Foto: Startup Stock Photos/Pixabay

A expansão da inteligência artificial nas grandes empresas começa a encontrar um problema menos visível que os próprios modelos: a infraestrutura que precisa sustentá-los. Um estudo global da GFT Technologies mostra que sistemas legados já estão interferindo diretamente nos projetos de IA, enquanto líderes de tecnologia também questionam o retorno dos investimentos e os riscos de depender de poucos fornecedores.

A pesquisa, realizada pela Wakefield Research com 945 CIOs e CTOs de 19 países, ouviu executivos de empresas com receita anual de pelo menos US$ 500 milhões. Os dados mostram uma diferença crescente entre a velocidade de adoção da IA e a capacidade das estruturas de TI de acompanhar essa evolução.

Infraestrutura virou gargalo

Para 84% dos entrevistados, limitações de sistemas legados já fizeram suas empresas interromperem ou cancelarem algum projeto ou piloto de IA. O problema não está apenas na capacidade de processamento. Entre os executivos consultados, 93% acreditam que colocar IA em ambientes antigos sem modernização prévia pode provocar uma crise de segurança em escala corporativa.

A avaliação ajuda a explicar por que a infraestrutura passou a ocupar um espaço maior nas decisões sobre IA. Em vez de tratar a tecnologia como uma camada adicional aos sistemas existentes, as empresas precisam considerar arquitetura, segurança, escalabilidade e governança como partes da própria estratégia de adoção.

Marco Santos, CEO Global da GFT Technologies, apontou em nota que “a adoção da IA está avançando rapidamente, mas nossa pesquisa mostra que as organizações estão reconhecendo cada vez mais a importância da base que sustenta essa tecnologia. Para muitas delas, o legado de infraestrutura está se tornando uma verdadeira restrição — não apenas para a inovação, mas também para a segurança e a escalabilidade. Fechar essa lacuna entre a ambição em IA e a prontidão da infraestrutura é fundamental para transformar o investimento em IA em valor de negócio sustentável”.

Investimento passa por revisão

A infraestrutura não é a única fonte de preocupação. O ritmo de gastos com inteligência artificial começa a ser questionado pelos próprios responsáveis pelas estratégias de tecnologia. Segundo o levantamento, 89% dos CIOs e CTOs temem que os investimentos globais estejam crescendo em velocidade maior do que o valor de negócio efetivamente produzido pela IA.

O resultado aponta para uma cobrança maior por retorno financeiro e operacional. A discussão deixa de ser apenas sobre quanto uma empresa consegue investir em inteligência artificial e passa a envolver quanto essa tecnologia consegue entregar depois de implantada.

Estratégia de fornecedores muda

A geopolítica também está influenciando as decisões sobre infraestrutura e modelos de IA. Para 99% dos entrevistados, possíveis restrições governamentais ao acesso a tecnologias de inteligência artificial aumentam a necessidade de evitar dependência excessiva de um único fornecedor.

Essa preocupação aparece junto a uma mudança na estratégia de infraestrutura. No levantamento, 42% dos executivos afirmam estar mais inclinados a desenvolver internamente a infraestrutura necessária para IA, em vez de depender exclusivamente de fornecedores externos.

As diferenças regionais são relevantes. América Latina e México registraram a maior preferência por construir a infraestrutura internamente, com 50% dos entrevistados. Na EMEA, o índice ficou em 48%. Estados Unidos e Canadá chegaram a 41%, enquanto a região Ásia-Pacífico registrou 38%.

Ao mesmo tempo, América Latina e México foram as regiões mais abertas à contratação de parceiros externos para obter conhecimento e competências em IA. Essa opção foi citada por 66% dos entrevistados, contra 49% na média global. Na EMEA, o percentual foi de 43%.

Desconfiança chega à força de trabalho

A pesquisa mostra que o debate sobre IA e empregos está sendo recebido com mais cautela pelos executivos de tecnologia. Para 91% dos entrevistados, algumas empresas de capital aberto estariam atribuindo à inteligência artificial mudanças na força de trabalho que, na avaliação desses líderes, teriam como objetivo principal elevar o preço das ações.

O dado revela uma preocupação adicional com a forma como as empresas comunicam demissões e outras mudanças organizacionais associadas à IA. Para os CIOs e CTOs ouvidos, nem toda transformação atribuída à tecnologia necessariamente tem origem nela.

A responsabilidade pela expansão da IA também está criando uma preocupação pessoal entre os líderes de tecnologia. O levantamento mostra que 89% temem que uma decisão errada sobre a força de trabalho durante a expansão da IA possa colocar seus próprios empregos em risco.

Há ainda uma diferença importante na percepção sobre os riscos técnicos. Apenas 20% afirmam que os demais executivos C-Level e integrantes do conselho entendem completamente os riscos de segurança associados à execução de IA sobre sistemas legados.

Para a GFT, os números apontam para um problema de execução. As empresas estão avançando com a adoção de IA, mas parte delas ainda precisa modernizar a infraestrutura, estruturar a governança e reduzir dependências tecnológicas antes de ampliar os projetos. “A pressão para mostrar resultados com a IA é real, mas avançar mais rápido do que sua própria infraestrutura apenas transfere o risco para frente. Construir a base primeiro é o que torna o valor e a velocidade sustentáveis e escaláveis depois”, complementou Santos.

O desafio da escala

O levantamento descreve um cenário em que a adoção da inteligência artificial continua acelerada, mas encontra limitações na estrutura de TI, nos modelos de contratação e na própria governança corporativa. A diferença entre o que as empresas querem colocar em produção e o que sua infraestrutura consegue suportar passa a ser um dos principais desafios da estratégia de IA.

Para fechar essa distância, a pesquisa aponta para quatro frentes: modernização dos ambientes legados, reforço da governança, redução da dependência de fornecedores e integração da estratégia de IA às decisões sobre negócios e força de trabalho.

Sem comentários registrados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *