Andrea Fodor, presidente da Hitachi Vantara no Brasil

Governança de dados é algo que está na pauta de Andrea Fodor, presidente da Hitachi Vantara para o Brasil, sim ou sim e isso vem antes de inteligência artificial. Obviamente, IA expande o assunto pelos desafios que as empresas enfrentam. O tema nem era pauta central da conversa, mas foi o primeiro assunto a surgir, antes mesmo de iniciarmos com as perguntas. 

Os dados que geramos a cada dia só aumenta e fazer uma boa gestão deles se torna fundamental para as organizações. São aplicativos de transcrições, reuniões gravadas, resumos e PDFs gerados. “É uma base de dados gigantesca de muita coisa que está acontecendo com muita gente. Você tem uma informação riquíssima, não digo para vender o seu dado, mas para vender estatísticas”, comentou Andrea. Mas ela lembra que, sem governança adequada, os desafios tendem a se agigantar. “Se realmente a gente não começar a colocar uns guard rails, o negócio fica bem exposto. É impressionante, porque cada vez mais a gente constrói dispositivos para facilitar a nossa vida. Mas, por outro lado, a gente está expondo uma quantidade de dados gigantesca no mercado.”

Ao longo da conversa falamos sobre crescimento, oportunidades no Brasil, soberania digital e outros pontos de interesse para lideranças expostas aos projetos de IA, mas também com a necessidade de entender e estruturar os melhores caminhos para tirar proveito dos dados e das tecnologias emergentes. A seguir, você confere os principais trechos da conversa.

Vitor Cavalcanti – 35% das instituições financeiras citam crescimento do dado como uma das grandes dores, mas só 10% prioriza armazenamento preparado para IA. E esse dado do armazenamento preparado para IA chama atenção. Ele parece baixo, até considerando a pesquisa da Febraban que mostra avanço do dinheiro direcionado para IA.  Por que ainda é tão baixo esse armazenamento especificamente para a IA, principalmente no setor que investe tanto em tecnologia e costuma ser pioneiro aqui no Brasil? 

Andrea Fodor – O setor financeiro realmente é pioneiro, se você for ver é dos que mais investem em tecnologia. Com certeza, eles passaram da fase de experimentação para a escala, porque a gente vê vários casos em que os bancos já estão olhando para escalar o uso, não mais só interno, mas na utilização para produtos para cliente. 

Então já estamos na fase de industrialização da IA no mercado financeiro e eu acho que agora que começa a ter essa rampa, onde o olhar para a infraestrutura vai ficar mais evidente. Toda experimentação começa muito em cloud, em tudo que está disponível, que é mais rápido, que o time to market é mais veloz. Eu tenho visto, principalmente o mercado financeiro, conversas sobre a questão do custo, o medo da escala versus custo e também as questões de governança e soberania, inclusive soberania de tecnologia. 

Eu acho que vai começar agora essa onda de olhar para a infraestrutura como algo mais estratégico. Até então todo mundo olhava e pensava: eu preciso de espaço; hoje a infraestrutura pode ser a pauta estratégica de uma diferenciação dentro do mundo de inteligência artificial. 

A Hitachi soltou produto no mercado voltado para armazenamento em objeto. Qual que foi a visão? Dentro desse mundo de, onde você vai ter que ter integração de dados estruturados, não estruturados, nós não estamos mais falando só de banco de dados. Estamos falando de dados que vem de diversas áreas, a superfície do dado possa ser muito maior. E eu vejo que o mercado ainda não está preparado para esse discurso. Quando vamos falar de infraestrutura de armazenamento para IA, ele (o cliente) ainda olha o objeto como armazenamento de longo prazo e a gente não olha mais o objeto como armazenamento de longo prazo, a gente olha como uma simplificação de plataforma de dados, olhando esse desafio que você vai ter dentro da integração de várias fontes de dados. 

Como equilibro o meu custo, o ROI? A infraestrutura vai ter peso em cima disso, e como é que eu levo uma diferenciação, porque no final a infraestrutura pode ser diferencial dentro dessa questão de soberania, porque o pessoal associa muito soberania com onde o dado está, em que tecnologia ele está. Eu tenho controle sobre a tecnologia onde estou rodando talvez algo que é crítico para o meu negócio? E eu tenho diferencial em cima disso, eu consigo criar meu modelo de inteligência artificial. 

