Marco Aurélio Neves, sócio-líder de Consultoria da Grant Thornton. Foto: Divulgação

Como transformar os ganhos operacionais em resultados financeiros mais amplos com a inteligência artificial é um desafio para a maioria das empresas. Segundo a pesquisa “CFO Survey Q3 2026”, da Grant Thornton, 84% dos diretores financeiros (CFOs) pretendem aumentar os aportes em IA nos próximos 12 meses. Ao mesmo tempo, 80% esperam que suas organizações registrem crescimento dos lucros no período.

O levantamento mostra que a tecnologia já apresenta resultados em áreas como produtividade, tomada de decisão e controle de custos. No entanto, ampliar a receita com o uso da IA ainda é um objetivo menos consolidado. A mudança exige que as empresas avancem além de ferramentas isoladas e integrem a tecnologia aos processos de negócio.

Produtividade lidera os ganhos com IA

Para 63% dos CFOs entrevistados, o aumento da produtividade está entre os principais benefícios já obtidos com a inteligência artificial. A melhoria na tomada de decisão aparece em seguida, mencionada por 45% dos participantes. Outros 44% destacam a maior efetividade da força de trabalho, enquanto 41% apontam a redução de custos.

A avaliação das soluções também é positiva: 65% dos executivos classificam como boa ou excelente a qualidade e o desempenho das ferramentas adotadas. Na perspectiva financeira, quatro em cada dez entrevistados afirmam que o retorno sobre o investimento (ROI) em IA superou as expectativas. Outros 44% dizem que os resultados ficaram dentro do previsto.

Marco Aurélio Neves, sócio-líder de Consultoria da Grant Thornton, apontou em nota que “após um período marcado por testes e lançamento de novas soluções, as empresas começam a cobrar resultados mais concretos dos investimentos em IA. Produtividade e eficiência já aparecem de forma clara, e o desafio passa a ser incorporar essas soluções aos processos de negócio para ampliar o impacto gerado”.

A geração de receita ainda fica para trás

Embora os ganhos de eficiência estejam mais evidentes, a capacidade de gerar novas receitas com inteligência artificial ainda precisa avançar. Apenas 33% dos CFOs apontam o crescimento da receita entre os benefícios já alcançados com a tecnologia, uma diferença de 30 pontos percentuais em relação aos que citam ganhos de produtividade.

A distância indica que acelerar tarefas e reduzir custos não garante, por si só, novas fontes de faturamento. Para ampliar o retorno, as empresas precisam avaliar como a IA pode mudar processos completos, melhorar a oferta de produtos e serviços e abrir oportunidades de negócio.

“Existe uma diferença entre usar IA para executar uma tarefa de forma mais rápida e redesenhar um processo inteiro a partir da tecnologia. É nessa segunda etapa que começam a surgir oportunidades maiores de escala, novos modelos de operação e impacto sobre receita”, explicou Neves.

Orçamento e prioridades limitam a transformação

A execução também aparece como um dos pontos críticos para as empresas que buscam ampliar o uso da IA. Apesar de 84% dos líderes financeiros afirmarem que seus processos de transformação estão atendendo ou superando as expectativas, 43% apontam a concorrência entre prioridades e as restrições orçamentárias como os principais obstáculos ao avanço das iniciativas.

Entre as medidas consideradas mais importantes para melhorar a capacidade de transformação, 40% dos CFOs citam investimentos em infraestrutura tecnológica. A qualidade dos dados e o uso de analytics aparecem em seguida, com 35%, acompanhados pela qualificação de talentos, com 34%, e por uma definição mais disciplinada de prioridades, com 33%.

Os resultados reforçam que a adoção de IA depende de uma combinação de tecnologia, dados, profissionais preparados e capacidade de direcionar recursos. Sem esses elementos, projetos promissores podem ter dificuldade para sair da fase inicial ou alcançar resultados em escala.

Área financeira assume papel estratégico

A própria área financeira está entre as mais impactadas pela inteligência artificial. Finanças e contabilidade são citadas por 39% dos CFOs, à frente de atendimento ao cliente, com 36%; cibersegurança, com 30%; e desenvolvimento de produtos, com 29%.

A participação da área financeira tende a ir além do acompanhamento de despesas e resultados. Com a expansão dos investimentos em IA, os CFOs passam a ter maior relevância na escolha dos projetos prioritários, na distribuição do orçamento e na avaliação dos benefícios gerados pela transformação digital.

O cenário também influencia as perspectivas de desempenho das companhias. Segundo a pesquisa, 35% dos executivos esperam crescimento superior a 10% no lucro líquido nos próximos 12 meses.

Neves acrescentou que “não se trata mais apenas de decidir quanto investir em tecnologia. O CFO passa a participar cada vez mais de decisões sobre onde priorizar recursos, quais iniciativas devem avançar e como medir o retorno gerado pela transformação. Esse alinhamento entre tecnologia, estratégia e resultado tende a ganhar ainda mais peso no planejamento das empresas para 2027”.

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