
A inteligência artificial promete acelerar tarefas, aumentar a produtividade e transformar a operação das empresas. Mas, à medida que a tecnologia avança, cresce também um desafio que não pode ser resolvido apenas com software: preparar pessoas para trabalhar de outra forma, tomar decisões melhores e conviver com mudanças constantes.
Automatizar processos não significa eliminar a necessidade de julgamento, experiência e responsabilidade. Pelo contrário. Durante o Abes Summit 2026 foi discutida a importância de preparar as pessoas em um mundo onde a IA passou a fazer parte do dia a dia.
IA acelera a tecnologia, mas a mudança depende das pessoas
Para Guilherme Goulart, diretor comercial da Skyone, as empresas que conseguem avançar com IA são aquelas que deixam de tratar a tecnologia como um recurso isolado e passam a utilizá-la para resolver problemas concretos de negócio. “Quem está tendo sucesso é quem de fato entendeu que é necessário propor uma mudança no olhar de resolver um problema de negócio”, explicou. Adicionar um agente inteligente a um sistema existente, por exemplo, não garante resultados por si só.
A transformação também exige uma revisão da cultura organizacional. Na avaliação de Goulart, a velocidade dos avanços tecnológicos supera a capacidade de adaptação de muitas empresas. Por isso, a disposição para aprender e mudar de rota se torna uma competência essencial. “Quando a gente fala de adaptabilidade, é necessário entender e não se frustrar, quando a gente está começando a entender uma nova tecnologia, já vai surgir outra que a gente não vai entender. A gente precisa se adaptar”.
O diretor também destacou o receio de profissionais que enxergam a IA como uma ameaça à própria carreira: “ela não vem para nos substituir, ela vem para nos ajudar a realizar algumas tarefas que são repetitivas”. Para ele, a tecnologia deve ampliar a capacidade das pessoas, liberando tempo de atividades repetitivas para que possam pensar, inovar e buscar resultados diferentes.
O que cada geração pode ensinar à outra
A discussão sobre capital humano também passou pelas diferenças entre profissionais mais jovens e experientes. José Securato, CEO da Saint Paul Exame, defendeu que as empresas precisam entender o que cada geração traz de diferente, em vez de transformar essas diferenças em motivo de conflito.
Para ilustrar o tema, ele contou a história de um empresário que construiu uma rede de shopping centers e tinha dificuldade para enxergar o mesmo valor nos empreendimentos aos olhos dos filhos e netos. O fundador via toda a trajetória de construção; as gerações seguintes encontravam um negócio já pronto.
A reflexão vale também para as empresas que passam por uma transformação digital. “Cada geração aporta uma coisa. É natural natural que uma geração nova tenha a facilidade com a tecnologia. É natural que uma geração madura entregue responsabilidade”, apontou Securato. Profissionais experientes carregam conhecimento acumulado sobre o negócio, enquanto os mais jovens podem trazer familiaridade com novas tecnologias e maior disposição para experimentar. O desafio da liderança é fazer essas competências trabalharem juntas.
Securato argumentou que delegar tarefas cognitivas à tecnologia sem desenvolver a própria capacidade de pensar pode prejudicar a formação profissional. “A cognição precisa ser mantida. No final das contas, esse trabalho de julgamento, opinativo, esse trabalho de responsabilidade, é nosso, não da tecnologia”. Para ele, desenvolver pensamento crítico é fundamental para avaliar respostas geradas por IA, questionar resultados e assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas a partir deles.
Coragem, julgamento e cuidado continuam humanos
Maíra Habimorad, CEO do Inteli, trouxe uma perspectiva importante para o debate: não podemos afirmar exatamente quais atividades serão automatizadas e em que velocidade isso acontecerá. Muitas afirmações tratadas como certezas ainda são apenas hipóteses. “Se você quer mudar uma realidade, você tem que construir uma argumentação que se sustente em dados, fatos, não só apenas naquilo que você gostaria que fosse verdade”.
Mas isso não significa que as empresas devam esperar para agir. O ponto é evitar previsões definitivas e preparar profissionais para um cenário em transformação. Para a CEO do Inteli, a IA pode se tornar uma tecnologia de uso amplo, capaz de abrir novas oportunidades, mas sua adoção nas organizações depende de fatores como custos, infraestrutura, regulação e mudança de mentalidade.
Maíra também chamou atenção para a dificuldade de conviver com diferenças e frustrações em ambientes coletivos. Segundo ela, a hiperpersonalização das experiências digitais cria a expectativa de que tudo aconteça no ritmo e da maneira que cada pessoa deseja. “A vida intermediada por tecnologia deu pra gente uma sensação de que o mundo pode ser feito pra gente. Quando o jovem sai do digital, ele vai enfrentar uma vida dentro de uma comunidade, uma comunidade presencial e física. O coletivo não é o individual, o coletivo não é no meu tempo”, explicou. No trabalho as decisões dependem de outras pessoas, regras e objetivos compartilhados.
Para lidar com um ambiente profissional mais incerto, a executiva destacou três competências humanas: coragem para enfrentar problemas e experimentar, julgamento para decidir na ambiguidade ou mesmo sem todas as respostas e cuidado com os impactos das decisões sobre outras pessoas.
Tecnologia precisa de atitude e experiência
O conhecimento técnico não é suficiente para transformar a adoção de IA em ganhos concretos, alertou Emerson Costa, diretor do SENAI-SP. Ao discutir o desenvolvimento de competências, ele destacou a combinação de conhecimento, habilidade e atitude.
A tecnologia pode apoiar a aquisição de conhecimento e parte do desenvolvimento de habilidades. Mas a decisão de adotar uma ferramenta, mudar processos e aproveitar seus benefícios continua dependendo das pessoas. “Tecnologia só funciona com gente. Nós precisamos do olhar humano para fazer a curadoria e fazer as escolhas sobre o que a tecnologia vai efetivamente trazer de ganho para dentro da empresa”, frisou Costa.
O diretor também relacionou a digitalização a uma mudança demográfica. Segundo os números apresentados por ele no painel, em São Paulo, 72% da população era economicamente ativa em 2022. Em 2050, a projeção citada por Costa é de 63%. A redução reforça, em sua avaliação, a necessidade de elevar a produtividade com apoio da tecnologia.
Nesse cenário, profissionais mais experientes ganham relevância, a chamada economia prateada, associada à população com 50 anos ou mais. “Essa geração traz em si um conjunto de habilidades e de competências que a nova geração ainda não desenvolveu. A experiência só se ganha com tempo, então essa geração traz essa experiência que pode de ser potencializada por meio da tecnologia“.
Para Costa, o caminho passa pela formação contínua, em todas as fases da carreira. O diploma não encerra o aprendizado, especialmente em um mercado no qual as ferramentas e os processos mudam constantemente.






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