A gente sabe que em IA a gente precisa integrar diferentes dados com diferentes latências. Então começa a trazer mais a questão de governança, ciber resiliência, O mercado não estava olhando para isso ainda porque ele estava na fase de experimentação.

Infraestrutura como serviço

VC – Quando você fala de ROI, especificamente, vocês têm atuado com esse discurso de mostrar que é possível calcular ROI ao processar a IA localmente com esse armazenamento local, principalmente com equipamentos voltados para a IA

AF – Eu diria que ROI para infraestrutura sim, para o negócio ainda não. Ainda não consigo ver o mercado cruzar o benefício do negócio com o ROI da inteligência artificial. Mas ele já começa a olhar o seguinte: quanto vou gastar para fazer, para processar isso aqui neste lugar? quanto eu gastaria se eu tivesse uma infraestrutura própria? Não só em termos de custo, mas o quanto isso pode trazer de benefício estratégico para mim, porque aí eu crio os meus LLMs, eu tenho o meu diferencial, eu crio meu motor da IA.

O que a gente faz hoje é muito mais do ponto de vista de infraestrutura, então vamos pensar em trazer essa infraestrutura para cá e quanto isso equilibraria em relação à escala que você procura. E aí dentro deste modelo o que a gente tem visto é um fit muito grande com o modelo as a servisse. O mercado aceitou muito bem a questão do consumo como serviço que os hyperscales trazem. 

VC – Isso muda alguma coisa na sua estratégia, esse apetite diferente? 

AF – A Hitachi trouxe para o mercado (esse modelo) há alguns anos, mas o mercado ainda não estava pronto para isso. Hoje eu uma aceitação e entendimento muito mais fácil quando você apresenta modelo como serviço. O entendimento do retorno daquilo é muito mais fácil hoje. A gente tem fechado alguns contratos até relevantes, inclusive com provedores de serviço, o que também é uma quebra de paradigma. 

A gente tem vários casos aqui de sucesso de infraestrutura as-a-service tanto dentro de data centers próprios de clientes do mercado financeiro como em provedores. Acho que o mercado amadureceu e isso é extremamente positivo para a gente. A nossa modelagem não é de prateleira, então isso me dá um fator de diferenciação no mercado. Eu crio modelo específico para aquele cliente e isso é único.

Sustentabilidade e descarte 

VC – Quando a gente fala dessa parte de custo, um ponto que tem sido bastante levantado é o TCO (custo total de propriedade). E aqui entram até questões mais relacionadas a sustentabilidade, que é a eficiência energética, redução de consumo. Isso tem sido importante no debate para vocês? Se sim é uma coisa que o CIO puxa ou vem mais do financeiro, ou até de outras áreas? 

AF – Legal você fazer essa pergunta, porque a Hitachi tem viés muito forte de sustentabilidade, em relação à cadeia completa, então como ela descarta, como ela trata. A gente tem até pacto de zerar a nossa emissão de carbono até 2040, então está muito nosso DNA. A gente vem fazendo reduções drásticas a cada família de produto que a gente lança. Nessa última família a gente criou uma redução de 60% no consumo de energia mantendo a quantidade de terabytes armazenados. Isso é super relevante no mercado. Mas eu acho que são coisas que estão começando a despertar na cabeça. 

Eu vejo, por exemplo, alguns grandes clientes, e aí eu posso até citar porque esse é público, que é a Petrobras.  Quando ela lança edital, coloca o consumo de energia na soma total. Então vamos supor, que você não foi o vencedor do leilão, mas quando ele acaba o leilão, ele soma o consumo de energia como custo e, na verdade, se o seu consumo for menor, você pode ficar mais bem classificado que os demais. Isso é olhar de sustentabilidade mesmo. Estou olhando o TCO e não mais o custo de aquisição. Mas ainda é ponto fora da curva. Eu vejo discussões muito pontuais de alguns clientes com essa preocupação de consumo energético, olhando a questão da sustentabilidade. E aí quando eu falo sustentabilidade é o todo, é consumo de energia, ar-condicionado, espaço em rack. 

