limitado. O ganho de eficiência real acontece quando a inteligência artificial atravessa diferentes áreas e conecta a jornada completa da operação.
Respeito à autonomia de cada marca

Transformar uma estrutura gigante não acontece por imposição, e a LVMH lida com essa complexidade ao gerenciar dezenas de marcas que operam de forma independente. O caminho escolhido pelo grupo foi ouvir os objetivos de negócio de cada uma antes de aplicar qualquer solução tecnológica.
A estratégia começou escutando as necessidades das marcas para só depois identificar padrões e criar plataformas compartilhadas. Depois dessa fase inicial, o grupo lançou um plano de aculturamento para engajar desde a alta liderança até as equipes de ponta em cada mercado.
A governança do uso de dados também foi um dos tópicos. A EY reforçou que o controle não significa travar a inovação, mas oferecer um ambiente estruturado onde os times tenham autonomia para testar com segurança. Dados de mercado apresentados pela consultoria mostram que grande parte dos executivos globais ainda se sente insegura ao gerenciar essas novas tecnologias. Definir diretrizes claras e limites de atuação é o primeiro passo para dar confiança aos times no dia a dia.
Atrair os melhores profissionais da área técnica continua sendo um desafio global, mas marcas consolidadas usam essa força institucional para atrair profissionais de tecnologia. Por outro lado, modernizar as ferramentas internas se tornou um requisito fundamental para reter profissionais jovens.
A palavra final continua sendo humana
Um momento marcante foi o debate sobre pensamento crítico e autonomia nas decisões cotidianas. Existe uma preocupação real no mercado de que a dependência excessiva das máquinas enfraqueça a capacidade de julgamento dos profissionais.
Pirey usou o trabalho dos artesãos de artigos de couro para ilustrar como a decisão final sempre precisa estar nas mãos do profissional experiente. “Ele está com a faca na mão e, com toda a sua experiência, ele só corta o couro uma vez. Você nunca faz isso duas vezes. Então, a decisão e a responsabilidade são dele”. A máquina pode indicar a melhor forma de otimizar o corte do material com visão computacional, mas a decisão final e a execução continuam dependendo do olhar humano.






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