Considerando tudo isso, ontem mesmo numa discussão que eu tive com o cliente, ele estava muito preocupado com a questão do espaço em rack. Porque o poder de processamento que hoje você vai construir dentro da frente é cada vez maior. Então você tem que ter tecnologias que te permitam maior poder. (processamento e armazenamento) em um espaço menor. É um tema que a gente tem levado muito para os clientes como diferencial e meio que até para catequizar o cliente da importância do TCO. O Brasil tem uma matriz energética limpa, mas a gente sabe o quão a questão da energia é crucial no crescimento da tecnologia. 

VC – E existe todo um debate em cima disso, sobretudo, agora com esse boom de data centers que a gente pode ter por conta de Redata. Quando você fala, então, que você vê movimento de aumento dessa percepção da sustentabilidade, ela não está arraigada, a gente ainda pode dizer que as discussões ainda estão mais movidas por OPEX e redução de custos? 

AF – Hoje eu acredito que mais na linha ainda de custo do que de uma preocupação ainda de escassez. Você sabe que eu sou uma pessoa de bandeira da sustentabilidade, sou coautora de livro de sustentabilidade. Todo mundo vai ter lá a sua declaração, a preocupação com sustentabilidade, mas a gente ainda vê discussões muito pontuais. Mas isso não tira o nosso objetivo, a Hitachi ela tem a meta de zerar carbono, isso tá nosso tracking, e principalmente todos os nossos equipamentos, a gente sempre busca certificações de consumo de energia em todos eles. 

A gente coloca isso como diferencial para todos os nossos clientes porque a gente acha que sim, energia é ponto crítico e dentro do crescimento de IA a gente sabe que infraestrutura como um todo (conectividade, energia e a parte de infraestrutura de data center) é que vai ser o grande determinante das grandes potências de inteligência artificial. 

VC – Dentro da a meta de zerar carbono, a operação brasileira consegue contribuir de alguma forma com a meta global? 

AF – A gente contribui em toda a cadeia, principalmente descarte. Tudo o que acontece com os equipamentos d a Hitachi, a gente trabalha para entender o fim a fim. A gente promove muito dentro dos clientes também. Eu estava até discutindo esses dias com o cliente, a troca do equipamento, a devolução dele, aí o cliente falou assim: eu tenho que devolver mesmo? Eu expliquei que é uma garantia que eu tenho do descarte. Dentro do nosso grande objetivo aqui de fim a fim, eu tenho que garantir o descarte sustentável. A gente, principalmente em toda essa parte de cadeia logística, contribui com a meta de sustentabilidade.

Soberania digital e oportunidades


VC – É engraçado esse caso do cliente, e é muito do brasileiro, algo cultural. A gente fica com os equipamentos, às vezes, obsoletos em casa, não está usando e não descarta. 

AF – Ou descarta de forma errada. E ele até perguntou como fazia pra devolver. Eu expliquei que acharíamos uma solução fiscal para devolução. E é importante porque o descarte faz parte da sustentabilidade. Ele (equipamento obsoleto) não vale nada para mim, mas eu não sei onde você vai descartar. A gente precisa talvez estruturar melhor o mercado brasileiro para ele conseguir fazer de forma fácil esse tipo de coisa. Lá nos Estados Unidos é muito usual. Você botou novo, eu te devolvo o antigo. 

Recentemente fizemos uma oficina de reciclagem, a gente tinha vários notebooks, que hoje em dia você sabe, o software evolui, o notebook já não consegue mais andar. Aí uma das nossas colaboradoras que trabalha com uma ONG, promoveu uma oficina de sustentabilidade para a criação de bijuterias com resíduos eletrônicos como fonte de renda para mulheres. Fizemos em um final de semana dentro da Hitachi, foi muito legal ver como isso pode ter uma economia circular.

VC  – Eu queria voltar no ponto contigo da soberania até para entender se esse movimento que a gente vê puxado um pouco por regulatório ou por interesses setoriais já impulsiona uma estrutura mais híbrida. Isso tem sido uma chama de oportunidade para vocês? 

AF – Eu vejo esse assunto muito mais latente na vertical financeira. Essa semana eu tive um cliente do setor de saúde, perguntei para ele sobre soberania e ele falou que não tinha essa preocupação agora. Então eu vejo muito do mercado financeiro, mas ainda muito embrionário. Por outro lado, existe uma complexidade em como fazer isso. Eu vejo todo mundo debatendo, mas o que é soberania? Onde eu tenho que colocar o meu dado? Não é tão simples assim. Eu trabalho com multi-cloud, adianta eu trazer para dentro do meu data center? Não adianta. Então existe uma discussão ainda bem quente em cima do tema.

E quais são os motivadores? Acho que principalmente a questão da instabilidade geopolítica, que acabou motivando muito essa preocupação, mas eu ainda acho que está todo mundo debatendo como é que eu posso ter um mínimo garantido para poder – não digo total controle da soberania -, dar sobrevivência ao meu negócio. Soberania não é só trazer o dado para o Brasil, mas está em cima de que tecnologia, de que país, e eu não estar totalmente dependente daquilo. Então mesmo quando eu penso em trazer para o mundo híbrido e trazer uma sobrevivência para dentro do meu data center, eu também vou buscar equilíbrio de não estar na mão da China nem dos Estados Unidos, ter uma flexibilidade. 

VC – Mas pensando nessa linha e até falando de setor financeiro, você falou de famílias de produtos, você não citou nenhum. Eu estava com nome de produto aqui que é o VSP One. É da linha recente de vocês? 

AF – A Hitachi sempre cria plataformas unificadas. O VSP One é o nome da nossa plataforma unificada de armazenamento. Ele pode começar em um armazenamento de entrada e ir até armazenamento enterprise high-end. Isso traz uma flexibilidade para o cliente, até dentro desse tema de soberania. A gente tem discutido muito com os clientes isso. Vamos replicar o seu dado de forma a você fazer uma virada e uma decisão mais rápida. 

Ele também é uma plataforma que traz embutida nela toda a questão da ciber resiliência, que é outro tema que está muito quente. Essa preocupação é grande com a questão da resiliência do dado, tem muitos projetos também de revisão de infraestrutura. Você poder ter uma infraestrutura onde você tem uma detecção rápida do dado que está contaminado, onde você cria bolhas de proteção para poder fazer uma rápida recuperação, onde você cria uma automação para trazer rapidamente as suas aplicações críticas. 

VC -Vocês anunciaram recentemente crescimento global de 45% em armazenamento. Pensando nessa robustez que a empresa está de crescimento, onde que estão as oportunidades mais legais aqui no Brasil? 

AF – Tem um pouco de tudo, a gente atua aqui em vários setores. Quando você vai para governo, você vê forte investimento em algumas frentes. Por exemplo, a vertical jurídica é uma das que mais tem investido em tecnologia e principalmente armazenamento. Não mais só em relação à digitalização, mas também à criação da inteligência artificial para melhorar os processos internos. E só lembrando, que a inteligência artificial traz a geração de mais dados. É diferente, por exemplo, de falar de analytics, que você tem uma base de dados, data lake, e você só vai extrair informação.  

Quando você vai para inteligência artificial, ela gera novos data points, você vai multiplicando essa informação por novos data points porque ela vai trazendo aprendizados. Então, a gente tem visto modernização sim, é muito forte, principalmente direcionado por essa questão de ter algum plano B e não depender de ninguém. Já temos projetos voltados para grandes processamentos de IA, mas eu acho que hoje o forte ainda é modernização, pensando em controle, soberania, de você ter plano a parte de resiliência, que também gera investimento alto. 

Resiliência tem bastante investimento e eu acho que a IA viria em terceiro, ainda engatinhando. Mas acredito que vai chegar uma hora que ela vai ultrapassar todos os projetos porque vai estar todo mundo criando uma sua infraestrutura própria para inteligência artificial. Então eu classificaria nessas três frentes aí que é modernização, resiliência do dado e por terceiro aí a questão da inteligência artificial. 

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